A rota
do sucesso
O brasileiro que preside
o
BankBoston conta
detalhes de sua carreira e
dá a receita para
quem quer ter êxito nos negócios
Ricardo Villela
Raul Junior
 |
"Liderar
é
transmitir um sonho. É preciso inspirar as
pessoas a chegar a um lugar em que elas ainda
não
estão"
|
O
goiano Henrique Meirelles é um pioneiro. Foi o primeiro
brasileiro a assumir a presidência de um banco estrangeiro
no Brasil e o primeiro estrangeiro a presidir um banco americano
de grande porte nos Estados Unidos. Passou os últimos
26 anos no BankBoston, de uma gerência no Rio de Janeiro
à presidência mundial que ocupa nos escritórios
de Boston e Nova York. Chegou lá com trabalho e resultados.
Nos primeiros anos, criou a operação de leasing
do banco com tanto sucesso que a sede nos Estados Unidos
enviou auditores para checar se procedimentos e números
estavam corretos. Entre 1984 e 1996, comandou o banco no
Brasil e multiplicou por 45 os ativos da instituição.
Foi então alçado à presidência
mundial. Em 1999, com a fusão do BankBoston com o
grupo Fleet Financial, assumiu as partes de atacado, leasing
e a operação internacional de todo o grupo,
um gigante de 220 bilhões de dólares em ativos.
Solteiro, 55 anos, Meirelles vive num apartamento no nono
andar de um edifício na Quinta Avenida, em Nova York,
com vista para o Central Park.
Veja Em 1963, aos 18 anos, o senhor comandou
uma greve de estudantes contra o aumento de tarifas de ônibus
em Goiânia. Hoje, lidera 28.000
funcionários no sétimo maior banco dos Estados
Unidos. A liderança é uma vocação?
Meirelles
Liderar é uma combinação de vocação
com treinamento. Ao mesmo tempo que é inato, porque
não é qualquer um que consegue exercer liderança,
é também fruto de muita dedicação
e preparo. Se pudesse resumir toda a complexidade que envolve
liderança a uma idéia seria a de que liderar
é transmitir um sonho. É preciso inspirar
as pessoas a chegar a um lugar em que elas ainda não
estão. Não basta motivar-se, tem de motivar
os outros. Não é suficiente ter uma idéia
clara de onde ir, mas principalmente de como ir. O mais
completo é o que sabe também assumir a função
de gerência.
Veja A experiência como líder
estudantil na juventude não é contraditória
com a de executivo globalizado nos dias de hoje?
Meirelles
Pelo contrário. Do meu tempo presidindo a entidade
de estudantes secundaristas de Goiás eu trouxe várias
lições. Talvez o aprendizado mais importante
tenha sido a necessidade de definir claramente as regras
do jogo. Seja na política, seja numa empresa global,
seja num campo de futebol, o primeiro degrau para o sucesso
é entender o que pode e o que não pode, o
que deve e o que não deve. Faz parte do papel de
um líder colocar isso na cabeça de todos.
Aprendi isso na atividade estudantil.
Veja Como assim?
Meirelles
Era
a década de 60. As pessoas não aceitavam necessariamente
o conceito democrático de que a maioria prevalece.
Minha chapa venceu a eleição entre os secundaristas,
mas outro grupo não aceitava a derrota. Minha posse
ocorreu durante uma troca de coquetéis molotov. Esse
era um caso em que as regras do jogo não estavam
bem definidas. Agora, vamos trazer isso para os dias de
hoje. Está definido pela evolução da
sociedade que prevalece a vontade da maioria em qualquer
circunstância, seja no município, seja no Estado,
seja no governo federal. Isso elimina o conflito. Na empresa,
o poder reside na assembléia de acionistas. É
ela que define as regras do jogo e nomeia o conselho de
administração. Os executivos contratados devem
gerir a empresa balizados por essas regras.
Veja Que características são
indispensáveis a um profissional que ambicione uma
carreira como a sua?
Meirelles
Tenho de pensar no que eu procuro quando vou contratar um
profissional. A primeira coisa é o preparo. É
muito importante que a pessoa domine as ferramentas básicas
para a função. Um exemplo: quem quer trabalhar
no departamento financeiro de uma empresa precisa conhecer
finanças. Parece óbvio, mas muita gente negligencia
o básico, achando que pode sair-se bem apenas com
determinação e jogo de cintura. Há
alguns anos, peguei um táxi numa capital latino-americana.
O motorista era articulado e começou a criticar o
ministro da Fazenda do país. Chamou minha atenção
pela inteligência, capacidade de comunicação
e nível de informação. Só que
o táxi estava malcuidado, amassado, sujo e ele dirigia
mal. Na semana seguinte, estava em Zurique e perguntei a
um motorista de táxi o que ele achava do ministro
da Fazenda. Ele não sabia sequer o nome do sujeito.
Mas seu carro estava arrumado, limpo, bem conservado. Dirigia
muito bem e me levou sem sobressaltos ao destino. O segundo
motorista evidentemente estava mais bem preparado para o
trabalho que o outro. O segundo ponto que levo em consideração
é se o candidato gosta do que faz.
Veja Gostar do trabalho faz realmente diferença?
Meirelles
Faz toda. E é preciso deixar isso claro. Vou dar
um exemplo. Há muitos anos, contratei uma recepcionista.
Com alguns dias de trabalho, notei que ela recebia as pessoas
de forma muito sisuda. Conversando com a moça, descobri
duas coisas. A primeira foi que ela não gostava de
sorrir. A segunda, que ela não gostava de ser interrompida
quando envolvida em alguma tarefa. Ora, ninguém é
obrigado a gostar de sorrir e achar legal ser interrompido.
Só que recepcionistas, por definição,
são interrompidas e sorriem. Precisam demonstrar
satisfação e prazer em receber. Ela não
servia para o cargo.
Veja Então esse é o grande segredo?
Ter competência técnica e gostar do que se
faz?
Meirelles
Essas são apenas as premissas básicas. Há
uma qualidade rara, que eu chamo de assunção
de responsabilidade pelo resultado. Significa saber se responsabilizar
pelo trabalho. Funcionários com essa característica
são mercadoria preciosa. É fácil reconhecer
um. Ele nunca diz "Não foi minha culpa", uma das
frases mais irritantes que um chefe é obrigado a
ouvir. Nem se sente injustiçado quando responsabilizado
pelo fracasso de uma missão que repassou a seus subordinados.
É bem mais comum encontrar funcionários que
despejam explicações e concluem dizendo "Fiz
a minha parte". Ora, meu trabalho é fazer com que
o banco não perca crédito, dê lucro
e satisfaça os clientes. A partir daí, o que
está acontecendo com a economia é um problema
com o qual eu tenho de lidar. Não posso chegar à
assembléia geral e dizer: "Sinto muito, senhores
acionistas, de fato nós estamos perdendo muito dinheiro,
mas é que a economia está andando meio mal".
Seja durante a hiperinflação no Brasil, seja
nos períodos de estabilidade econômica, sempre
assumi a responsabilidade pelo resultado.
Veja Para isso, os resultados esperados têm
de ser muito claros.
Meirelles
Sim. Isso tem de estar bem acertado dentro de qualquer companhia.
Definindo bem o resultado que se espera, todos podem focar
o mesmo objetivo. Eu sou presidente do conselho de uma fundação
que visa a dar assistência a meninos das ruas de São
Paulo. Seus resultados têm de ser avaliados pelo número
de meninos efetivamente tirados da rua. Não pelo
número de funcionários, de iniciativas ou
de projetos. Tudo isso é secundário ao objetivo,
que é tirar meninos da rua. Definidos os resultados
esperados, o profissional que quer obter sucesso deve fixar
padrões pessoais de excelência superiores à
média. É fundamental. Os resultados que você
espera de si mesmo têm de estar à frente daqueles
que seus colegas, na maioria, esperam de si próprios.
É comum eu me sentar com um subordinado para comunicar
que nós dois estamos definindo o que é resultado
satisfatório de maneiras diferentes. Às vezes,
o que ele julga bom para ele não é suficiente
para mim. Como eu sou o chefe, ou a pessoa se adapta ou
procura outro trabalho.
Veja À exceção da competência
técnica, tudo que o senhor citou pode ser qualificado
como inteligência emocional.
Meirelles
É isso mesmo. Gostar do que se faz, assumir responsabilidade,
focar resultados e ter padrão de cobrança
pessoal elevado são componentes emocionais. Para
entender a importância disso, lembro um discurso recente
do presidente do banco central americano, Alan Greenspan.
Ele dizia que o maior problema da economia é prever
o comportamento dos consumidores. Muitas vezes, esse comportamento
é definido por medo irracional, palavras do Greenspan.
É um grande economista tomando decisões de
suma importância como se fosse no fundo um psicólogo
amador.
Veja O senhor nasceu numa nação
que não está entre as mais ricas, veio de
um Estado de fora do eixo econômico principal do Brasil.
Em que isso o prejudicou na carreira?
Meirelles
Minha carreira não é tão diferente
assim. Se olharmos os executivos das principais corporações,
vamos notar características comuns. Todos estudaram
em bons colégios. Eu tive uma base sólida
numa boa escola de Goiânia. Todos têm diplomas
de graduação de primeira linha. Eu me formei
engenheiro pela Universidade de São Paulo. Todos
fizeram pós-graduação nas melhores
universidades do mundo. Eu fiz mestrado na UFRJ e estudei
em Harvard. Todos fizeram carreira em empresas de ponta.
Eu estou no BankBoston há 26 anos. Todos entregaram
bons resultados atrás de bons resultados ao longo
da vida. Eu multipliquei dezenas de vezes os ativos da operação
brasileira do banco. Ou seja, a única diferença
é que eu venho do Brasil, um país emergente.
Mas, se retirarmos esse detalhe do processo, o fato é
que minha carreira segue a norma da maior parte dos executivos
de sucesso.
Veja Mas ser brasileiro não o prejudicou
na competição com os outros candidatos à
presidência do BankBoston?
Meirelles
Derrotei quatro concorrentes na corrida pela presidência
do banco. Meu relacionamento com eles teve três fases.
A primeira foi de cordialidade. Como era estrangeiro, ninguém
me via como adversário. Era uma potencial fonte de
apoio. Quando ficou claro que eu era um candidato real,
os humores mudaram para uma profunda hostilidade manifestada
por críticas, tons de voz, olhares, uma série
de linguagens verbais e não verbais mostrando que
existia competição feroz. A terceira fase
foi a de adaptação, que começou depois
que eu venci. Dois ex-competidores adaptaram-se e continuam
no banco. Os outros saíram por uma questão
de desempenho. Eles não se adequaram ao ritmo que
eu estava adotando e ao resultado que esperava de cada área.
Veja Como se manifestava a hostilidade?
Meirelles
Em 1996, pouco antes da minha escolha para a presidência,
houve uma reunião em que cada executivo foi incumbido
de comandar parte das discussões. Eu comecei a contar
o que tinha planejado e os resultados obtidos. Senti uma
barragem de críticas vinda de algumas pessoas. Nada
escapava a elas. Dos resultados à forma como eu os
estava apresentando. Minha primeira reação
foi de perplexidade, e cheguei a me questionar se, de fato,
havia feito um bom trabalho. Felizmente, alguns colegas
passaram a contra-argumentar a meu favor. A insistência
em me criticar era tão acintosa que começava
a irritar outras pessoas. Com o tempo, fui me tranqüilizando
e tive certeza de que as críticas eram injustas.
O ataque acabou tendo efeito reverso. Em vez de me irritar,
me acalmou. Afinal de contas, o direito ao choro é
legítimo.
Veja O senhor é ambicioso?
Meirelles
É preciso definir o que é ambição.
Agora há pouco eu disse que é necessário
fixar padrões de excelência pessoal acima da
média para obter sucesso. Isso pode ser considerado
ambição. Quero sempre entregar os melhores
resultados. Mas não fiquei anos ambicionando a presidência
do banco, que foi, aliás, uma grande surpresa. Lembro-me
bem. Estava em Boston, num jantar com o presidente do conselho,
quando ele me perguntou se eu não consideraria a
hipótese de trabalhar nos Estados Unidos. Respondi
que não. Estava satisfeito no comando do banco no
Brasil. Não achava que houvesse em Boston uma posição
tão desafiadora quanto a do trabalho que já
tinha. Aí ele olhou para mim e perguntou: "Que tal
ser presidente mundial?" Isso era outra coisa, um desafio.
Refleti durante dois meses, porque nunca tinha sequer pensado
em morar no exterior, e topei entrar na corrida.
Veja O senhor queria ficar rico?
Meirelles
É importante que todo profissional seja remunerado
de forma justa. Mas não se pode tomar decisões
profissionais colocando essa preocupação em
primeiro lugar. Em minha carreira, fiz muitas escolhas sem
levar em conta opções que me renderiam mais
dinheiro. Quando estudava na Universidade de São
Paulo, vendi minha parte em uma firma de construção
civil porque concluí que não queria ser engenheiro.
Quando terminei o mestrado em administração,
o convite do BankBoston não era o de maior salário,
mas era o trabalho que me deixaria mais gratificado. A partir
daí, a remuneração veio naturalmente.
Veja Que problemas o Brasil precisa resolver
para receber mais investimentos estrangeiros?
Meirelles
Acho que é hora de atrair o investidor estrangeiro
minoritário. Para isso, duas coisas são fundamentais.
A primeira é mudar a legislação no
mercado de capitais, para que os investidores minoritários
tenham seus direitos protegidos. O segundo ponto é
aumentar a transparência. As empresas e os executivos
brasileiros têm de se apegar ao hábito da transparência
total, fornecendo todas as informações ao
mercado. Aqui, novamente é necessária uma
mudança na legislação. No Brasil, a
carga tributária é bastante alta. Quem paga
imposto paga muito caro. Isso gera um problema, porque empresas
transparentes para investidores são também
transparentes para o Fisco. O resultado é que empresas
abertas acabam com uma desvantagem competitiva. Minha sugestão
é que sejam criadas alíquotas menores para
as companhias abertas, partindo do pressuposto de que as
empresas devem ser estimuladas a se abrir. Com isso, vamos
atrair investimentos para a bolsa, o que daria maior estabilidade
à economia brasileira.