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Cultura é um desperdício

Ilustração Pepe Casals
 

Aos novos prefeitos com problemas de caixa: cortem as leis municipais de incentivo à cultura. O Brasil tem incentivo de mais e cultura de menos. Qualquer cidadezinha pode contar com sua lei. Juiz de Fora, por exemplo, tem a Lei Murilo Mendes. Há pouco tempo, aprovaram-se projetos para um total de 250.000 reais. Música para Sintetizador Modular, de Paulo Motta, ficou com pouco mais de 2.000. E o livro A Batalha Imunológica, de Henrique Teixeira, embolsou quase 12.000 reais. São José dos Campos, graças à sua lei de incentivo, viabilizou o Pirô-Piraquara e a Mostra Joseense de Teatro. Curitiba preferiu investir na dupla caipira Willian & Renan, outrora conhecida como Interior & Capital, que se exibiu na 27ª Festa da Uva e na 3ª Exposul de Pinhais. Cuiabá financiou um festival de rasqueado, o II Brahma Rasque'Art.

Analisemos esse último caso. A Brahma é a maior cervejaria do país. Tem cacife em abundância para bancar o festival de rasqueado de Cuiabá. Talvez até lhe convenha, do ponto de vista promocional. É realmente necessário oferecer-lhe o benefício suplementar de descontar dos impostos a verba de patrocínio? O mesmo vale para a maioria das empresas que investem em cultura no Brasil. O Free Jazz Festival é um ótimo veículo publicitário para a Souza Cruz. Vale a pena incentivá-la ainda mais com a renúncia fiscal? A Cosipa encomendou a Tomie Ohtake um monumento em homenagem aos imigrantes japoneses. O aço da escultura, fornecido pela própria siderúrgica, saiu por conta da Lei Rouanet. Faz sentido? O Bradesco bancou a viagem de Amyr Klink à Antártica, beneficiando-se das leis de incentivo cultural. O que Klink tem a ver com cultura? E, sobretudo, existe investimento mais rentável do que ele? O Bradesco teria dado o patrocínio mesmo sem a ajuda estatal.

O Brasil tem umas trinta leis de incentivo à cultura, entre federais, estaduais e municipais. Pelas minhas contas, a administração pública deixa de arrecadar cerca de 200 milhões de reais por ano. É norma que boa parte desses recursos venha das estatais, com a Petrobras em primeiro lugar. Ou seja, é papo furado que se trata de iniciativa privada. Em 1998, ainda em mãos públicas, a Embratel investiu 9 milhões em cultura. No ano seguinte, já privatizada, 2 milhões. O cinema é a área em que mais se enterra dinheiro. Em muitos casos, financiam-se filmes de gente que, em teoria, não precisaria de apoio, como Xuxa, Cacá Diegues, Guel Arraes, Bruno Barreto ou o pessoal da O2 e Conspiração, duas das maiores produtoras de publicidade do país. Pode-se alegar que os 200 milhões de reais investidos em cultura são uma mixaria, se comparados a todos os outros subsídios governamentais que também deveriam ser extintos. Mas a questão não é só econômica. Se uma cidade como São Paulo é ignorante a ponto de não querer sustentar uma orquestra sinfônica, que não tenha uma orquestra sinfônica. Além disso, essas leis de incentivo partem do princípio de que a arte deve desempenhar uma função social, quando a única função da arte é não ter uma função. Ninguém mandou você ser poeta, músico, pintor ou cineasta. Se você não dispõe de dinheiro para fazer um filme ou para viver de poesia, venda o carro, ou peça emprestado a um agiota, ou explore amigos e parentes. Entre usar dinheiro público para financiar uma obra de arte e deixá-lo para ser surrupiado por um político ladrão, é menos danoso, culturalmente, deixá-lo para o político ladrão.

 

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