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Cinema Idi
Amin, o terrível
Forest Whitaker magnetiza a recriação do terror instaurado pelo
tirano em Uganda 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| James McAvoy e Whitaker, como o médico
e o louco: 300 000 mortes no currículo |
A
galeria dos déspotas africanos é tão vasta quanto terrível.
Só para relembrar alguns exemplos mais notórios, ela inclui de Jean-Bédel
Bokassa, autocoroado "imperador" da República Centro-Africana, que gostava
de comer o fígado literalmente de seus desafetos, a Mobutu
Sese Seko, do antigo Zaire, que em 1968, tendo retirado o ex-ministro da Educação
Pierre Mulele do exílio sob falso pretexto, tratou de extirpar seus genitais,
arrancar seus olhos e desmembrá-lo vivo, num dos inúmeros casos
de tortura insana pelos quais ficou conhecido. Mesmo em meio a tanta infâmia,
o ugandense Idi Amin Dada conseguiu reservar para si um lugar de destaque. Nascido
miserável, recrutado como cozinheiro pelo Exército colonial britânico
em Uganda e protagonista de uma ascensão fulgurante nas fileiras do mesmo,
Idi Amin presidiu o país de 1971 a 1979, entre dois golpes de Estado: o
que ele aplicou no presidente Milton Obote (de quem fora correligionário)
e o que os nacionalistas ugandenses aplicaram nele, por intermédio das
Forças Armadas da Tanzânia. Idi Amin então fugiu para a Arábia
Saudita, e lá se exilou até morrer, em 2003, aos presumidos 79 anos,
com as quatro mulheres a que tinha direito. Como tantos outros ditadores do continente,
o efusivo Amin subiu ao poder anunciando reformas modernizantes para seus governados
e um papel de mais relevância para a África nos assuntos internacionais.
Exatamente como todos os outros, também, deixou atrás de si hecatombes
em série na economia, nas poucas instituições que
havia, na população de seus país. As estimativas atribuem
a Amin 300.000 a 500.000 mortes. Em quase todas as instâncias, de supostos
traidores da pátria e/ou seguidores de Obote os quais só
poderiam somar esses números na imaginação paranóide
do tirano. Em dado momento, os cadáveres jogados no Rio Nilo chegaram a
bloquear as comportas de uma barragem.
O que, afinal, se passou com Uganda é a pergunta que O Último
Rei da Escócia (The Last King of Scotland, Inglaterra, 2006) lança
mas nem tenta responder, dada a futilidade de alguma explicação
racional. Baseado no livro do jornalista inglês Giles Foden, que entre a
infância e a juventude morou em diversos países da África,
o filme que desde sexta-feira está em cartaz no país adota um expediente
consagrado para conduzir a platéia: um protagonista branco que, entrando
de gaiato no tumulto africano, ao mesmo tempo se fascina e é tragado por
ele. Idi Amin tinha um fraco pelos escoceses, porque havia recebido treinamento
militar com eles e porque compartilhava seu antagonismo pelos ingleses. No filme,
então, quando o médico escocês Nicholas Garrigan (James McAvoy,
vivendo uma compilação de diversos personagens reais) o socorre
depois de um acidente e mostra um atrevimento que só sua juventude e ignorância
poderiam explicar, o ditador se toma de amores por ele. Nicholas é trazido
para o círculo íntimo do tirano e, mimado com carros, mulheres e
poder, fecha os olhos para a tempestade que se está armando à sua
volta. Até que, claro, por pouco não perde as pálpebras.
AFP
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| Idi Amin: criminoso e pândego |
O recurso do ponto de vista branco sobre a África cria tantos problemas
quanto resolve como a evocação da atmosfera de gratificação
sensual e, ao mesmo tempo, de pesadelo que os europeus enxergam no continente.
O Último Rei da Escócia não escapa do lugar-comum.
Mas o compensa com algumas qualidades robustas: o roteiro estruturado de Peter
Morgan (também de A Rainha), a direção apaixonada
do escocês Kevin Macdonald (do excelente documentário Um Dia em
Setembro), o bom elenco de apoio e a atuação cheia de energia
de McAvoy, como Nicholas. Mais do que qualquer outra coisa, porém, o que
imanta o filme é a presença de Forest Whitaker, um sujeito normalmente
gentil e introspectivo, mas que aqui navega as vertiginosas mudanças de
humor de Idi Amin com um apetite de que só os atores maiores do que suas
oportunidades são capazes. Em Uganda, Idi Amin Dada até hoje é
lembrado como um criminoso e também como um pândego, que durante
quase uma década, até que suas atrocidades se tornassem insuportáveis,
conseguiu desarmar a opinião pública internacional, que adorava
vê-lo bater nos ingleses, como hoje se encanta com as patacoadas antiamericanas
de Hugo Chávez. Whitaker, aposta certeira para o Oscar de ator, acrescenta
a esse prontuário um outro aspecto o do déspota como uma
triste figura, do tipo que a África, em seu estado permanente de conflagração,
não cessa de produzir.
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