Assassinato ao vivo

Deputado radialista é morto enquanto transmitia programa de final de ano

Andréa Barros, de Vitória

Um dos radialistas mais famosos do Espírito Santo, o deputado estadual do PSDB Antário Filho, 42 anos, chegou ao prédio da Tropical FM, em Cariacica, na Grande Vitória, por volta das 9h30 da noite de 31 de dezembro. Estava descontraído, vestido com uma camisa pólo branca e calças jeans. Entrou na rádio junto com o filho mais velho, Antário Neto, de 15 anos, e com a namorada Tatiana Schuamach. No estúdio, começou seu programa especial de réveillon como fazia há quatro anos, com o bordão "Ôi geeeente!". Durante mais de uma hora, Antário distribuiu presentes para pessoas, conversou com ouvintes e selecionou a música Jesus Cristo, de Roberto Carlos, para tocar depois da contagem regressiva. Em seguida, colocou no ar o pagode Tô Dentro, Tô Fora, do grupo Morenos. Quando a música estava no final, um homem entrou calmamente no estúdio empunhando uma pistola 380. Atônito, o deputado perguntou: "Que brincadeira é essa, rapaz?". O desconhecido descarregou dez tiros e foi embora.

Grito congelado As cerca de 30.000 pessoas que ouviam a rádio, líder de audiência entre as FMs de Vitória, estranharam quando o pagode acabou e o radialista ficou em silêncio. "Achei que era falha técnica", diz Valdelena Barreto de Alencar, última ouvinte a conversar com Antário. Minutos depois, o filho do deputado correu ao microfone e lançou o grito que ficou congelado no ar: "Socorro! A rádio foi assaltada. Atiraram em Antário Filho!". Um dos locutores da emissora, Renato Duarte Nunes, ouviu o apelo no rádio de seu carro, correu para o estúdio e levou o deputado a um hospital particular, mas ele já estava morto. O crime provocou comoção em Vitória. Minutos depois do apelo feito por seu filho, a porta da rádio já estava lotada de ouvintes. No dia seguinte, aproximadamente 5.000 pessoas foram ao enterro. Em seu programa de quatro horas diárias, Antário Filho mantinha um estilo assistencialista, mesclando a programação recheada de pagodes e axé music à distribuição de cadeiras de roda, cestas básicas e remédios. Por conta da audiência, foi o deputado estadual mais votado da Grande Vitória, e o terceiro do Estado. Seus 14.487 votos também o transformaram no mais votado do PSDB capixaba.

Até o final da semana passada, a polícia cambaleava entre as teses de crime passional ou político. Viúvo havia oito anos, Antário era um namorador e, bonitão, provocava idolatria nas ouvintes. Na noite da sexta-feira, a polícia anunciou um suspeito, localizado por meio de uma denúncia anônima. Tratava-se de um operário que, enciumado com a admiração da mulher pelo radialista ela ganhou uma cama e um guarda-roupa de presente do programa , teria resolvido matá-lo. "Mas não eliminamos motivos políticos", diz o delegado Germano Pedrosa, da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa. Cariacica, 350.000 habitantes, tem tradição de resolver rixas políticas a bala. No ano passado, nem o vice-prefeito da cidade, Jesus Vaz, escapou de um atentado, um tiro no ombro. Antário Filho tinha um perfil político pouco agressivo, mas nos últimos meses se meteu em pelo menos uma polêmica. Arquivou o relatório de uma CPI que investigava denúncias de superfaturamento na despoluição da Baía de Vitória.




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