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Desfalque no banco

Na estante 00005, prateleira 00001,
caixa 1 876, o BC mantém escondido
relatório que mostra que Jader
surrupiou 10 milhões do Banpará

Maurício Lima e Ana d'Angelo

Ana Araujo
Jader: dinheiro do banco público acabava em suas contas e de familiares


Na semana passada, um documento explosivo voltou a causar assombro em Brasília. Ele fornece uma boa pista para explicar um mistério: a origem da fortuna de 30 milhões de reais do presidente do Congresso, senador Jader Barbalho, do PMDB do Pará. O documento é um processo instaurado pelo Banco Central em 29 de julho de 1990 sob o número 9200047419. Tem 2.509 páginas, distribuídas em nove volumes. Sua leitura mostra que o então governador do Pará, Jader Barbalho, despachava dinheiro público depositado no banco oficial do Estado, o Banpará, para uma conta remunerada, aberta numa agência do Banco Itaú, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Nessa conta, numa época de inflação alta em que o repouso noturno de um grande volume já gerava lucros polpudos, o dinheiro rendia juros – mas o rendimento não voltava para o Banpará em Belém, como seria o correto. Da conta do Itaú, aberta em nome do "portador", os lucros eram distribuídos para empresas (todas pertencentes ao então governador Jader Barbalho) e pessoas (quase todas parentes do então governador Jader Barbalho).

O golpe no Banpará não é novidade. Em 1996, o jornal O Estado de S..Paulo publicou uma série de reportagens, baseado num relatório parcial do caso. O relatório era resultado de outro processo, de número 9200047391, e sinalizava que a tramóia teria rendido em torno de 1 milhão de reais, em valores de hoje, mas os auditores, gentilmente convidados pela direção do BC na época, chegaram a escrever que não havia "provas robustas e consistentes contra Jader Barbalho". Agora, o relatório de 2.509 páginas traz a versão completa do caso. Mostra que o golpe não rendeu 1 milhão, mas sim 10 milhões de reais – o equivalente a um terço da fortuna visível de Jader. E não há mais dúvida alguma sobre os beneficiários da falcatrua: os lucros foram depositados em contas bancárias do próprio Jader (uma no Itaú mesmo e outra no Citibank), de sua então mulher, a hoje deputada Elcione Barbalho, de seu pai, Laércio, de sua televisão, sua rádio, seu jornal e sua fazenda, além de uma dezena de pessoas que os auditores apontam como laranjas.

Os fiscais descobriram que a conta-mãe foi aberta pelo próprio Jader. Contam que o então governador foi apresentado ao gerente da agência do Itaú pelo ator Lúcio Mauro, o Fernandinho da Ofélia, do programa Zorra Total, da Rede Globo, que é parente de Jader. O processo contém um anexo com um fluxograma da fraude, mostrando todo o caminho que o dinheiro roubado seguiu durante quatro anos. Ao avaliarem a íntegra da movimentação financeira, os auditores descobriram que a conta do Itaú alimentava a extensa rede da família Barbalho com depósitos mais ou menos modestos. O mais robusto de todos saiu do Itaú e foi parar numa conta de Jader no Citibank, também no Rio de Janeiro. O valor: 500.000 reais.

Durante nove anos, o processo que contém as provas concretas dessa fraude viajou entre um arquivo e outro do Banco Central sem que nenhuma providência fosse tomada contra o senador. O motivo foi a confusão em torno dos relatórios que envolvem a investigação. Ao todo, são três. Um deles nem cita Jader. É o de número 9200052753. Trata-se de um processo administrativo contra a ex-diretoria do Banpará. Outro menciona Jader, mas não é conclusivo. Foi exatamente esse que "sumiu" depois de chegar ao Ministério Público do Pará há alguns anos. E o terceiro, mais completo, é definitivo em apontar a culpa do senador e cravar que a fraude chegou a 10 milhões. Esse processo sempre foi um mistério. Nem o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, conseguiu acessá-lo. Há duas semanas, Brindeiro requisitou uma cópia ao BC. Queria dados para verificar a procedência das denúncias de enriquecimento ilícito feitas pelo senador Antonio Carlos Magalhães contra Jader Barbalho e das feitas por Jader Barbalho contra Antonio Carlos Magalhães.

Ou o Banco Central se enganou ou Brindeiro foi enganado. O BC encaminhou ao procurador apenas o processo administrativo – aquele que nem cita Jader e se limita a listar as punições contra os diretores do Banpará na época. O processo que interessava ao procurador, não se sabe bem por quê, foi ocultado. Até as vésperas do Carnaval, o relatório que conta tudo estava guardado na delegacia do Banco Central em Belém. Desde então, está trancado a sete chaves no prédio do BC em Brasília. Só a diretoria do banco tem acesso ao documento. Em tese, o Banco Central vai reestudar o processo e expedi-lo de volta para Belém, onde o promotor Vicente Miranda pediu para analisá-lo. Na verdade, esse relatório completo, que foi concluído em 1992, deveria estar desde então no Ministério Público do Pará, ao qual cabe tomar as medidas judiciais apropriadas. Também não se sabe por que isso não ocorreu até hoje.

Em vez disso, o processo completo está "dormindo" nos arquivos do BC desde a sua conclusão. Mas, como um esqueleto de armário, às vezes se mexe, pulando de um arquivo para outro. A cronologia desses movimentos traz algumas notáveis coincidências. Em abril de 1996, o processo foi desarquivado, na mesma época em que Jader andava alfinetando o governo com a proposta de criação de uma CPI para investigar o sistema financeiro. A CPI chegou a ser criada, mas, com a concordância do próprio PMDB de Jader, acabou extinta antes mesmo de ser instalada. Aí, no Banco Central, o processo voltou a hibernar. No início de 1999, já havia uma guerra de poder entre ACM e Jader Barbalho. ACM criou a CPI do Judiciário. Jader ressuscitou a CPI dos Bancos como estratégia para enfrentar o então presidente do Congresso. O governo não se opunha à investigação, que era mais política que financeira, mas teve suas dores de cabeça quando, no meio do caminho, estourou o escândalo da ajuda aos bancos Marka e FonteCindam, em que o BC enterrou 1,6 bilhão de reais para salvar as duas instituições.

A CPI pouco esclareceu sobre o socorro bilionário do Banco Central, mas, quando a CPI dos Bancos pretendia convocar o ministro da Fazenda, Pedro Malan, para explicar o caso, o processo de Jader repentinamente saiu de sua longa hibernação. Malan não foi convocado para depor. O último movimento da documentação ocorreu em 11 de abril do ano passado, quando ganhou novo endereço: R01, estante 00005, prateleira 00001, caixa 1876. E a cronologia aponta uma última coincidência: duas semanas antes de o processo mudar de lugar, Tereza Grossi teve seu nome finalmente aprovado pelo Senado como diretora da instituição. A última do Banco Central é a seguinte: depois de encaminhar cópia do processo inócuo à Procuradoria Geral da República, o banco mandou dizer que não vai entregar cópia do processo completo a ninguém, nem ao Ministério Público do Pará nem à própria Procuradoria Geral.

 
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Fotos: Cristino Martins/ O Liberal, Oscar Cabral, Andre Penner, Paulo Jares e Ricardo Benichio

 

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