"A
síndrome da paz"
Para o mais importante escritor israelense,
a
fadiga pelo conflito constante levará
palestinos e judeus à paz, por concessões
mútuas
José Eduardo Barella
Amós Oz, 62 anos, dezoito livros traduzidos em 22
idiomas, é o tipo de intelectual que provavelmente
só pode existir em Israel. Pacifista militante, já
combateu em duas guerras. Defensor de um Estado palestino,
fala com dureza sobre os vizinhos árabes e os responsabiliza
pela atual situação de violência permanente,
que deverá favorecer, nas eleições
desta semana em Israel, o linha-dura Ariel Sharon. Oz é
o principal expoente da literatura israelense. Sua obra
explora a complexidade de uma sociedade formada originalmente
por pessoas provenientes dos mais distantes rincões
do planeta e seus dramas cotidianos, traduzidos em personagens
marcados pela tensão da guerra interminável.
Filho de judeus poloneses, nascido em Jerusalém com
o nome de Amós Klausner, adotou o sobrenome Oz, que
em hebraico significa coragem. Fundador do movimento Paz
Agora, Oz pegou em armas em 1967, na Guerra dos Seis Dias,
e seis anos mais tarde, na Guerra do Yom Kippur. O conflito
não tem solução militar, acredita.
A paz só virá com concessões mútuas,
dolorosas mas inevitáveis, como acontece num divórcio
litigioso. Desde 1986, o escritor mora com a mulher e os
filhos em Arad, pequena cidade no Deserto de Negev, de onde,
por telefone, deu a entrevista abaixo.
Veja As pesquisas mostram que Ariel Sharon,
o candidato da linha dura mais radical, deve vencer as eleições
desta terça-feira. Por que o primeiro-ministro Ehud
Barak perdeu o apoio dos israelenses?
Oz
Porque o senhor Yasser Arafat deu um tapa na cara de Barak.
Tudo o que os palestinos poderiam pedir Barak ofereceu;
mas, quanto mais concessões ele fez, mais violência
recebeu em troca. Numa situação dessas, que
reação esperar do eleitorado israelense? O
apoio a Sharon é natural.
Veja
Com a vitória de Sharon o processo de paz
será enterrado de vez?
Oz
Não gostaria de fazer profecias porque aqui é
a terra dos profetas e já existe muita competição
nessa área. É difícil prever como será
uma negociação envolvendo Sharon e Arafat,
dois homens igualmente intransigentes. É claro que
tudo pode mudar. Ao longo da História, cansamos de
ver heróis nacionalistas fazendo concessões
e líderes radicais tomando atitudes moderadas.
Veja Arafat não fez a maior das concessões
ao reconhecer o direito de existência do Estado de
Israel na terra originalmente pertencente a seu povo?
Oz
Quem fez a maior concessão? Arafat realmente fez
uma grande concessão ao reconhecer Israel. Mas os
judeus também cederam muito ao abrir mão da
Faixa de Gaza e da Cisjordânia. O que temos são
dois povos reivindicando o mesmo território. Ambos
têm razão e argumentos fortes. A única
solução para a tragédia que vivemos
é um compromisso. Os judeus terão de renunciar
à metade de sua terra natal e os palestinos, também.
Não existe outro país para onde os palestinos
ou os judeus possam ir, temos de dividir este. É
duro, mas as soluções de compromisso são
assim mesmo: nunca satisfazem plenamente as duas partes,
seja na separação de um casal ou na dissolução
de uma sociedade.
Veja Israel não ficou com a melhor parte
do território?
Oz
Não sei. Israel ficou com o deserto de Negev, que
é uma terra inóspita e desabitada, e a costa
mediterrânea. Os palestinos ficaram com as montanhas
e lugares santos como Belém, a Samaria e Jerusalém
Oriental. A divisão é dolorosa para todos.
Cada lado sente como se tivesse sofrido a amputação
de um membro do corpo.
Veja Por quais razões um palestino deveria
concordar com a existência do Estado de Israel?
Oz
Entendo a dificuldade dos palestinos em aceitar a existência
de Israel, mas os judeus não são extraterrestres
que vieram de outro planeta. Eles vivem aqui há mais
de 2.000 anos. Como pacifista,
tenho lutado para que os palestinos tenham seu Estado, vizinho
a Israel, mas não no lugar de Israel.
Veja A ocupação militar dos territórios
palestinos por Israel, com toda a violência que implica,
não compromete o patrimônio moral da civilização
judaica?
Oz
A ocupação e a repressão contra os
palestinos são repugnantes e precisam acabar. Mas
o ciclo de violência, terrorismo, opressão
e ocupação só vai acabar por meio de
um acordo de paz que contemple a criação do
Estado palestino. O que está faltando é o
reconhecimento mútuo.
Veja O senhor acusa os palestinos pela atual
onda de violência, mas não foi Ariel Sharon
que detonou as agressões ao visitar a área
mais venerada pelos muçulmanos em Jerusalém?
Oz
Esse senhor agiu como se fosse um elefante numa loja de
cristais. Mas a visita de uma pessoa a um lugar santo, por
mais provocadora que seja, não dá para justificar
tanta violência. Não acredito que os israelenses
sairiam matando palestinos se um líder deles visitasse
um lugar de culto dos judeus.
Veja O acordo de Oslo, que deu início
ao processo de paz, foi assinado há oito anos, mas
parece que a situação, em vez de evoluir,
retrocedeu. O que saiu errado?
Oz
Perdemos uma boa oportunidade no começo das conversações,
quando havia entusiasmo de ambas as partes para chegar a
um acordo definitivo. Mas ainda acho que a paz é
viável, já que nenhum dos dois lados deixará
de existir.
Veja Por que ainda não foi possível
chegar a um acordo?
Oz
Porque está ocorrendo uma considerável radicalização
das posições palestinas, principalmente por
motivos religiosos. Eles reivindicam soberania exclusiva
sobre os lugares santos disputados pelos dois lados. Há
ainda a questão da volta dos refugiados e a insistência
em querer abolir o Estado de Israel. Enquanto esse radicalismo
persistir, as chances de paz serão mínimas.
Veja Israel não adota posições
igualmente radicais?
Oz
Israel assumiu posições mais moderadas sob
a liderança do primeiro-ministro Ehud Barak. Pela
primeira vez em trinta anos, os israelenses admitem a possibilidade
de existir um Estado palestino, estão dispostos a
devolver todo o território da Cisjordânia e
até a dividir Jerusalém. É uma mudança
dramática de posição. Barak fez tantas
concessões que perdeu a maioria no Parlamento e,
seguramente, a possibilidade de ganhar as eleições.
Veja É o máximo que Israel pode
conceder?
Oz
Ir além disso significa um suicídio. A volta
dos 3,5 milhões de refugiados reivindicada pelos
palestinos seria mortal para Israel. Porque significa mais
que a existência de dois Estados, um palestino e outro
judeu. Significa que teremos, mais cedo ou mais tarde, dois
Estados palestinos e nenhum judeu.
Veja O problema dos refugiados palestinos não
é conseqüência direta da criação
de Israel?
Oz
Na época de sua criação, o Estado de
Israel recebeu 1 milhão de judeus que viviam em países
árabes. Enquanto isso, 60.000
palestinos que moravam onde hoje é Israel tiveram
de se mudar para países vizinhos. Com a criação
do Estado palestino, é justo que os refugiados palestinos
possam estabelecer-se no novo país, mas não
em Israel.
Veja Como convencer os refugiados palestinos
e os países árabes que os abrigam a aceitar
essa solução?
Oz
Israel tem um território equivalente a 1% da área
dos países árabes. É preciso fazer
um acerto no qual os refugiados recebam uma indenização
financeira equivalente ao valor das terras que eles deixaram
para trás em 1948. Os judeus que abandonaram suas
propriedades naquela época também devem ser
indenizados.
Veja Qual a solução para outras
questões fundamentais, como a situação
de Jerusalém e o futuro dos assentamentos israelenses
em áreas palestinas?
Oz
No caso de Jerusalém, acho que a parte judaica deveria
ser administrada pelos judeus e a parte árabe pelos
palestinos. Israel reconheceria a soberania palestina sobre
o Monte do Templo e os palestinos respeitariam as ligações
religiosas, históricas e afetivas dos judeus com
esse lugar santo. Sobre os assentamentos judeus, em sua
maioria os colonos deveriam ter o direito de continuar onde
estão, com autorização das autoridades
do futuro Estado palestino, e ser tratados como cidadãos
palestinos.
Veja Existe alguma chance de israelenses e
palestinos conviverem pacificamente?
Oz
Vão ter de conviver de uma forma ou de outra. A solução
é estipular as fronteiras e fazer com que vivam como
vizinhos decentes. Agora, não dá para imaginar
israelenses e palestinos juntos, dividindo a mesma cama
numa lua-de-mel. Seria o mesmo que propor a unificação
de Brasil e Argentina: vocês acham que formariam uma
nação feliz?
Veja No caso de palestinos e israelenses, meio
século de conflitos demonstrou que não se
trata de uma questão de felicidade, mas de total
impossibilidade de convivência.
Oz
Os países da Europa Ocidental passaram 800 anos em
lutas cruentas antes de chegar à realidade do mercado
comum e das fronteiras abertas. Pode demorar 800 anos, mas,
a exemplo do que ocorreu na Europa, o que hoje parece impensável
vai acabar acontecendo: algum dia, os povos do Oriente Médio
vão viver como uma família.
Veja Os palestinos vão aceitar paz pela
via da negociação?
Oz
Acredito que muitos palestinos apóiam uma solução
negociada com Israel. A maioria dos conflitos do mundo é
resolvida por meio de negociações e de concessões
de lado a lado. Israelenses e palestinos já estão
cansados da guerra, e eu chamaria essa fadiga de síndrome
da paz.
Veja Mas os palestinos parecem menos cansados
e mais dispostos a seguir lutando por seus direitos.
Oz
Eles não têm um Estado independente, que nós
israelenses já temos. Muitos ainda vivem sob ocupação
estrangeira. Tudo isso os motiva ainda mais a continuar
lutando. Quando tiverem seu Estado, o ímpeto nacionalista
tenderá a diminuir.
Veja Como é viver num país em
estado de guerra permanente?
Oz
Terrível. Eu nasci em Jerusalém em pleno conflito
e tenho memórias amargas de minha infância.
Até hoje nunca pisei em certos bairros de Jerusalém
porque, se for lá, me passam a faca. Na época
da independência, em 1948, o setor judeu sofreu um
cerco igual ao de Sarajevo. Fui para o campo de batalha
em 1967 e em 1973. Apesar de ser pacifista militante há
mais de trinta anos, sei que um perigo mortal paira sobre
Israel e nos faz viver constantemente encostados na parede.
Tenho consciência de que os palestinos vivem em condições
semelhantes. É uma tragédia, mas me recuso
a pintar o quadro de preto e branco. A situação
não é como na África do Sul do apartheid,
onde era possível saber quem era mocinho e quem era
bandido. O conflito aqui é entre o certo e o certo.
Veja Como o conflito árabe-israelense
interfere em sua obra literária?
Oz
Meus livros falam do povo israelense, das pessoas que vivem
aqui e sofrem uma influência dramática do conflito
árabe-israelense. Mas nunca usei meus romances para
transmitir uma idéia política. Quando quero
divulgar minhas posições, uso ensaios ou artigos.
Veja O senhor lê obras de autores árabes?
Oz
Sim, mas infelizmente leio apenas obras traduzidas. Meu
autor favorito é meu amigo Naguib Mahfouz (escritor
egípcio, ganhador do Nobel de Literatura em 1988).
Veja Muitos árabes nasceram em Israel,
falam o hebraico e estão integrados ao país.
Isso não cria um conflito interior insuportável?
Oz
Ser palestino nascido em Israel é uma condição
ambígua e dolorosa. Como disse um deles, "é
duro ver meu povo em guerra com meu país". Eles estão
no meio da discussão. Uma das características
mais interessantes dos israelenses é que você
não encontra duas pessoas que concordem sobre todos
os assuntos. É difícil até mesmo que
um israelense concorde consigo mesmo, porque aqui todos
têm a mente e a alma divididas. Os palestinos nascidos
em Israel têm opiniões diferentes das dos judeus
e vice-versa. E temos ainda os imigrantes judeus que vieram
de vários países.
Veja Esse conflito pode afetar a unidade da
sociedade israelense?
Oz
Não acredito. Os israelenses têm uma expressão
verbal exacerbada: eles conversam, falam, gritam e discutem,
mas não costumam matar-se uns aos outros. Talvez
por causa da memória do holocausto, ou até
mesmo por causa da história do povo judeu, existe
um tabu sobre a possibilidade de uma guerra civil entre
judeus. O que temos é uma guerra civil verbal o tempo
todo. A divisão é complexa: não se
trata apenas de judeus de origem européia e de origem
oriental, ou de religiosos e seculares. Trata-se de um mosaico
que abriga diversos grupos e subgrupos. Isso, curiosamente,
é bom para Israel: não temos uma sociedade
dividida por causa de um assunto, mas de vários.
Veja O senhor acha que vai viver para ver a
paz no Oriente Médio?
Oz
Está muito claro que vamos acabar tendo, infelizmente,
a criação de dois Estados. Digo infelizmente
porque nenhum dos dois lados vai ficar satisfeito com a
paz que será alcançada. Não será
uma cena de Dostoievski, de irmãos se abraçando.
Não haverá uma reconciliação,
mas um acordo mais parecido com um divórcio do que
com uma lua-de-mel. Não posso dizer quanto tempo
vai demorar, mas sei que vai acontecer. Simplesmente porque
não há alternativa.