Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Previsões para
o ano novo

A política, a violência, a corrupção,
Bush, Saddam, o esporte: tudo o que
vai acontecer, em abalizada antevisão

Churrascos, festivas reuniões ministeriais e performáticos eventos palacianos (os melhores dos quais aqueles em que o presidente contracena com o ministro Gilberto Gil) se multiplicarão. O país, bestializado, terá dificuldade em identificar o que estão comemorando. Nem por isso o governo abandonará o vezo de festejar-se a si mesmo e congratular-se consigo próprio. A cabeça presidencial continuará disponível para o abrigo de múltiplos bonés. Já os discursos não mais incluirão a metáfora dos nove meses de gestação porque o bebê do governo infelizmente já nasceu.

Sem preconceitos ou exclusivismos, casos de corrupção ocorrerão nos níveis federal, estadual e municipal. Democrática e generosamente, também não conhecerão barreira geográfica, espalhando-se indistintamente pelos diversos Estados da federação e, no interior desses, por diferentes municípios. Virá à tona o envolvimento de um deputado com negócios escusos. Talvez também de um senador. Talvez de mais de um deputado e de um senador. Da mesma forma, de um ou mais juízes. Talvez também de um ministro.

O PMDB ganhará lugar no ministério. Mas o PMDB continuará reclamando lugar no ministério. Uma parte do PMDB reclamará do(s) titular(es) do(s) ministério(s) do PMDB. O ex-presidente Itamar Franco deixará a embaixada na Itália para azucrinar mais de perto. O governador Roberto Requião estará a ponto de proclamar a república independente do Paraná. O vice-presidente José Alencar confirmará seu descompromisso com a linha do titular. Ainda que independentes e desajustados entre si, os três liderarão a frente de implicância ranzinza contra o governo. Nas eleições municipais, comentaristas dirão que o eleitorado mandou recado claro aos políticos. O eleitorado, por seu lado, não enxergará senão obscuridade, e esquecerá em quem votou para vereador.

O Poder Judiciário se manifestará firmemente contra a introdução do controle externo sobre suas atividades. O descontrole interno, enquanto isso, seguirá seu curso. A reforma do Judiciário será muito falada. Quase sempre, para se dizer que não anda. Às vezes, para se dizer que não tem a menor possibilidade de andar. Igualmente a reforma política.

Os Estados Unidos iniciarão o julgamento de Saddam Hussein assim que tiverem certeza de que, nas sessões públicas, o ex-ditador do Iraque não cometerá indiscrições a respeito de sua passada aliança com os americanos. Caso não tenham essa certeza, uma hipótese é que o devolvam ao buraco onde foi encontrado. George W. Bush será reeleito presidente dos Estados Unidos. Caso não o seja, o eleito será o candidato do Partido Democrata. Um escândalo abalará a família real inglesa.

Aids e fome devastarão a África. Eventualmente terão a ajuda, nesse desiderato, de bárbaras guerras civis. Na América do Sul, Venezuela e Colômbia conhecerão períodos de instabilidade. Talvez também o Peru e a Bolívia. Como a Líbia do coronel Kadafi ficará amiga dos Estados Unidos, o chanceler Celso Amorim se dedicará a escolher outro país onde alocar a política de desafio às mentes colonizadas. A Coréia do Norte é uma possibilidade.

A temporada das chuvas provocará deslizamentos de terra que levarão de roldão barracos fincados em encostas de morros e outros locais perigosos. Haverá mortes, em conseqüência. Balas perdidas matarão uma jovem no Rio de Janeiro. Talvez matem também um jovem. Talvez mais. E talvez também pessoas não tão jovens. Casos de chocante violência terão lugar em São Paulo. Haverá rebeliões em presídios. A televisão filmará presos falando ao celular em presídios ditos de segurança máxima.

Morrerá uma estrela de Hollywood. Talvez mais de uma. Morrerão também ex-estrelas de Hollywood. O show business brasileiro também será desfalcado pela grande ceifadeira. Morrerá um chefe de Estado. Talvez mais de um. Morrerão mais ainda ex-chefes de Estado.

Ronaldinho fará muitos gols. Só não colecionará mais gols do que namoradas. O técnico Parreira será chamado de burro, em coro, em um estádio do país, talvez em mais de um. A zaga da seleção se atrapalhará mais consigo mesma do que com os adversários. Os Estados Unidos colecionarão o maior número de medalhas nas Olimpíadas de Atenas. A primeira medalha de ouro do Brasil demorará a sair. Talvez não saia.

Meninos malabaristas nos cruzamentos, entregadores de pizza e motoboys, interligando-se, entrecruzando-se e confundindo-se ao tecido urbano, comporão o mais acabado retrato de São Paulo, nos seus 450 anos. Merecidamente, passarão a ser tão identificados com a cidade como os bobbies com Londres, ou os gondoleiros com Veneza.

Moral da História: Não se deixe iludir, leitor bondoso e amigo / e grave na memória esta lição madura: / previsão de ano novo de fato segura / só a de que dobrará as agruras do ano antigo.

 
 
 
 
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