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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Previsões
para
o ano novo
A
política, a
violência, a corrupção,
Bush, Saddam, o esporte: tudo o que
vai acontecer, em abalizada antevisão
Churrascos, festivas reuniões ministeriais e performáticos
eventos palacianos (os melhores dos quais aqueles em que o presidente
contracena com o ministro Gilberto Gil) se multiplicarão.
O país, bestializado, terá dificuldade em identificar
o que estão comemorando. Nem por isso o governo abandonará
o vezo de festejar-se a si mesmo e congratular-se consigo próprio.
A cabeça presidencial continuará disponível
para o abrigo de múltiplos bonés. Já os discursos
não mais incluirão a metáfora dos nove meses
de gestação porque o bebê do governo infelizmente
já nasceu.
Sem preconceitos ou exclusivismos, casos de corrupção
ocorrerão nos níveis federal, estadual e municipal.
Democrática e generosamente, também não conhecerão
barreira geográfica, espalhando-se indistintamente pelos
diversos Estados da federação e, no interior desses,
por diferentes municípios. Virá à tona o envolvimento
de um deputado com negócios escusos. Talvez também
de um senador. Talvez de mais de um deputado e de um senador. Da
mesma forma, de um ou mais juízes. Talvez também de
um ministro.
O PMDB ganhará lugar no ministério. Mas o PMDB continuará
reclamando lugar no ministério. Uma parte do PMDB reclamará
do(s) titular(es) do(s) ministério(s) do PMDB. O ex-presidente
Itamar Franco deixará a embaixada na Itália para azucrinar
mais de perto. O governador Roberto Requião estará
a ponto de proclamar a república independente do Paraná.
O vice-presidente José Alencar confirmará seu descompromisso
com a linha do titular. Ainda que independentes e desajustados entre
si, os três liderarão a frente de implicância
ranzinza contra o governo. Nas eleições municipais,
comentaristas dirão que o eleitorado mandou recado claro
aos políticos. O eleitorado, por seu lado, não enxergará
senão obscuridade, e esquecerá em quem votou para
vereador.
O Poder Judiciário se manifestará firmemente contra
a introdução do controle externo sobre suas atividades.
O descontrole interno, enquanto isso, seguirá seu curso.
A reforma do Judiciário será muito falada. Quase sempre,
para se dizer que não anda. Às vezes, para se dizer
que não tem a menor possibilidade de andar. Igualmente a
reforma política.
Os Estados Unidos iniciarão o julgamento de Saddam Hussein
assim que tiverem certeza de que, nas sessões públicas,
o ex-ditador do Iraque não cometerá indiscrições
a respeito de sua passada aliança com os americanos. Caso
não tenham essa certeza, uma hipótese é que
o devolvam ao buraco onde foi encontrado. George W. Bush será
reeleito presidente dos Estados Unidos. Caso não o seja,
o eleito será o candidato do Partido Democrata. Um escândalo
abalará a família real inglesa.
Aids e fome devastarão a África. Eventualmente terão
a ajuda, nesse desiderato, de bárbaras guerras civis. Na
América do Sul, Venezuela e Colômbia conhecerão
períodos de instabilidade. Talvez também o Peru e
a Bolívia. Como a Líbia do coronel Kadafi ficará
amiga dos Estados Unidos, o chanceler Celso Amorim se dedicará
a escolher outro país onde alocar a política de desafio
às mentes colonizadas. A Coréia do Norte é
uma possibilidade.
A temporada das chuvas provocará deslizamentos de terra que
levarão de roldão barracos fincados em encostas de
morros e outros locais perigosos. Haverá mortes, em conseqüência.
Balas perdidas matarão uma jovem no Rio de Janeiro. Talvez
matem também um jovem. Talvez mais. E talvez também
pessoas não tão jovens. Casos de chocante violência
terão lugar em São Paulo. Haverá rebeliões
em presídios. A televisão filmará presos falando
ao celular em presídios ditos de segurança máxima.
Morrerá uma estrela de Hollywood. Talvez mais de uma. Morrerão
também ex-estrelas de Hollywood. O show business brasileiro
também será desfalcado pela grande ceifadeira. Morrerá
um chefe de Estado. Talvez mais de um. Morrerão mais ainda
ex-chefes de Estado.
Ronaldinho fará muitos gols. Só não colecionará
mais gols do que namoradas. O técnico Parreira será
chamado de burro, em coro, em um estádio do país,
talvez em mais de um. A zaga da seleção se atrapalhará
mais consigo mesma do que com os adversários. Os Estados
Unidos colecionarão o maior número de medalhas nas
Olimpíadas de Atenas. A primeira medalha de ouro do Brasil
demorará a sair. Talvez não saia.
Meninos malabaristas nos cruzamentos, entregadores de pizza e motoboys,
interligando-se, entrecruzando-se e confundindo-se ao tecido urbano,
comporão o mais acabado retrato de São Paulo, nos
seus 450 anos. Merecidamente, passarão a ser tão identificados
com a cidade como os bobbies com Londres, ou os gondoleiros
com Veneza.
Moral da História: Não se deixe iludir, leitor
bondoso e amigo / e grave na memória esta lição
madura: / previsão de ano novo de fato segura / só
a de que dobrará as agruras do ano antigo.
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