Sérgio
Abranches
Fim
do consenso
em Washington
"George
Bush fará
um governo
ultraconservador e
poderá cair
na tentação militarista para
resolver suas fragilidades políticas"
Ilustração Ale Setti
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Para os que só vêem no mundo "os de cá"
e "os de lá" não há diferenças
entre Clinton e Bush. Ambos "de lá". Mas elas são
muitas e relevantes. Clinton fez um governo contemporâneo
das mudanças dessa década. Bush pensa com
os conceitos da Guerra Fria e da "economia de oferta". Clinton
fez uma política militar da melhor defesa em tempos
de paz, investindo na eficácia do poder aéreo,
para reduzir o envolvimento de americanos em combates diretos.
Bush promete armar os Estados Unidos para "além de
qualquer desafio". Clinton podia ser tudo, menos maniqueísta.
Não via o mundo dividido entre amigos e inimigos.
Bush ressuscita a tese do inimigo ameaçador, embora
quando precise dizer quem é não consiga pensar
em ninguém maior que Saddam Hussein. Clinton, em
seu discurso de despedida, reafirmou seu compromisso com
a responsabilidade fiscal. Foi o primeiro de apenas três
pontos que ressaltou como desafios futuros para a "América".
Bush raramente menciona a questão fiscal e insiste
em reduzir impostos como melhor forma de incentivar o investimento
e o consumo.
Clinton é o caso típico do sucesso pessoal
americano: filho de ninguém, tornou-se um dos presidentes
mais populares de seu país. Saiu com 61% de aprovação
como presidente, embora reprovado no comportamento pessoal.
Soube entender a mudança que se produzira nos EUA
e no mundo e surfar a onda em formação da
nova economia. Não inventou o ciclo de crescimento,
mas contribuiu para ele. Na política mundial, abandonou
o armamentismo e buscou apoiar os movimentos democratizantes.
Claro, usou todos os recursos políticos disponíveis
para fortalecer os mecanismos da globalização
favoráveis à hegemonia de seu país.
Sua diplomacia era de negócios, para expandir mercados
e promover os interesses de suas empresas. Na política,
buscou ocupar espaços nos quais seu país jamais
entrou, senão com políticos alternativos,
como nos fóruns social-democratas ou de governança
progressista.
Bush é filho da elite, já morou na Casa Branca.
É o segundo filho de presidente a chegar ao mesmo
cargo. Montou um gabinete de luminares do governo de seu
pai ou com pessoas que despontaram no segundo e terceiro
escalões daquela época. Alguns são
até mais antigos, como Donald Rumsfeld, secretário
de Defesa, que ocupou o mesmo cargo no governo de Gerald
Ford. A assessora para assuntos de segurança nacional
cargo importantíssimo, que já foi ocupado
por Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski , Condoleezza
Rice, é especialista em União Soviética!
O fato de Rice e Colin Powell, o novo secretário
de Estado, serem afro-americanos não sensibilizou
a maioria negra. Estão sendo considerados os "token
negros" de um governo que tem idéias basicamente
excludentes, contra a ação afirmativa e os
programas de inclusão social. O paradigma do conservadorismo
que marca o novo governo é John Ashcroft, indicado
para procurador-geral que também chefia o
Departamento de Justiça , contrário
a todos os avanços comportamentais dos últimos
vinte anos especialmente o ato contra segregação
nas escolas e a ação afirmativa além
de subscrever uma lei antiaborto que, se aprovada, tornaria
crime até o uso de pílula anticoncepcional.
No discurso de posse, reviveu conceitos da Guerra Fria.
Falou de "equilíbrio de poder" em favor da liberdade,
a teoria típica daquela época, inteiramente
superada nos anos 90. O mundo para ele se divide entre "inimigos"
e "aliados" dos EUA. Defendeu o rearmamento, em nome da
"déterrence", isto é, estar tão armado
que ninguém ouse atacar porque seria, literalmente,
o fim do mundo. Começou falando de diferenças
tão profundas entre os americanos que fazem pensar
que vivem num continente, e não em um país.
Mas, ao falar de união, não trata de inclusão,
e sim de valores. Foi um discurso de um "cold warrior" querendo
parecer moderno. Está aquém da nova direita.
Bush se vê mais como o "comandante-em-chefe" da nação.
Assim se autodefiniu ao falar no "baile dos veteranos".
Fará um governo ultraconservador e poderá
cair na tentação militarista para resolver
suas fragilidades políticas.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)