Nelio Rodrigues
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A
BUROCRACIA
Supremo Tribunal Federal
Cada um dos juízes da mais alta corte brasileira
julga 3000 processos por ano, contra
100 dos colegas americanos
30 vezes mais |
Um exemplo definitivo da mania brasileira de fazer leis e
achar que está tudo resolvido são as cadeias.
De acordo com a Lei de Execução Penal, de 1984,
cada preso deveria ter direito a uma cela individual com área
de 6 metros quadrados, vaso sanitário e pia. No mundo
real, cada cela tem trinta, quarenta, setenta pessoas. Nas
penitenciárias, os detentos chegam a se amarrar num
lençol preso às grades para dormir em pé,
por falta de espaço no chão. Não é
por outra razão que as fugas são constantes.
Em São Paulo, apenas 10% das 10.000
pessoas capturadas por mês permanecem detidas por mais
de trinta dias. Se não são liberadas por meio
das brechas existentes na lei, acabam escapando das celas,
pulando muros, furando túneis ou simplesmente corrompendo
funcionários do presídio. A partir dessa incapacidade
de prender, processar, julgar e punir é que se desenvolve
a impunidade dos bandidos.
A
impunidade varia de um país para outro de acordo com
certas condições. A impunidade é máxima,
sem nenhuma perspectiva de mudança, em nações
conflagradas, países miseráveis e lugares tomados
pelo crime organizado. Ou seja, cada um faz o que quer onde
não existe democracia sólida nem Estado maduro.
Em países africanos nos quais as tribos se matam há
anos e a existência do Estado é apenas uma formalidade
legal, quem vai perder tempo procurando o autor de um homicídio?
Até porque essas pessoas serão julgadas em que
tribunal? E por quem? No Iraque, onde o ditador Saddam Hussein
elimina até mesmo seus parentes, discussões
sobre impunidade também soam exóticas. Na Colômbia,
devido à gangrena do narcotráfico, que financia
grupos guerrilheiros, a média de homicídios
equivale ao dobro da brasileira e a taxa de seqüestro
é vinte vezes maior. No outro extremo estão
os países desenvolvidos. Na Europa e nos Estados Unidos,
a impunidade existe, mas não como um vírus que
contaminou a sociedade. Há casos aqui e ali, suspeitas
de que este ou aquele réu tenha sido favorecido, sem
que se coloque em discussão a capacidade que o Estado
tem de fazer justiça.
Danny Johnston/AP
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CELA
NADA ESPECIAL
O fato de ter sido sócia do
ex-presidente
Bill Clinton não garantiu a Susan McDougal nenhuma
regalia. Ela foi presa em 1996, devidamente algemada nos
pés e nas mãos |
O
Brasil situa-se numa posição singular, um meio
caminho muito estranho. Desde o final do regime militar, o
país respira um processo admirável de fortalecimento
de suas instituições formais. Os figurões
envolvidos nos maiores escândalos recentes, da fraudadora
do INSS Jorgina de Freitas ao juiz Lalau, estão prestando
contas na Justiça. O Congresso Nacional não
aceitou em seu quadro o deputado Hildebrando Pascoal, que
cortava seus desafetos com motosserra. Hildebrando foi cassado
e preso. O Ministério Público nunca investigou
com tanta eficiência, mesmo que cometa exageros. Ouvem-se
diariamente casos de afastamento de delegados, comandantes
da PM e até de secretários de Estado, sob suspeita
de corrupção. No final das contas, a situação
brasileira parece se colocar, da mesma forma que sua economia,
em algum ponto intermediário entre a barbárie
africana e a eficiência do Primeiro Mundo. A situação
não é nada tranqüilizadora. "Ninguém
sabe ao certo qual é o grau de contaminação
no caso brasileiro, mas o que se vê por aí é
assustador", afirma Márcio Thomaz Bastos, um dos advogados
criminalistas mais respeitados do país.
Há várias maneiras de conferir o nível
de impunidade existente num país. Uma delas está
no grau de tolerância da população em
relação às chamadas pequenas infrações,
como atirar uma lata de refrigerante na rua ou instalar no
carro um equipamento que acusa a existência de radares
na estrada. Nesses casos, o infrator é visto como um
espertalhão inocente. Até mesmo o pagamento
de propina para o guarda é considerado um gesto de
malandragem altamente estimulado em muitas rodas. Essa cultura
vai minando o poder de cobrança e fiscalização
da população. Chega-se a um estágio de
confusão total, em que as pessoas ficam indignadas
com as maracutaias dos políticos no Congresso Nacional,
mas, ao mesmo tempo, subornam o fiscal da prefeitura para
que ele faça vista grossa a uma obra irregular.
AP
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A
EFICIÊNCIA
A polícia americana empreendeu uma verdadeira caçada
para encontrar os sete presos que haviam escapado em dezembro
de uma prisão no Texas. Seis deles foram recapturados.
O
outro suicidou-se |
Embora
o quadro pareça assustador, é possível
reagir. Dezenas de fatores influem nos índices de criminalidade,
da estabilidade das famílias ao grau de satisfação
relativa com as condições de vida das pessoas.
Num país em que o morador do barraco assiste a anúncios
na televisão desfraldando um mundo louro de consumo
desenfreado, é claro que haverá um fosso de
frustração sendo cavado na alma de alguém.
Há também a contrapartida disso tudo
a eficiência do Estado em prender, condenar e manter
o criminoso atrás das grades. A experiência americana
mostra que a adoção de leis draconianas surtiu
efeito bastante positivo. De acordo com uma pesquisa da Universidade
Harvard, uma queda de 2,6% no desemprego produziu redução
de 3,9% dos crimes. Já a política de penas mais
longas adotadas pelos americanos teve um impacto quase tão
grande: 3,7%. Se por um lado o bom desempenho da polícia
e da Justiça evita a aparição de novos
delinqüentes, as cadeias dos Estados Unidos passaram
a ter uma ocupação jamais igualada no passado.
Recentemente, registrou-se a marca impressionante de 2 milhões
de presos nos EUA. Uma pesquisa da Universidade de Missouri
aponta que para cada aumento de 10% na população
carcerária havia redução de 15% a 20%
nos homicídios. Outra pesquisa, realizada na Universidade
de Chicago, concluiu que uma queda relativa de 10% da massa
carcerária provocava aumento de 4% na criminalidade.
O tema da segurança pública começou a
despertar a atenção dos políticos americanos
na metade dos anos 80. Entre as leis duras criadas por lá,
a mais famosa introduziu pena mínima de quinze anos
para qualquer pessoa presa com crack e punições
mais severas para infrações ligadas a tráfico
e uso de drogas. Por causa dela, 400.000
pessoas foram presas. Na última gestão Clinton
inaugurou-se uma cadeia por semana e o ritmo de construção
de presídios continua febril. Um estudo recente do
governo revelou que, somadas as três esferas de governo,
os americanos estão gastando atualmente o equivalente
a 25% do PIB brasileiro para manter essa máquina funcionando
a potência máxima: 250 bilhões de reais.
Graças ao empenho e aos recursos, algumas das cidades
mais violentas do país, como Nova York e Chicago, voltaram
a registrar índices de crimes iguais aos da década
de 60. Em média, houve 20% de redução.
Nos últimos anos, o Estado da Califórnia elevou
os gastos com o sistema prisional de 4,5% para 9,4% do orçamento.
Cada preso custa para o Estado cinco vezes o que custa um
estudante. A realidade americana não pode ser tomada
como exemplo a ser imitado, mesmo porque há diferenças
não apenas culturais mas principalmente quanto à
riqueza produzida para ser gasta em cada país. O que
se pode concluir do processo americano de combate ao crime
é que a eficiência da polícia e a da Justiça
são elementos essenciais para conseguir algum sucesso.
No Brasil, essas duas questões não estão
recebendo a atenção que merecem.

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Preparação
desigual
Claudio Rossi
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O
MODELO BRASILEIRO (foto)
Policiais militares de São
Paulo em treinamento
Os soldados vão para as ruas com salário
inicial de 600 reais e têm
uma taxa de mortalidade três vezes superior
à da população
O MODELO AMERICANO
Policiais de Los Angeles
em treinamento
Os soldados têm nível superior
e
vão para as ruas com salário inicial
de 4500 reais
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Para formar e manter cada um de seus policiais, as autoridades
americanas gastam 400000 reais por ano (o Brasil gasta
um oitavo disso). Antes de sair às ruas, o policial
dos Estados Unidos passa por um rigoroso período
de preparação de quatro meses, no mínimo.
Os cursos de formação dos soldados da
Polícia Militar de São Paulo são
muito mais longos onze meses. Só que parte
considerável desse tempo é ocupada com
teoria. Antes de ir para a rua, um PM brasileiro precisa
assistir a aulas de direitos humanos, sociologia, comunicação
e expressão, direito civil, penal e até
administrativo, mas não tem balas para treinar
tiro. Por ano, cada um deles executa 200 disparos. Nos
Estados Unidos é normal um policial atingir a
marca de 2000 tiros no ano. Quando entra em contato
com a violência das ruas, o soldado brasileiro
sofre com a falta de preparação. A taxa
de mortalidade dos PMs é de um morto a cada grupo
de 1900 o dobro do índice dos patrulheiros
americanos.
As diferenças salariais são enormes, mesmo
se considerando a distância entre a renda média
dos dois países. No Brasil, o PM começa
ganhando 600 reais e o teto é de 5000. Isso se
tiver um desempenho brilhante e chegar à patente
de coronel, depois de trinta anos de carreira, em média.
Da atual tropa da PM paulista, com efetivo de 83000
pessoas, só 54 alcançaram essa posição.
A maioria arrisca a vida por menos de 1000 reais mensais.
O tira americano já sai da academia ganhando
salário quase equivalente ao de um coronel brasileiro
4500 reais. Com isso, o perfil das tropas é
bastante distinto. Os patrulheiros dos Estados Unidos
são de família de classe média
e têm nível universitário. No Brasil,
somente 8% dos soldados possuem curso superior. A maior
parte deles consegue apenas o diploma de 2º grau
e vem de família de classe baixa. Muitas vezes,
eles moram na favela e têm como vizinhos os bandidos
que enfrentam nas ruas.
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Com
reportagem de Ricardo Mendonça, Kristhian Kaminski,
Larissa Squeff e
Rodrigo Vergara, de São Paulo, Mácia Villanova,
de Porto Alegre,
Roberta Pinto, de Salvador, e Neide Oliveira, de Belo Horizonte
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