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A bala que ACM vai disparar

O senador descobriu que um tucanão cobrou
propina de 90 milhões na venda das teles

Alexandre Oltramari, de Miami

O senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL baiano, está se preparando para acionar sua metralhadora contra o ninho dos tucanos. Depois que seus dois ministros, da Previdência e das Minas e Energia, foram demitidos, ACM elevou o tom de suas críticas ao governo e voltou a dizer que o presidente Fernando Henrique Cardoso é honesto, mas não se preocupa em combater a corrupção. ACM tem três balas para disparar. Na semana passada, em entrevista a VEJA em Miami, onde descansou durante o Carnaval num hotel de luxo na aprazível região de Key Biscayne, o senador disparou duas das três balas:

Disse que, numa conversa no Palácio do Planalto, o presidente pediu-lhe para não quebrar o sigilo telefônico de Eduardo Jorge Caldas Pereira, o ex-secretário-geral da Presidência da República, que saiu ileso das suspeitas de envolvimento com os desvios milionários do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Quando indagado sobre as razões que teriam levado Fernando Henrique a tomar essa atitude, ACM dá a seguinte resposta: "Não sei, mas ele não queria que quebrasse o sigilo telefônico. O sigilo bancário o presidente me garantiu que o Eduardo Jorge entregaria, mas ele acabou não entregando", diz.

ACM contou ainda que avisou Fernando Henrique sobre o conteúdo do Dossiê Cayman, uma papelada comprovadamente falsa que atribuía ao presidente e a outros três tucanos a propriedade de uma conta no exterior com 368 milhões de reais. Na época, tentou-se, com essa fraude, dizer que a conta no exterior abrigava um caixa de campanha dos tucanos. Como o presidente reagiu? "Imediatamente, eu não sei exatamente por quê, Fernando Henrique me disse que precisava demitir o Ricardo Sérgio." Ricardo Sérgio de Oliveira era, na época, diretor da área internacional do Banco do Brasil e seu nome nem aparecia no papelório de Cayman. O que já se sabia na época é que Ricardo Sérgio arrecadava recursos para as campanhas do PSDB.

 
Cleo Velleda/Folha Imagem
Ana Araujo
Fernando Lemos/Strana
O ex-diretor do BB Ricardo Sérgio, o empresário Carlos Jereissati e o banqueiro Daniel Dantas: comissão de 3,4% para montar o consórcio Telemar

Sobre a terceira bala que carrega na agulha, ACM não dá um pio. Diz apenas que são irregularidades ocorridas na privatização das empresas de telecomunicações e se reserva o direito de apenas revelá-las no momento que julgar mais oportuno – talvez só depois da reunião que o PFL realiza nesta quinta-feira para decidir que posição vai adotar perante o governo de agora em diante. O senador, porém, já contou tudo o que sabe sobre a privatização das teles para dois amigos íntimos. Ouvidos por VEJA, os dois interlocutores de ACM disseram que o senador tem informações cabeludíssimas. Em detalhes:

Que Ricardo Sérgio de Oliveira, então maestro de coxia dos negócios da Previ, o poderoso fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, tinha uma relação íntima com Carlos Jereissati, o dono do grupo La Fonte, um dos integrantes do consórcio Telemar, que comprou o conjunto de dezesseis operadoras que cobrem a telefonia do Rio de Janeiro ao Amazonas.

Que Carlos Jereissati confidenciou a dois amigos que Ricardo Sérgio cobrou uma comissão de 3,4% para ajudar na formação do consórcio Telemar. A propina foi calculada sobre o capital total do consórcio, de 2,7 bilhões de reais. O por fora equivalia a uma fortuna: pouco mais de 90 milhões de reais. O dinheiro deveria ser pago em três parcelas, mas só uma prestação foi depositada. O trato acabou desfeito assim que veio a público o grampo telefônico no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. No grampo, Ricardo Sérgio comenta como vinha agindo no Banco do Brasil às vésperas do leilão das teles: "Estamos no limite da irresponsabilidade".

Que Daniel Dantas, dono do banco Opportunity, descobriu a existência da propina ao se associar ao consórcio Telemar. No leilão das teles, Daniel Dantas era um adversário da Telemar. Até as vésperas do leilão, Dantas achava que a Previ de Ricardo Sérgio estava com ele. Na última hora, porém, a Previ ficou com o adversário, o consórcio Telemar. Depois que virou sócio da Telemar, Dantas entendeu a real motivação da mudança da Previ: a propina de 90 milhões para Ricardo Sérgio de Oliveira.

Ana Araujo
O ministro Eliseu Padilha, dos Transportes: intervenção no DNER

A história joga um facho de luz sobre o personagem que teve a atuação mais controvertida no leilão das teles. Ricardo Sérgio orquestrou o ingresso das seguradoras do Banco do Brasil e da Previ no consórcio de Jereissati. Seu trabalho permitiu colocar o consórcio de pé – que, por um golpe de sorte, produzido pela própria mecânica do leilão, acabou arrematando a Tele Norte Leste com 1% de ágio, o mais baixo de todas as teles privatizadas. Homem discreto e avesso a fotografias, Ricardo Sérgio tem muita experiência em finanças. Já foi executivo do Crefisul e do Citibank e participou na arrecadação financeira dos tucanos. Seu nome aparece nas planilhas que registraram o caixa dois de 10 milhões de reais da campanha reeleitoral de Fernando Henrique. Indicado pelo ministro da Saúde, José Serra, para ser o diretor da área internacional do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio só foi demitido ao ser atropelado pelas fitas do BNDES.

A metralhadora de ACM começou a cuspir fogo com mais intensidade depois que seu inimigo maior, Jader Barbalho, foi eleito para a presidência do Senado com o apoio do Palácio do Planalto. Ficou ainda mais violenta há duas semanas, quando o senador teve uma conversa com três procuradores do Ministério Público. A conversa foi gravada, algumas partes ficaram audíveis, outras, embaralhadas e ininteligíveis. Trechos da conversa vieram a público. Havia alterações em alguns pontos, mas, num truque para aumentar a credibilidade, saíram na imprensa como se fossem transcrição literal de uma gravação. O presidente Fernando Henrique não gostou das críticas de ACM, mas não tomou atitude alguma, pois não podia confiar na fidelidade das "transcrições". Esperou para ver a reação do senador na quinta-feira 22 de fevereiro. De Miami, para onde já viajara, ACM desmentiu alguns trechos publicados, mas aumentou o tom das críticas numa entrevista por telefone ao Jornal da Globo. Na madrugada de quinta para sexta, insone, o presidente escreveu a nota demitindo os dois ministros do senador – e, como que para equilibrar as punições entre os aliados, mandou intervir no DNER, órgão sob controle do PMDB no Ministério dos Transportes. Selou-se aí o rompimento de FHC com ACM.


Zeca Araujo
Eduardo Jorge: sob risco de voltar a ser investigado


Desde então, o senador baiano enrolou-se na bandeira da moralidade pública e ampliou as denúncias de que o governo encobre bandalheiras com o dinheiro público. ACM tem uma dificuldade: convencer a opinião pública de que sua cruzada ética é produto de uma motivação genuína, e não apenas uma revanche contra o Palácio do Planalto. A dúvida resulta do fato de que o senador não demonstrou nenhuma repulsa ética em apoiar – até o último minuto – o governo comprovadamente mais corrupto da história da República, o de Fernando Collor. Ao lado disso, ACM tem uma vantagem: ele mantém intimidade com o governo desde que Fernando Henrique chegou ao Planalto, em 1995. A intimidade não serve para dar credibilidade total ao que diz, mas mostra que ACM tem meios de saber do que está falando, pois durante anos pôde conhecer o governo por dentro. E a lentidão com que o governo reage às suspeitas de corrupção formou o caldo em que ACM se banha.

O DNER, órgão do Ministério dos Transportes sob domínio do PMDB, é um exemplo lapidar. Ali, opera uma usina tão antiga de escândalos que, há quatro anos, o então ministro Sérgio Motta, já falecido, concedeu uma entrevista a VEJA censurando o presidente por entregar o comando da autarquia a afilhados do hoje vice-governador de Minas Gerais, Newton Cardoso, outro que enriqueceu durante a vida pública. O tal afilhado ficou no cargo. Outro indicado de Newton Cardoso até assumiu o comando nacional do DNER e, mais tarde, foi sucedido por um terceiro nome de confiança do vice-governador de Minas. Nesse meio tempo, apareceu o inevitável: denúncias – comprovadas por duas investigações – de que o DNER mantinha, na surdina, um esquema de propinas para furar a fila do pagamento de precatórios. Surgiram até gravações e bilhetes, alguns dos quais envolviam o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha. Só depois que o resultado das investigações veio a público é que se tomou uma providência – pífia, aliás. Um foi suspenso por trinta dias, outro foi advertido e o único demitido pedira sua exoneração havia quase um ano.

Na semana passada, o presidente Fernando Henrique estava sereno. Tinha convicção de que fora paciente com os ataques de ACM e que, na reta final, não dispunha de outra opção senão demitir os dois ministros indicados por seu antigo aliado. ACM, ainda em Miami, também exibia serenidade e dava sinais de que marchará junto com a oposição, que pretende criar uma CPI para investigar o envolvimento de Eduardo Jorge com os desvios do TRT e as falcatruas em órgãos sob controle de peemedebistas. Quanto às denúncias sobre a privatização, dividem-se em dois gêneros. Há a oposição que usa qualquer pretexto para tentar desmoralizar a idéia do programa como um todo. E há as histórias de ladroagem. Sempre que milhões correm numa venda de estatal, há sempre alguém – ou alguéns – querendo colocar algum no bolso por baixo do pano.

 

A resposta do Planalto

Escalado pelo presidente Fernando Henrique para falar sobre as acusações de ACM, o secretário-geral da Presidência da República, o ministro Aloysio Nunes Ferreira, confirma que houve uma reunião, a que ele próprio estava presente, junto com ACM e o presidente. No encontro, diz o ministro, de fato, tratou-se da quebra do sigilo telefônico de Eduardo Jorge, ex-secretário da Presidência, mas o presidente não fez nenhum pedido para que o sigilo telefônico fosse preservado. "Na verdade, chegou-se a um consenso ali de que o sigilo não deveria ser quebrado", afirma o ministro. Por quê? "Porque a divulgação dos nomes para quem Eduardo Jorge ligou colocaria na linha de fogo pessoas que nada tinham a ver com uma investigação orientada com o propósito político de incriminar Eduardo Jorge." Em relação à versão de que FHC afirmou que precisava demitir Ricardo Sérgio de Oliveira quando soube de detalhes do Dossiê Cayman, Nunes Ferreira declara que o presidente não teve essa reação nem mencionou o nome de Ricardo Sérgio. "Isso só pode ser uma confusão do Antonio Carlos", diz.

 

As fitas! Mas que fitas? Ora, as fitas...

Ana Araujo
O procurador Luiz Francisco, que gravou a conversa: múltiplas versões


Num país em que fitas são encontradas sob viadutos, não causa surpresa o rocambole da semana passada. No início, apareceu na revista IstoÉ o conteúdo da conversa que o senador Antonio Carlos Magalhães teve com três procuradores do Ministério Público, em Brasília. O conteúdo foi apresentado de forma a induzir o leitor a julgar que se tratava de uma transcrição literal, o que só é possível a partir de uma gravação. Agora, a revista traz o que diz ser uma transcrição literal de verdade, e há diferenças entre a primeira e a segunda. Numa, quem diz que ACM não deve revelar que sabe como votaram os senadores na cassação de Luiz Estevão é o próprio ACM. Na outra, a frase aparece na boca de seu assessor de imprensa, o jornalista Fernando César Mesquita, que estava presente à conversa. Numa, ACM garante que, se for quebrado o sigilo bancário de Eduardo Jorge, ex-secretário-geral do Palácio do Planalto, o presidente Fernando Henrique ficará em apuros. Na outra, o sigilo bancário vira sigilo telefônico – o que é bem diferente.

Em qual versão se deve acreditar?

A conversa foi gravada por iniciativa do procurador Luiz Francisco de Souza. Um aparelho ficou na sala ao lado, rodou apenas uma fita, mas a gravação saiu inaudível em aparelhos comuns. O outro ficou no bolso do procurador, rodou duas fitas e captou trechos do diálogo. Acabam aí as certezas. O procurador, em uma semana, despachou uma nota oficial e deu entrevistas sem fim, apresentando todas as versões possíveis. Ora dizia que o conteúdo publicado era literal, ora que era "quase" literal. Ora dizia que as fitas foram quebradas, ora que estavam guardadas. Ora que as entregara a seus colegas, ora que as tinha em seu poder.

Em qual versão se deve acreditar?

Na semana passada, a oposição no Congresso decidiu não acreditar em nada. Desistiu de pedir a cassação de ACM. De um lado, porque não quis enfraquecer o novo adversário do governo. De outro, porque a fidelidade da primeira reprodução do diálogo foi posta em dúvida até pelos interlocutores presentes à reunião em que as fitas foram gravadas. Ficou difícil dizer se o senador, de fato, falou que sabia como todos os senadores votam, declarando que a petista Heloísa Helena votou contra a cassação de Luiz Estevão. Na segunda reprodução, essa versão é mantida, com pequenas alterações. Mas existe uma terceira versão, relatada pelo próprio Luiz Francisco, segundo a qual ACM começou falando conhecer os votos de todos os senadores e acabou fazendo uma análise do processo político, deixando transparecer que sua certeza sobre o voto da senadora Heloísa Helena advinha de uma convicção pessoal, e não de provas documentais. "Não podemos duvidar de que ele tenha violado o painel, mas também não dá para afirmar", diz o procurador. Se a oposição achar que agora, com a nova transcrição, a coisa é verdadeira, então pode voltar a pedir a cassação do senador. Ou talvez queira esperar que a fita chegue ao Senado, onde foi oficialmente requisitada, para que ouvidos mais apurados saibam, afinal de contas, o que se conversou naquele encontro no Ministério Público.

 

 

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