Entrevista Narciso Rodriguez
"Faço roupas, não
faço moda"
O estilista americano fala do
estilo de Michelle Obama,
diz que seguir as tendências da moda é garantia
de
arrependimento e declara sua paixão pelo Brasil

Anna Paula Buchalla
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Selmy Yassuda

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"Michelle
Obama é segura, sabe o que fica bom nela, um
tipo de percepção que a maioria das mulheres,
infelizmente, não tem"
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Na noite da vitória
de Barack Obama, a iminente primeira-dama Michelle apareceu
no Grant Park de Chicago usando um vestido vermelho e preto
da coleção primavera 2009 do estilista Narciso
Rodriguez. Eleita uma das mulheres mais bem vestidas de 2008
pela revista americana Vanity Fair, e fortíssima
candidata a substituir Jackie Kennedy no imaginário
americano, Michelle tem em Narciso um de seus estilistas favoritos.
"A noite da vitória foi um dos momentos mais importantes
da minha vida", diz o filho de imigrantes cubanos nascido
em Nova Jersey. Aclamado o rei do minimalismo, Narciso, de
47 anos, afirma que faz moda para celebrar a beleza da mulher.
Sua carreira teve início ainda como estudante na Parsons
School of Design, em Nova York, quando conseguiu seu primeiro
emprego como assistente de Donna Karan. De férias no
Brasil, país pelo qual se declara apaixonado, Narciso
passou alguns dias no Rio de Janeiro e se encontrou com a
cantora Madonna em São Paulo, antes de seguir para
a Bahia, onde tem uma casa de veraneio. Ele deu a seguinte
entrevista a VEJA.
Deve
ter sido uma emoção e tanto ver Michelle, futura
primeira-dama americana, vestindo uma criação
sua na comemoração da vitória eleitoral
de Obama.
Não resta dúvida de que foi um dos momentos
mais importantes da minha vida, tanto do ponto de vista pessoal
como profissional. O mundo inteiro estava assistindo! É
uma honra saber que uma das minhas criações
está presente num momento tão significativo
da história americana. E pensar que Michelle tinha
tantas opções...
O
senhor não sabia que ela usaria uma roupa da sua última
coleção de primavera?
Eu não tinha certeza e preferi não ficar pensando
muito sobre isso. Mas, como Michelle gosta das roupas que
crio (usou peças minhas durante toda a campanha), a
chance era grande. Fiquei contentíssimo, é claro.
No
dia da posse, ela usará alguma roupa de sua coleção?
Seria maravilhoso, mas isso eu não sei.
O
senhor acha que Michelle se tornará uma nova Jacqueline
Kennedy?
Michelle é uma mulher brilhante. Eu a conheci alguns
anos atrás, em Chicago. É uma mulher que tem
personalidade e, além disso, é muito elegante
e bonita. São qualidades suficientes para se destacar.
O
que a faz tão elegante?
Ela tem postura, além de grande senso de estilo pessoal,
o que não é para qualquer uma. Michelle é
segura, sabe o que fica bom nela, um tipo de percepção
que a maioria das mulheres, infelizmente, não tem.
Definitivamente, ela não precisa de personal stylist.
O
senhor também teve um momento de grande projeção
internacional quando Carolyn Bessette, no casamento com John
Kennedy Jr., em 1996, usou um vestido de sua lavra.
Vestir Carolyn em seu casamento talvez tenha sido o momento
mais maravilhoso da minha carreira. Todo mundo viu aquele
vestido e houve uma corrida por cópias do modelo nos
Estados Unidos e na Europa. É parte da minha história,
não só pelo sucesso que causou, mas porque Carolyn
era a minha melhor amiga, uma das pessoas que mais amei na
vida. Até hoje é difícil falar sobre
isso, porque ainda sinto muita falta dela. A sua morte, bem
como a de John John, foi um choque.
Sua
grife completou, no ano passado, uma década. Para comemorar
a data, o senhor lançou um livro no qual cita o Brasil
como fonte de inspiração. O que o atrai no Brasil?
Sou muito inspirado pela beleza dos corpos de homens e mulheres
brasileiros. A francesa Madeleine Vionnet (estilista das
décadas de 20 e de 30), quando se aposentou, continuou
trabalhando apenas para as suas clientes brasileiras e cubanas.
Madeleine achava seus corpos tão lindos que sempre
queria criar roupas para elas. O mesmo acontece comigo. Não
há nada mais inspirador do que uma bela figura latina.
Quando estou no Brasil, tiro fotos de mulheres andando nas
ruas (de meninas a senhoras) e de pessoas na praia, tomando
sol. Sou apaixonado por este país e o meu processo
de criação é muito influenciado por isso.
Há três anos, fiz uma coleção totalmente
inspirada no Brasil. Diria que 50% da minha vida e da minha
inspiração estão aqui. O livro é
metade brasileiro.
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"Os
desfiles de moda são uma falsa realidade. Você
vai a um espetáculo desses e fica impressionadíssimo,
mas não há nada na passarela que inspire
uma mulher a querer vestir-se bem"
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O senhor se diz contrário
a essa história de "tendências" na
moda. Por quê?
Não sou nem um pouco fã da moda descartável.
Muito da moda que vemos hoje é criado apenas para efeito
de espetáculo, não é feito para as mulheres
usarem. Os desfiles de moda são uma falsa realidade.
Você vai a um espetáculo desses e fica impressionadíssimo,
mas não há nada na passarela que inspire uma mulher
a querer vestir-se bem. No fundo, o que se quer nesses desfiles
é criar uma reação da imprensa. Eles são
divertidos, mas não me interessam. Fiz minha opção
pelo estilo e, sobretudo, por tornar a vida das mulheres mais
bonita e mais glamourosa. Meu objetivo é criar peças
acessíveis e usáveis. Sempre. Nada pior do que
a armadilha daquelas peças que você compra hoje,
guarda no armário e amanhã se pergunta: "Como
eu pude usar isso um dia?". Diria que faço roupas,
não faço moda.
Como é possível inovar sem seguir as tais tendências?
Sempre dá para inovar o belo. É o que me proponho
a fazer. Minha ideia de moda é criar beleza
e sob novas perspectivas, ainda que baseada em conceitos clássicos.
Parte da minha filosofia de criação é
não ser tão comprometido assim com os dados
efêmeros. Pegue-se um vestido Chanel, dos anos 20, ou
um Dior dos anos 50, e vista Kate Moss com uma dessas peças.
Elas permanecerão tão lindas quanto eram naquele
tempo. É isso que me interessa, é esse tipo
de longevidade que busco. Tendência em moda é
algo descartável e sempre que nos guiamos por ela nos
arrependemos. É como comer em fast-food. Você
passa em frente a uma dessas lanchonetes e o cheiro é
delicioso, convidativo. Depois de se render a um hambúrguer
desses, você pensa: "Onde eu estava com a cabeça
para comer esse lixo?". Com a moda é exatamente
a mesma coisa.
O senhor não
acha que há uma valorização excessiva
do universo da moda, com seus desfiles e supermodelos?
Acho. E acredito que todo esse ruído está começando
a enjoar. Assistir aos desfiles de alta-costura em fevereiro
e setembro em Paris ou Nova York é uma experiência
maravilhosa, não posso negar. Mas o que percebo, principalmente
neste momento político e econômico, é
que as pessoas estão mais interessadas pelas coisas
reais do que pelos espetáculos de moda. Não
importa como a peça apareceu no desfile, ou qual o
seu efeito no corpo de uma bela modelo,
o que elas querem são materiais bons, bonitos, de qualidade
e duráveis. Uma peça não pode
ter a vida útil de uma única estação,
o que é, inclusive, antiecológico. Aliás,
esse movimento não se restringe ao mundo da moda. As
pessoas também querem alimentos de melhor qualidade,
mais naturais, mais saudáveis.
Anna Wintour
(editora-chefe da revista Vogue americana) disse certa vez:
"Ninguém como Narciso consegue fazer um simples
traço parecer tão impressionante".
Bem, só posso dizer que esse foi o melhor elogio da
minha vida. Afinal, ela é uma pessoa que realmente
conhece moda. Anna é uma grande incentivadora do meu
trabalho. Desde o começo da minha carreira, ela sempre
gostou das minhas criações. Tive muita sorte
nesse sentido.
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"As
fashion victims, aquelas pessoas que vivem para a moda
e estão em todas as edições das
revistas especializadas, não me atraem nem um
pouco. Eu prefiro as mulheres que trabalham, têm
filhos, valorizam a vida familiar"
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O senhor trabalha
numa indústria extremamente competitiva, que gira por
ano 300 bilhões de dólares, e é muito
suscetível a julgamentos subjetivos. Que tipo de pressão
o afeta mais?
A indústria da moda é difícil por
sua própria natureza e, evidentemente, muitas de suas
dificuldades foram amplificadas pela crise econômica.
Houve um momento na história da minha empresa em que
eu tive de decidir se fechava e começava do zero ou
me associava a um parceiro poderoso. Optei pelo segundo caminho.
Hoje não há como sobreviver sem fazer sociedade
com um grande grupo. É quase impossível para
um novo estilista criar uma grife própria do nada.
Não é mais como nos anos 70 e 80, quando dava
para licenciar uma marca de jeans, por exemplo, e sonhar alto.
Além disso, não é suficiente criar belas
roupas e de qualidade. É preciso também idealizar
acessórios como bolsas, sapatos e perfumes para o negócio
se sustentar. Eu tive sorte porque há cinco anos lancei
uma linha de perfumes que se tornou um sucesso.
O que é
mais complicado fazer: perfumes ou roupas?
Perfumes. Para criar uma fragrância, é preciso
descobrir o que as mulheres e os homens estão querendo
naquele momento algo que, no fundo, nem mesmo eles
sabem. Antes de lançar meu novo perfume, por exemplo,
foi necessário organizar inúmeras entrevistas,
testes e grupos de discussão, num processo que consumiu
praticamente dois anos.
No caso das roupas, faço o esboço, mando-o para
a minha sala de provas, escolho a fábrica e pronto
o vestido está feito. É mais prático,
por assim dizer.
Antes de criar
sua própria grife, o senhor trabalhou com Donna Karan
e Calvin Klein. Como foi essa experiência?
Quando eu era jovem, tinha dois objetivos. Um deles era cursar
a Parsons School of Design, em Nova York. O outro era trabalhar
com Donna Karan. Consegui alcançar os dois. Conheci
Donna enquanto cursava a escola e meu primeiro emprego foi
como seu assistente. Com Donna, aprendi a ter apreço
por materiais e pela etapa de criação em si.
Ela me ensinou ainda que um estilista deve desenhar os modelos
da cabeça aos pés. Hoje, Donna é uma
grande amiga. Com Calvin Klein, aprendi muito sobre estratégias
de marketing, ferramenta essencial para vencer nesse mercado.
Quem são
seus estilistas preferidos?
São aqueles que, de uma forma ou de outra, mudaram
o rosto da moda. Chanel, Balenciaga provavelmente o
meu favorito, porque foi vanguarda sem jamais esquecer a beleza
e Madeleine Vionnet, com suas peças impecáveis
e extremamente inovadoras.
Entre tantas
clientes estreladas Sarah Jessica Parker, Jessica Seinfeld,
Eva Longoria , a atriz Rachel Weisz é uma espécie
de musa inspiradora para o senhor. O que ela tem de tão
especial?
Entre tantas jovens belas e célebres, ela se destaca
porque é inteligente e tem estilo. Esse é o
tipo de mulher que me inspira, para quem gosto de criar. As
fashion victims, aquelas que vivem para a moda e estão
em todas as edições das revistas especializadas,
não me atraem nem um pouco. Prefiro as mulheres que
trabalham, têm filhos, valorizam a vida familiar
aquelas que leem revistas de moda, mas também
bons livros.
Antes, as mulheres
de 40 anos queriam se vestir como as de 20; hoje são
as quarentonas que inspiram as mais jovens.
Ocorre justamente o oposto do que se via no passado. A verdade
é que muitas mulheres estão chegando aos 50
anos enxutas e esplendorosas. É lógico, portanto,
que, quando sabem o que usar e como usar, inspirem todas as
outras. As coisas belas são atemporais.