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Cinema Salve
a rainha Ao expor a crise vivida
por Elizabeth II com a morte de Diana, Helen Mirren leva a coroa da
mais excelente das atrizes inglesas

Isabela Boscov
É
raro acontecer algo assim. Aconteceu com Laurence Olivier, nos anos 50, por causa
de um Macbeth extraordinário, que eletrizou o teatro inglês.
Aconteceu também com Marlon Brando, em Uma Rua Chamada Pecado, em
que ele praticamente calcinou a tela com a sua presença, e em O Poderoso
Chefão, quando o talento que já parecia se haver dissipado ressurgiu
com sua potência única. Nesse ano que passou, aconteceu com Helen
Mirren. Não uma, nem duas, mas três vezes. Primeiro, com sua versão
galvanizante de um papel clássico o de Elizabeth I, na minissérie
de mesmo nome da HBO. Depois, com sua volta à pele da atormentada e inflexível
chefe de polícia Jane Tennison, na derradeira temporada da série
Prime Suspect. E, principalmente, com seu trabalho assombroso em A
Rainha (The Queen, Inglaterra, 2006), que estréia nesta sexta-feira
no país e no qual ela vive a outra Elizabeth a II. Atores não
são cavalos num páreo, e a questão não é decidir
qual é melhor do que outro. Mas, graças a essa trifeta, Helen acaba
de se juntar aos grandes da arte da interpretação: os atores que,
em virtude de uma conjugação felicíssima de talento e oportunidade,
viram marcos de excelência e medida pela qual seus colegas são comparados.
A Rainha, que disputa
seis Oscar (o de melhor atriz já é dado como vitória certa),
trata de uma semana singular na vida da Inglaterra: os primeiros dias de setembro
de 1997, em que o país perdeu completamente a fleuma para chorar a morte
da princesa Diana, ao mesmo tempo em que a família real, entrincheirada
em seu castelo de verão de Balmoral, na Escócia, se recusava teimosamente
a entender as dimensões do fenômeno. Pertencente a uma geração
criada na mais extrema restrição emocional, Elizabeth achava que
logo os ingleses recobrariam a compostura, porque "nós não somos
assim". A rainha, além disso, sabidamente detestava a ex-nora, a qual,
depois de divorciada do príncipe Charles, considerava excluída das
hostes reais. Acima de tudo, porém, Elizabeth II expôs sua total
incapacidade de aceitar a popularidade de Diana e de entender como, na morte trágica
porém constrangedora, com um motorista bêbado e um namorado vulgar,
essa paixão popular se exacerbou. Pela primeira vez nos seus 45 anos de
reinado, bateu de frente com seus súditos. E de forma tão crítica
que, em questão de dias, o país estava mergulhado numa crise institucional,
e a rainha, com um currículo de relacionamento com nove primeiros-ministros,
todos sempre colocados no seu devido lugar, se viu sendo cobrada com insistência
crescente pelo recém-eleito Tony Blair (o ótimo Michael Sheen).
Dirigido com ritmo e habilidade
por Stephen Frears, A Rainha é, em primeiro lugar, uma reconstituição
dos bastidores dessa crise parte baseada em depoimentos de pessoas que
a atravessaram, parte fruto da especulação de Peter Morgan, o roteirista
inglês do momento. O que torna o filme fascinante, porém, é
o que Helen Mirren faz da personagem-título. Elizabeth II é uma
das mulheres mais conhecidas do mundo, e também uma das mais indecifráveis
sem o que, claro, não estaria fazendo bem o seu trabalho. Já
o trabalho de Helen é penetrar essa fachada e revelar a humanidade criteriosamente
escondida por trás de uma das mais competentes cabeças coroadas
que a Europa já teve. Helen se desincumbe da primeira etapa da missão
imitar a rainha com perfeição. E cumpre a segunda
com brilhantismo: ao mesmo tempo em que personifica Elizabeth II, a atriz comenta
sua personagem, expõe suas falhas e revela, com uma profundidade inédita,
os motivos pelos quais ela agiu como agiu.
Desde que se lançou, Helen é uma das atrizes mais fortes de um meio
o meio dramático inglês em que atores fortes não
faltam. "Resultado de já nascerem fingindo", brincou Robert Altman, ao
dirigir Assassinato em Gosford Park, sobre a hipocrisia com que os britânicos
lubrificam suas relações sociais. Não é uma estrela,
mas uma atriz de carreira, que desfruta um respeito e uma variedade de escolhas
profissionais raras de encontrar em qualquer outro país. Joga a seu favor,
ainda, uma fabulosa tradição de excelência em textos teatrais,
que vai de Shakespeare ao contingente empregado na televisão inglesa. Tem,
em doses fartas, o destemor imprescindível para que se sobreviva ante tanta
competição. Trevor Nunn, então diretor da Royal Shakespeare
Company, lembrou assim de Helen, no frescor de seus 22 anos: "De repente, chegou
essa garota vestida numa teia de fios pretos, que mostrava bem mais do que cobria.
A conversa parou. Os queixos caíram. Ela não tinha nenhuma experiência,
mas queria adquirir treinamento clássico. Não ocorreu a nenhum de
nós sugerir que ela fosse treinar em algum outro lugar". Dois anos depois,
Helen era uma das estrelas da companhia e até hoje, aos 61 anos
e uma bem-cuidada coleção de rugas, não recuou na sexualidade
e na presença física que a tornaram tão singular. Elas estão
presentes inclusive na sua interpretação de Elizabeth II.
São surpreendentes o respeito
que Helen encontra para com Elizabeth II no momento mais antipático do
seu reinado e a clareza com que ela esmiúça uma relação
tão singular. Entre a maioria dos ingleses, mostra o filme, prevalece o
sentimento de que a rainha tem uma simbiose única com o povo um
sentimento de que a rainha compartilha, e do qual se divorciou perigosamente naquela
semana de setembro. É em nome do seu peso simbólico que Elizabeth
II por fim fez um pronunciamento sobre a morte de Diana. E, mostra Helen Mirren,
é em nome desse mesmo símbolo que a rainha o fez com relutância,
desgosto e coração partido. Diana, vista em A Rainha numa
soberba seleção de imagens feitas por paparazzi, torna-se aqui uma
presença espectral. E Elizabeth II, tão perfeitamente enquadrada
em seu papel simbólico, pela primeira vez ganha corpo e alma. Eis aí
a inteligência e a maturidade com que Helen aborda a rainha: como uma atriz
que, célebre pela proficiência com que desempenha um papel, cai em
desgraça, sem que o papel ou seu desempenho tenham mudado. "Agora a rainha
de verdade é que parece a imitação", maravilhou-se um crítico
inglês. O carioca Affonso Beato, diretor de fotografia de A Rainha,
testemunhou ao vivo esse fenômeno. "Desde a primeira tomada, ficamos todos
arrepiados no set. Helen simplesmente era Elizabeth II", contou ele a VEJA.
Tanta empatia para com Elizabeth
II não deixa de ser curiosa. Filha de pai russo e comunista, e mãe
inglesa e proletária, Helen Mirren (ou, na época, Ilyena Mironoff)
mamou no leite do antimonarquismo feroz. Anos atrás, ao ser apresentada
à rainha num jogo de pólo, não conseguiu se curvar o suficiente
para fazer o cumprimento protocolar ainda vigente entre os leais súditos.
Diz que hoje faria a melhor cortesia de que é capaz, e com prazer. De fato,
não é pouco o que ela ficou devendo às Elizabeths neste último
ano. Só é menos do que as Elizabeths ficaram devendo a ela.
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