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O PSDB perde um leme

Em estado grave, Covas deixa os tucanos
sem uma de suas principais referências

 
Antonio Milena
O governador na sala de reuniões do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista: coerência na vida política e extraordinária autoridade moral

O governador paulista Mário Covas não perde tempo teorizando. Ele faz – e ensina os outros a fazer. Quando o governo militar quis processar o então deputado Márcio Moreira Alves, que pronunciara um discurso crítico às Forças Armadas, em 1968, ele fez. Na condição de um dos líderes da resistência, subiu à tribuna para pronunciar um discurso memorável: "Esta casa está sendo submetida a julgamento. Recolhida ao banco dos réus, aguarda o veredicto, que será exarado pelos seus próprios ocupantes. (...) Como acreditar que as Forças Armadas brasileiras (...) colocassem como imperativo de sua sobrevivência o sacrifício da liberdade e democracia no Brasil". A reação do governo veio no dia seguinte, com o fechamento do Congresso Nacional pelo AI-5. Foi preso com a decretação do ato institucional, em dezembro. Libertado às vésperas do Natal, refugiou-se em Santos. Em janeiro de 1969, recebeu a notícia da cassação e da suspensão de seus direitos políticos por dez anos.

Em 1992, o então senador Fernando Henrique Cardoso e Tasso Jereissati ensaiaram uma aproximação com o então presidente Fernando Collor que poderia render ministérios para os tucanos. FHC e Tasso estavam encantados com a idéia de ingressar no governo collorido e, quem sabe, indicar o novo presidente. Foi aí que Covas, então senador, ensinou os dois a fazer. Opôs-se de tal maneira ao projeto que ele acabou arquivado. Achava que o sucesso de Collor não traria benefícios ao partido e um eventual fracasso arranharia a imagem dos tucanos. Quem estava certo? O que seria do PSDB caso tivesse aderido ao governo Collor-PC Farias? Na semana passada, o estado de saúde do homem que faz e ensina a fazer era gravíssimo e as declarações médicas a respeito de suas chances de recuperação tornaram-se menos científicas e mais filosóficas. Infelizmente. "Vamos até onde permitir a dignidade, e dignidade às vezes é ter uma postura de observação, evitando o sofrimento", disse o médico David Uip.

O PSDB perdeu um leme. Covas acostumou-se a atuar como um guia que indicava uma direção segura para o tucanato. No meio de uma campanha presidencial marcada por idéias pobres em 1989, ele fez um discurso célebre, quase profético. Disse que o Brasil precisava de um choque de capitalismo. Não convenceu. O empresariado achava que ele estava próximo demais da esquerda. E os eleitores não conseguiram defini-lo. Acabou em quarto lugar, atrás de Brizola, Lula e Collor. Seu discurso foi um embrião do que viria a ser o pacote de transformações econômicas iniciado por Collor e concluído por FHC. Nos últimos meses, Covas empenhava-se em escolher já um candidato tucano à sucessão presidencial de 2002. Ao lançar o nome de Tasso Jereissati, acabou antecipando um debate que o Palácio do Planalto só queria ver iniciado no ano que vem.

Se a carreira de Covas tivesse uma única marca, algo difícil em se tratando de alguém com quarenta anos de vida pública, ela seria sua incrível humildade para aprender. A teimosia é um traço indissociável de sua personalidade, mas alguns amigos desconfiam que ele cultiva o estilo um pouco por folclore. Ele sempre se posicionou contrário à tese da reeleição. Mas, quando percebeu que seu partido defendia a reeleição de FHC, e que ele formava um bloco minoritário, deixou a teimosia de lado e aderiu à causa. Ideologicamente, Covas sempre se definiu como um homem de centro-esquerda, aquele que acredita no papel do Estado como agente ativo da promoção do desenvolvimento. Falta ônibus na cidade? O governo compra. Um segmento da economia precisa de financiamento? É para isso que existem os bancos estatais.

Ao assumir o governo de São Paulo, em 1995, percebeu rapidamente que o Estado promove o crescimento com maior eficiência quando se afasta de algumas tarefas próprias da iniciativa privada. O orçamento do Estado estava corroído por um déficit anual de mais de 7 bilhões de reais. O governador enfrentou a situação com um choque liberal. Eliminou 60.000 cargos e lançou um ambicioso programa de privatização de rodovias e do setor elétrico que rendeu 32 bilhões de reais aos cofres públicos. Mais tarde disse a amigos que jamais lhe ocorrera que algum dia teria de demitir funcionários públicos, até que abriu as contas do Estado. Por incrível que isso possa parecer hoje em dia, orientar um governo pelo espírito da austeridade era uma novidade quando Covas tomou posse no Palácio dos Bandeirantes.

Em três anos, as contas do governo foram colocadas em ordem e o Estado recuperou sua capacidade de investimento. Muitos economistas acreditam que a determinação do governador foi fundamental para o sucesso do real. Temia-se que um desequilíbrio acentuado nas contas da maior economia estadual do país poderia abalar a estrutura da nova moeda. Essa determinação em seguir uma política, até então sem nenhum apelo popular, quase lhe custou caro. Seu governo teve uma avaliação medíocre. Covas decidiu disputar a reeleição na última hora e até a reta final estava em terceiro lugar nas pesquisas, atrás do rival Paulo Maluf e do desconhecido Francisco Rossi. Virou na última hora, ganhou no segundo turno e chegou ao auge de sua carreira perto de completar 70 anos. A carreira política já foi definida como um terreno de provações, em que o caráter das pessoas é posto em xeque a todo instante. Alguns não resistem e trocam suas convicções por um punhado de cargos. Outros vendem a consciência por um punhado de dinheiro. Covas forma no time especial dos que ocuparam os cargos públicos mais endinheirados do país e saíram deles com o mesmo patrimônio de classe média. Rica é apenas sua biografia.

 

Saiba mais
Confira na VEJA on-line as últimas notícias sobre o governador Mário Covas

 

Consagração no final da carreira

A seqüência de fotografias abaixo mostra os principais momentos da carreira do governador Mário Covas, da estréia como candidato derrotado à prefeitura de Santos à apertadíssima reeleição para governador de São Paulo, em 1998

Álbum de família
Álbum de família
Sergio Berezovsky
Primeira derrota – Covas discursa na campanha para prefeito de Santos: perdeu para o candidato apoiado pelo Ademarismo Exílio em família – Eleito deputado federal, Covas foi cassado depois de liderar um movimento de defesa ao deputado Márcio Moreira Alves, a quem os militares queriam processar em virtude de um discurso político Prefeito nomeado – Em 1983, antes da abertura política, aceitou o convite de Franco Montoro e recebeu a nomeação para prefeito de São Paulo

Rogério Reis
Álbum de família
Dias de glória – Na campanha das diretas em 1984, um dos momentos de grande prestígio de sua carreira. Anos mais tarde ele seria eleito para o Senado com uma votação histórica Senador constituinte – Ao lado de Ulysses Guimarães, foi um dos principais articuladores do texto da Constituição de 1988

Ari Lago
Inacio Teixeira
Os primeiros tucanos – Junto de Fernando Henrique, Aécio Neves e Franco Montoro, Covas lidera a debandada do PMDB rumo ao PSDB. É o primeiro candidato indicado pelo partido para disputar a eleição presidencial. Ficou em quarto lugar. Seria o candidato ideal dos tucanos em 2002 O auge – Reeleito governador de São Paulo com uma política de austeridade, enfrenta grevistas e monta um amplo programa de privatização

 

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