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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
A tríplice aliança
"O
empresariado tem ajudado a melhorar a educação pública.
Num primeiro momento, socorre na manutenção das escolas, promove
festas e dá dinheiro. Com o tempo, as iniciativas se tornam mais ambiciosas,
dando lugar a programas criativos e eficazes"
Imaginemos que a Aerospatiale resolvesse criar um programa para apoiar as escolas
básicas francesas. O ministro da Educação mandaria confiscar
a Légion d'Honneur do presidente, por demência. Em sistemas educativos
consolidados, as empresas não precisam se meter na educação
básica. Na América Latina, é o caso da Argentina e do Uruguai.
Nos Estados Unidos, as empresas defendem a educação no cenário
político. Contudo, em países de educação atrapalhada,
como o nosso, o empresariado tenta ajudar, trilhando outros caminhos.
Em um primeiro momento, os empresários socorrem na manutenção
das escolas, promovem festas e dão um dinheirinho. Isso é infinitamente
melhor do que nada, pois ajuda no cotidiano e abre portas para outras ações.
Mas é pouco. Com a experiência, as iniciativas se tornam mais ambiciosas,
dando lugar a alguns programas criativos e eficazes, por meio de institutos e
fundações do terceiro setor. Modelo disso é a Fundação
Bradesco, que opera rede exemplar de escolas, com mais de 100.000 alunos.
Ilustraηγo
Atτmica Studio
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Inevitavelmente,
o alcance de iniciativas paralelas é limitado, não podendo mudar
o panorama da educação no país. Diante disso, começa
a tomar corpo outra forma de participação do empresariado na educação,
com quantidade e variedade estonteantes de propostas das tolas às
geniais. Dada a impotência das redes públicas, são programas
para reforçar o seu funcionamento. Trazem para a escola o que as empresas
têm de melhor, ou seja, profissionalismo, pragmatismo, gestão e foco
nos resultados.
Algumas contrataram as
mais brilhantes cabeças para criar programas para alunos repetentes, de
alfabetização, educação por TV, uso de computadores,
revistas, bem como aperfeiçoamento da gestão. Operando dentro das
redes públicas ou para elas, seu impacto potencial é tão
grande quanto o tamanho da rede em que agem. Contudo, alguns dos programas mais
criativos vêm do terceiro setor de empresas médias, incapazes de
financiar iniciativas de grande porte. Entram em cena, nesse momento, empresas
enormes, como Petrobras, Banco do Brasil e Vale do Rio Doce, apoiando sua replicação
em grande escala, dando-lhes assim uma envergadura muitíssimo maior. Trata-se
de uma tríplice aliança: a rede pública, as fundações
que desenvolvem os melhores programas e as fundações das grandes
empresas que dão a eles um porte nacional. Essa fórmula começa
a trazer benefícios concretos e tangíveis para a educação
pública. Como o que interessa são
resultados mensuráveis, ilustremos com exemplos em que há avaliações
quantitativas. Boa parte das 33 melhores escolas brasileiras selecionadas
pela Unesco/MEC recebe apoio do terceiro setor. É também
o caso de estados que resolveram dar um salto em sua educação, como
Acre, Pernambuco, Piauí e Sergipe. Uma das quinze maiores médias
no Enem foi obtida pela escola da Embraer, que apenas atende alunos egressos de
escolas públicas. O Acelera Brasil (Instituto Ayrton Senna) toma alunos
multirrepetentes e oferece a eles um programa no contraturno da escola. Em um
ano os participantes aprendem o equivalente ao que os alunos não repetentes
aprendem em dois. Área que chama
atenção pelo contraste entre público e privado é a
gestão. De um lado, parte do empresariado brasileiro avançou muito
na qualidade de sua gestão. De outro, a maioria das redes municipais dá
o exemplo mais rematado de primitivismo administrativo. Daí a importância
de trazer a elas as boas práticas de gestão empresarial, passo inicial
para que se obtenham bons resultados na educação.
Vejamos o exemplo do Pitágoras (onde o autor trabalha), cuja fundação
criou o Sistema de Gerenciamento Integrado (SGI), que também recebe apoio
de grandes empresas. Tomemos os três municípios mineiros com SGI,
que estão na região de Sete Lagoas (Jequitibá, Funilândia
e Baldim). Nas provas oficiais de avaliação do ciclo inicial, obtiveram
46% de alunos alfabetizados. No total dos quinze municípios sem SGI, a
média foi de 22%. Ou seja, a porcentagem de alfabetizados dos três
é mais que o dobro da dos outros. Nem nos municípios mais ricos
da região os resultados se aproximam dos que têm o SGI.
Vivas para a tríplice aliança!
Claudio de Moura
Castro é economista (Claudio&Moura&Castro@attglobal.net
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