Autorretrato
Durão
Barroso
O
presidente da Comissão Europeia (braço executivo da União
Europeia), José Manuel Durão Barroso, tem laços afetivos
com o Brasil. Seu pai nasceu no Rio de Janeiro, onde seu avô tinha um armazém,
no início do século XX. Representante dos interesses de 27 países,
Barroso defende maior participação do Brasil nas decisões
globais, como disse, em viagem pelo país, ao editor Ronaldo França,
da sucursal de VEJA no Rio de Janeiro.
O
senhor, filho de um brasileiro, se sente ligado ao Brasil?
Muito. É
uma coisa única o tipo de relação humana que se estabelece
no Brasil. Tenho um primo que mora no Rio e vejo que ele conhece todo mundo, quando
vamos a um botequim. É como se fossem aldeias dentro de uma cidade. Não
há esse tipo de convivência nas cidades europeias, embora sejam menores
do que o Rio. Gosto tanto daqui que ainda acabo me candidatando a prefeito do
Rio...
O senhor chegou a morar
no Brasil?
Não, meu pai voltou para Portugal antes disso. Mas eu
e meus irmãos sempre líamos as revistas O Cruzeiro e Manchete,
que ele assinava. Tivemos sempre uma ligação profunda.
Qual
sua visão pessoal do país?
O Brasil tem suas dificuldades
no aspecto social, mas também uma atitude de confiança, de querer
ultrapassar as dificuldades. A miscigenação racial lhe confere um
encanto, e também uma posição mundial que pode ser valiosa.
O Brasil é uma ponte. Estabelece uma ligação entre o norte
e o sul. Há duas grandes democracias nas Américas: Estados Unidos
e Brasil.
Como o senhor vê
a pretensão brasileira de entrar para o Conselho de Segurança da
ONU?
A União Europeia não tem uma posição definida
sobre a reforma do Conselho. Portanto, não temos uma opinião sobre
a entrada do Brasil. Pessoalmente, fui o primeiro não-brasileiro a defender
a entrada do Brasil no Conselho, em 1993. Posso dizer apenas que existe uma boa
vontade geral em relação ao país.
Pode-se
dizer o mesmo em relação ao fim dos subsídios agrícolas
e às barreiras de importação?
As pessoas não
se dão conta, mas somos o principal parceiro comercial do Brasil no mundo.
Cerca de 25% das exportações brasileiras são para a Europa.
Investimos mais no Brasil do que em todos os demais países do Bric juntos.
Há no Brasil uma visão um pouco injusta nesse tema. Não se
comenta que nossas tarifas industriais, por exemplo, são mais baixas. Veja
o caso do vinho. Enquanto Portugal cobra apenas 8%, o Brasil taxa em 35%. Por
isso os preços são tão proibitivos aqui.
O
etanol tem melhores chances?
Houve um grande debate na Europa, em razão
dos problemas que alguns biocombustíveis causam ao meio ambiente. O caso
mais citado foi o do que é feito a partir do milho, nos Estados Unidos.
Mas nós adotamos uma posição favorável. Os combustíveis
renováveis serão 10% de nossa energia nos transportes a partir de
2020, desde que com base em critérios de sustentabilidade.
São
recorrentes as críticas à ineficiência brasileira para proteger
a Amazônia. O senhor as partilha?
Tenho certeza de que o país
quer dar uma resposta a essa questão da proteção à
Amazônia. Nossa posição é de respeito integral à
soberania. Não quero que pareça saudosismo colonial, mas custou
muito aos portugueses manter intacta toda aquela imensa área. Então
ela é brasileira. É surpreendente um país pequeno como Portugal
estar na origem da definição do território deste imenso país
que é o Brasil.