Somos
todos reféns
Em
razão da inépcia da polícia e da Justiça,
só 1% dos bandidos violentos cumpre pena
Alexandre
Secco e Sérgio Ruiz Luz
Montagem sobre fotos de Sérgio
Castro/AE, Arthur Ikishima,
Caio Guiatelli/AE, Nilton Fukuda, Oscar Cabral e Reproduções |
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1.
Leandro Pereira, ex-diretor
do presídio de Araraquara: suspeito de facilitar
a
fuga de criminosos
2.
Apreensão
de drogas: Brasil está cada vez mais perto dos
padrões colombianos de violência
3.
O
traficante Fernandinho Beira-Mar:
foragido
desde
1997
4.
A
jornalista baiana Maristela: morta com um tiro na testa
5.
Rebelião
na
Febem: superlotação e fugas em massa
6.
O
menor "Batoré": quinze
assassinatos
7. Arsenal recolhido pela
polícia: mercado negro de armas abastece os bandidos
8. Equipe de seguranças particulares:
efetivo já é maior que o da força policial |
Os
estudos sobre segurança pública mostram que,
antes de atacarem uma vítima, os criminosos fazem um
cálculo próprio dos investidores do mercado
financeiro. "Eles analisam a relação custo-benefício
da operação", afirma o coronel reformado
da Polícia Militar de São Paulo José
Vicente da Silva Filho, um dos maiores estudiosos brasileiros
de temas ligados à criminalidade. "Se o risco de ser
preso for alto, o bandido pensa duas vezes antes de agir.
Quando o risco é baixo, a audácia e a violência
aumentam." Essa conta é mundial. No Brasil, as operações
têm sido altamente lucrativas. Os ataques dos marginais,
se nem sempre rendem um dinheiro garantido, ocorrem num ambiente
em que a probabilidade de prisão chega a ser risível.
A hipótese de punição é reduzida
até mesmo para aqueles criminosos que, durante o assalto,
puxam o gatilho e matam. Os estudiosos dividem-se quando são
chamados a listar as causas do crime. Conforme a corrente
de pensamento a que se filia o analista, as justificativas
de cunho social, como a miséria, o desemprego e a falta
de perspectivas, têm maior ou menor peso. Mas todos
são unânimes em dizer que a sensação
de impunidade que tomou conta dos criminosos é a maior
responsável pela escalada de crimes nas grandes cidades.
Liane Neves
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Reprodução
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A
VÍTIMA
Líria Ramos
A comerciante gaúcha foi assaltada 14
vezes em um ano. Numa delas, os bandidos assassinaram
seu marido |
O
BANDIDO
Jorge Luiz Guimarães Costa
Este homem, nascido em Pernambuco, já matou mais
de
20 pessoas e está foragido
desde o começo da década de 90 |
Um
indício da sensação de conforto vivida
pelos marginais é a recente ousadia com que eles passaram
a atacar até mesmo os prédios da polícia.
No Rio de Janeiro, gangues de traficantes já assaltaram
com granadas e metralhadoras um quartel da Polícia
Militar. Em São Paulo, uma quadrilha seqüestrou
na semana passada sete familiares do diretor da penitenciária
da cidade de Araraquara, no interior do Estado. Em troca,
exigiram a libertação de cinco colegas que estavam
presos. Foram atendidos. O diretor do presídio, Leandro
Pereira, acabou exonerado. Em outubro do ano passado, um bando
de quinze homens armados com metralhadoras, fuzis e pistolas
invadiu o 45º Distrito Policial da cidade para resgatar
alguns companheiros. Além de matarem um sargento e
balearem um soldado, que mais tarde teve uma perna amputada,
os invasores libertaram 94 pessoas. "E continuamos recebendo
semanalmente ameaças de novos resgates", afirma Júlio
Yoshito Kawabe, titular daquele distrito.
A impunidade sempre foi tema de debate no país, mas
ela parecia ser um direito exclusivo dos criminosos do colarinho
branco, que faziam das suas e nunca iam parar na cadeia. Agora
não apenas os bacanas parecem livrar-se das condenações,
mas também os marginais que estupram, assaltam ou matam
para roubar. Observe a seguinte conta: de cada 100 crimes
violentos registrados nas delegacias brasileiras, calcula-se
que a polícia só consiga prender os suspeitos
em 24 casos. Desses 24, os policiais reúnem provas
suficientes para levar a julgamento os envolvidos em catorze
casos. Desses, apenas um cumprirá a pena até
o final. Vamos repetir: para cada 100 crimes violentos cometidos,
apenas um criminoso ficará atrás das grades
pelo tempo integral da pena. Inépcia nos sistemas policial
e judiciário é o motivo da impunidade nesse
grau tão elevado. "Essa impunidade estimula a delinqüência",
afirma o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal.
"E o cidadão honesto fica perplexo e indignado diante
da indiferença do Estado, incapaz de punir os que transgridem
as leis."
Heitor Hui/AE
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O
GOVERNO
Marco Vinício Petrelluzzi
O secretário de Segurança
de
São Paulo administra um
sistema penitenciário de
onde fogem por dia 12 presos, em
média |
O clima de impunidade faz com que as pessoas se sintam deixadas
à própria sorte, como se a vida fosse uma eterna
roleta-russa. Um exemplo disso é a história
do comerciante gaúcho Almir Azeredo Ramos. Depois de
ter sua farmácia assaltada nada menos de catorze vezes
num bairro de Porto Alegre, Almir organizou os farmacêuticos
da região e entregou à polícia o nome
do bandido que julgavam responsável pelas ocorrências.
O suspeito foi detido, mas acabou solto alguns dias depois.
Logo em seguida, a farmácia foi assaltada outra vez
por um homem encapuzado de arma na mão. Indignado,
Almir pulou em cima do assaltante e conseguiu arrancar-lhe
a máscara antes de morrer alvejado por um tiro. Era
o mesmo fulano de antes, aquele que os farmacêuticos
denunciaram e a polícia soltou. A história não
terminou aí. Um mês depois da morte de Almir,
a farmácia foi atacada novamente.
Wilson Medeiros/Flash
Foto
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A
JUSTIÇA
Frederico do Espírito Santo
Araújo
O juiz de Montes Claros, Minas Gerais, soltou um preso
acusado de furar com um objeto cortante cerca de 20
pessoas. Algumas semanas depois, o maníaco matou
uma mulher |
A máquina estatal de esclarecimento de crimes é
improdutiva porque contém uma série de entraves
jamais derrubados para valer pelas autoridades. "Brasília
é pródiga em identificar uma falha e aprovar
uma lei, como se letras no papel reduzissem a criminalidade",
comenta o cientista político e colunista de VEJA Sérgio
Abranches. No Brasil, a polícia tem baixo grau de educação,
é mal treinada, mal equipada e mal remunerada. Nas
academias de polícia, os cursos dedicam apenas 10%
do tempo às técnicas de investigação,
enquanto as escolas americanas de policiais separam 90% do
tempo para esses estudos. Quando concluem a fase de treinamento,
os novos soldados vão às ruas com a tarefa de
conviver com duas missões praticamente impossíveis
pagar as contas com um salário de 600 reais
por mês e enfrentar um risco de vida três vezes
superior à média nacional. As delegacias são
repartições públicas que parecem pertencer
ao Brasil dos anos 50. Para começar, os boletins de
ocorrência na maioria dos casos são feitos em
máquinas de escrever daquelas antigas. Os documentos
levam em média quatro meses para seguir a tramitação
até o ponto em que haverá alguma decisão
final. Em Pernambuco, apenas seis das 240 delegacias estão
informatizadas. Isso para falar só no aspecto administrativo.
Tem o lado criminal da polícia também. A tortura
continua sendo usada como método nacional de investigação
e a propina é um hábito corriqueiro.
O
resultado dessa desorganização produz distorções
absurdas. Uma delas é que as prisões acabam
acontecendo não como resultado das investigações,
mas fruto do acaso. O assassino Valdeir Morais Santana, 26
anos, cumpre pena na penitenciária de segurança
máxima de Contagem, na região metropolitana
de Belo Horizonte. Ele foi condenado a 48 anos de prisão
por causa de dois latrocínios, ocorridos entre 1997
e 1998. Detalhe: a polícia o prendeu casualmente quando
participava de uma corrida com uma moto que havia roubado
de uma de suas vítimas. "Quando matei pela primeira
vez, achei que teria muitos problemas com a polícia,
mas não aconteceu nada e, por isso, resolvi repetir
a operação", conta o criminoso.
Geyson Magno/Lumiar
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A
POLÍCIA
Delegacia no Recife
Apenas 6 dos 240
distritos policiais de Pernambuco são informatizados.
Os demais ainda usam máquinas de escrever |
A Justiça não é muito melhor que a polícia.
Calcula-se que 95% das sentenças dadas em primeira
instância sofram recursos em instâncias superiores.
Isso transforma em zero todo o trabalho feito para punir um
criminoso. Processos de homicídio podem levar dez anos
para ser concluídos, sete dos quais parados nas mãos
de burocratas. Parte da lentidão pode ser explicada
pelos problemas crônicos do serviço público
brasileiro. Em São Paulo, por falta de dinheiro, existem
hoje 130 vagas de juiz que não foram preenchidas. E
os quatro tribunais do Estado funcionam com sistemas de informatização
diferentes ou seja, não se comunicam entre si.
A possibilidade de entrar com recursos e protelar a decisão
é outro problema. "Das dez folhas de uma petição
inicial de um advogado, nove discutem o processo e só
uma trata do crime", afirma o desembargador Antonio Carlos
Viana Santos. Uma causa no Brasil pode ser julgada até
oito vezes. Um simples processo de despejo ou uma briga de
vizinhos são julgados sucessivamente por juízes
diferentes e, conforme o caso, vão bater no Supremo
Tribunal Federal.
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