Luiz
Felipe de Alencastro
Mistérios
dos bois
e da cachaça
"Num
momento em que a difusão de uma simples marca implica
vultosas operações de
marketing, a ascensão internacional
da cachaça é digna
de registro"
Quem
se interessa pelo assunto sabe das incógnitas que
existem em nossa história econômica, sobretudo
nos desvãos do mercado interno. Tomem-se, por exemplo,
o caso da pecuária e o da cachaça. Ao contrário
do pau-brasil, mera coleta florestal dos machados indígenas,
ou da cana-de-açúcar, variante de um antigo
sistema de produção escravista rodado no Mediterrâneo
e nas ilhas atlânticas, a criação de
gado em escala continental constituiu uma atividade econômica
autenticamente brasileira empreitada na América portuguesa.
Tocados nas margens do São Francisco por fazendeiros
matadores de índios e vaqueiros mestiços
"os curraleiros" , os rebanhos espalham-se no Brasil
seiscentista.
Paralelamente, cresciam no Sul as mulas e o gado fugido
das missões jesuítas dizimadas pelos bandeirantes.
No século XVIII, quando se abre o mercado do ouro,
os rebanhos do Prata, do São Francisco e da Bacia
Amazônica convergem para o centro mineiro, compondo
o espaço econômico que formará os contornos
do Brasil independente.
Cheio de desdobramentos, o tema constitui um notável
campo de investigação. Efetivamente, seria
importante desencavar ossadas e rastrear o patrimônio
genético das variedades bovinas já extintas
ou ainda existentes nos pastos para checar os cruzamentos
mais bem-sucedidos por aqui. Resta que o melhor estudo sobre
a expansão do gado continua sendo as páginas
quase centenárias de Capistrano de Abreu. Para um
país cheio de universidades e com um dos maiores
rebanhos do mundo, as lacunas da pesquisa nessa área
parecem extravagantes.
Outro setor pouco conhecido é o da produção
de cachaça. A cachaça dos engenhos e engenhocas
coloniais terá sido o primeiro manufaturado americano
e, certamente, o primeiro produto colonial brasileiro a
desbancar similares europeus no mercado internacional. Como
tentei demonstrar alhures, a conquista dos mercados negreiros
da África Central pelos exportadores brasileiros
de cachaça, em detrimento dos negociantes lisboetas
que ali vendiam vinho e aguardente extraída da uva,
aparece como um ponto alto de nossa participação
na avassaladora e inglória globalização
do Atlântico Sul no período colonial.
Até hoje a dimensão da indústria da
cachaça permanece opaca. Em 1997, calculava-se que
o consumo nacional da bebida movimentava 7,5 bilhões
de reais por ano. O montante oficial da produção
gira em torno de 1,3 bilhão de litros anuais. Fica
ainda a parte não declarada. Só em Minas Gerais,
um dos principais Estados produtores, estima-se que 7.000
dos 8.000 alambiques existentes
sejam clandestinos. Desde logo, o volume real produzido
deve rondar os 2 bilhões de litros anuais.
No final de janeiro, o representante brasileiro na Organização
Mundial do Comércio (OMC) anunciou em Genebra o início
dos procedimentos visando obter o reconhecimento do termo
"cachaça" como uma patente dos produtores nacionais
de aguardente de cana. As negociações devem
desembocar no registro da cachaça como nome exclusivamente
brasileiro no mercado internacional. Na Europa houve tentativas
para patentear o nome em benefício de outros destilados
e nos Estados Unidos há marcas de rum querendo se
chamar cachaça.
Da massa de turistas que agora chegam ao Brasil surgirão
dezenas de milhares de cultores zelotes da caipirinha em
particular e da cachaça em geral. Outros tantos propagandistas
benévolos de um tipo genérico de bebida fabricado
no país inteiro. Num momento em que a difusão
de uma simples marca implica vultosas operações
de marketing e que categorias inteiras de produtos perdem
consumidores como o demonstra a crise da "vaca louca"
na Europa , a ascensão internacional da cachaça
é digna de registro. Desvendar os segredos da bebida
e da multiplicação dos bois permitiria cingir
melhor os mistérios do Brasil.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador
(lfa@workmail.com)