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Roberto
Pompeu de Toledo
A música
que vem
dos
livros
E
no final, para
não fugir
da vulgaridade,
uma
palavra sobre
um pesadelo
de nome
Jader Barbalho
Carlos
Swann jamais esqueceria a primeira vez que ouviu a pequena
frase da sonata de Vinteuil. Ela lhe abriu a alma "como certos
odores de rosa, circulando no ar úmido da tarde, têm
a propriedade de dilatar-nos a narina". Quem leu Proust sabe
do que se está falando da Sonata para Piano
e Violino, do compositor Vinteuil, executada insistentemente
ao longo dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido.
Em especial, Carlos Swann, um dos principais personagens do
livro, amava a pequena frase que, começando nos trêmulos
do violino, depois se afastava e, "como numa dessas telas
de Pieter de Hooch, cuja perspectiva é aprofundada
pelo quadro estreito de uma porta entreaberta ao longe", aparecia
"dançante, pastoral, intercalada, episódica,
pertencente a um outro mundo". O leitor já ouviu música
igual? Não surpreende que Swann sentisse, ao ouvi-la,
"peculiares volúpias" e fosse conduzido a uma "felicidade
nobre, ininteligível e precisa". Não surpreende
que elegesse a "pequena frase" da sonata o "hino nacional"
de seu namoro com Odette de Crécy.
Agora, com perdão pelo salto brusco, dos finos salões
parisienses para o rude sertão, da harmoniosa e culta
França para o tosco e mal-ajambrado Brasil, adentremos
outro livro sagrado, Grande Sertão: Veredas,
de Guimarães Rosa. Aproximemos o ouvido de suas páginas.
Lá também soa uma música. Urubu é
vila alta/ mais idosa do sertão, começa
a letra. E termina: quando vou p'ra dar batalha/ convido
meu coração. É a toada de Siruiz,
que Riobaldo, o narrador do livro, ouviu apenas uma vez e
nunca esqueceu. Siruiz era um jagunço que, nas andanças
pelo mato, entre um combate e outro, para distrair os companheiros
e a si mesmo, ia entoando canções. Ele "cantava
coisas", diz Riobaldo, "que a sombra delas em meu coração
decerto já estava".
O que há em comum entre a sonata de Vinteuil e a toada
de Siruiz já se percebeu: são ambas músicas
de ficção. Esse Vinteuil, tal qual é
descrito em Em Busca do Tempo Perdido, era um modesto
professor de piano de província, de vida pacata e anônima,
que no entanto, numa obra divulgada sobretudo após
sua morte, se revela compositor de gênio. Em quem se
teria inspirado Proust? As apostas são múltiplas:
César Franck, Gabriel Fauré, Saint-Saëns.
De modo semelhante, a sonata, tal qual é descrita nos
livros, teria base nas sensações de Proust ao
ouvir uma peça de algum desses compositores, ou talvez
de Wagner, ou de Schubert. Mas para que tanta especulação?
Vinteuil é Vinteuil, personagem de ficção,
rigidamente ancorado em sua irrealidade. Igualmente, a sonata
é fictícia, e por isso tão bela. Jamais
uma música foi descrita de forma tão sublime.
Por isso, é sublime.
Só a canção de Siruiz, para fazer-lhe
face. Esse Siruiz morreu logo, em combate. Por isso Riobaldo
não voltou a encontrá-lo. Ficou-lhe a canção.
A letra ele decorou. Já a melodia, Riobaldo, que "entoa
mal", pobremente a conservou. Mas o que queremos? Ficou o
melhor, a sensação, descrita por Riobaldo, de
que a música de Siruiz, ou pelo menos sua sombra, já
lhe habitava o coração. Eis, explicado exemplarmente,
o momento, entre todos mágico, que é aquele
em que a música perpassa o ouvido e se acomoda na alma
como se dela fizesse parte. Ou melhor: como se dela já
estivesse fazendo parte há muito tempo. É como
um reencontro. Aquela música já estava lá,
tem-se certeza. De súbito, ao estímulo externo,
ela sai do sono em que dormitava. É como uma revelação.
Um transe místico. A música, aquela música,
pela qual esperávamos há tanto tempo, nos sacode
e nos devolve a nós mesmos.
Nada como a sonata de Vinteuil, ou a canção
de Siruiz. Nunca se ouviu nada igual, nem em Mozart, nem em
Beethoven, nem em Pixinguinha. E nunca se ouviu nada igual
porque nunca, na verdade, se ouviu nenhuma das duas. Não
existem. O crítico literário americano Harold
Bloom, na entrevista das páginas amarelas da edição
passada desta revista, apontou a razão a seu ver mais
forte pela qual ainda se deve ler a grande literatura, num
mundo dominado pela abundância da informação.
"A informação está cada vez mais ao nosso
alcance", disse. "Mas a sabedoria, que é o tipo mais
precioso de conhecimento, essa só pode ser encontrada
nos grandes autores da literatura." Modestamente, aqui se
aponta outra vantagem da literatura. Mestres como Proust ou
Guimarães Rosa são capazes de produzir obras-primas
da música que nem precisam ser ouvidas. Elas se bastam
no silêncio.
Por
que mesmo se está dizendo essas coisas? Por muitas
razões, mas talvez a principal seja a tentativa de
distrair de Jader Barbalho. Stephen Dedalus, o herói
do Ulisses, de James Joyce, disse (com o perdão
do leitor pelo excesso de citações literárias)
que a história é um pesadelo do qual estava
tentando despertar. Jader Barbalho é um pesadelo do
qual talvez não consigamos despertar. Ou, pelo menos,
do qual não conseguiremos despertar tão cedo.
Melhor é mudar de assunto. Falar de qualquer outra
coisa.
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