Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Especial
É de lei: o direito à beleza

Melhores, mais acessíveis e mais baratos, os
tratamentos estéticos se disseminam e criam
uma nova utopia: hoje, em prestações ou no
cartão, todo mundo pode ser mais bonito


Bel Moherdaui

 

Fotos Pedro Rubens
MISS RETOQUE
Em pagamentos parcelados, Juliana Borges deu uma geral: retocou orelhas, seios, cintura e maxilares. Ganhou o título de miss Brasil 2001


Esticar sem bisturi
Cortar para melhorar
Sorriso nota 10
Malhação de resultados
Adeus, espinhas
NA INTERNET
Em profundidade: Dietas

Todas as pessoas têm direito à vida e à liberdade, rezam as cartas fundamentais das democracias. A americana vai além e garante até o direito à busca da felicidade. Nem as utopias mais arrebatadas, porém, falam numa conquista que está cada vez mais se insinuando na lista de prerrogativas da humanidade: o direito à beleza. O que era obra da natureza, fruto do acaso genético, sem possível intervenção humana – basicamente, rosto sem marcas, corpo com medidas proporcionais, pele viçosa, dentes perfeitos –, foi sendo decifrado e aprimorado pela medicina e pela tecnologia e agora pode ser adquirido na clínica de estética mais próxima, com desconto à vista ou em suaves prestações mensais. Acontece assim que a beleza, como antes dela o automóvel, a TV em cores, o walkman, o celular e, logo (espera-se), a TV de plasma, se tornou artigo tão cobiçado, e por tanta gente, que baixou do olimpo dos preços proibitivos para o maracanã das promoções acessíveis a uma boa parte dos mortais. No país que inventou o pré-datado, o trinta dias fora o mês e outras obras de criatividade financeira, a plástica em doze vezes no cartão é um dos passaportes para a disseminação do direito à beleza.

Não se trata aqui de comprar a estampa excepcional de uma Gisele Bündchen ou uma Vera Fischer – mesmo porque quem imagine ser possível fazê-lo sofre de carências que bisturi nenhum pode atender. O direito à beleza hoje é varrer ruguinhas desde sempre consideradas inevitáveis, empinar seios cadentes, domar dentes desalinhados. Enfim, melhorar aquilo que a natureza nos deu e, assim, enfrentar a estrada da vida com um pouco mais de satisfação. Todo mundo quer ser bonito, inclusive os que dizem nunca, jamais ter pensado nessas coisas. E quase todo mundo pode, hoje, fazer algo em favor da própria aparência. As facilidades são tantas que até quem aparentemente não tem o que melhorar sempre encontra algum espaço para o aperfeiçoamento. Veja-se a beldade gaúcha que ilustra estas páginas. Juliana Borges, 1,78 metro de altura, 58 quilos, tinha um patrimônio estético básico e uma idéia em mente: ser miss Brasil. Para melhorar suas chances, fez uma espécie de joint venture. Parcelou o pagamento do material cirúrgico, enquanto seu empresário cobriu os honorários médicos. De uma só vez, Juliana se submeteu a três cirurgias: corrigiu orelhas ligeiramente abertas, realizou uma lipoaspiração e colocou prótese nos seios. Para completar, removeu algumas pintas e fez preenchimento nos dois lados do maxilar "para dar mais ângulo ao rosto". Em 2001, conquistou o título cobiçado. Precisava fazer tudo isso? Provavelmente não. Mas, em existindo a possibilidade, e ainda por cima para alguém que está no ramo da beleza, é difícil resistir. "Acho que é muito gostoso melhorar a aparência e isso, hoje, está bem acessível", atesta a ex-miss, atualmente modelo.

Juliana é prova das mudanças de comportamento que fizeram desabar os pilares sobre os quais se apoiavam as regras da primeira onda da era das intervenções estéticas. Eram elas: 1) adolescentes têm espinhas e sofrerão muito com isso; 2) menores de 20 podem, no máximo, corrigir o nariz e as orelhas; 3) plástica de mamas, só depois de amamentar o último filho; 4) plástica no rosto é aceitável, sob sigilo absoluto, a partir dos 55 ou mais; 5) barriga e culote se escondem com cinta; e 6) homem que é homem não liga para a aparência. Nesta época de lipoaspiração, Botox, lifting sem corte, lifting com corte mais sutil e malhação de resultados, tudo isso parece coisa do século passado. E é mesmo. A médica mineira Daniela Mendes tinha 28 anos, um ex-marido e uma filha quando, há pouco mais de um ano, fez sua primeira plástica, para colocar prótese de mama. Na mesma ocasião, aproveitou a anestesia e fez um "miniabdômen" (lipoaspiração com retirada das sobras de pele). "Sabe quando você sai do hospital e o peão da obra já está mexendo? Foi assim", conta, entusiasmada. No ano seguinte, lá estava ela de volta à mesa de operação, dessa vez para uma lipoescultura da axila ao joelho. "Sem dúvida, vou fazer outra no ano que vem. Só não sei o quê – talvez uma de nariz", planeja a médica, que ainda faz drenagem linfática duas a três vezes por semana e já passou por algumas sessões de depilação a laser.

Nas clínicas de estética – que vão de minicentros cirúrgicos aos fundos do salão de cabeleireiro da esquina –, a lista de tratamentos é variada, os preços, também, os métodos, mais ainda. Alguns são tão obviamente ilusórios (como é, afinal, que se "quebra" uma célula de gordura?) que só podem ser atribuídos ao eterno desejo humano de encontrar respostas fáceis para questões difíceis. Mas é raro achar quem, não tendo caído nas mãos de um charlatão ou cedido às promessas enganosas, saia insatisfeito. A era da beleza para todos está em plena expansão. "Está havendo uma espécie de socialização da indústria da beleza e da cosmética", avalia Vera Lúcia Marques, coordenadora da área de estética, cosmetologia e perfumaria do Senac de São Paulo. "A oferta de serviços não pára de crescer, e as pessoas aproveitam." Um indício dessa revolução é o número de profissionais dedicados à promoção da ótima aparência. O curso de estética do Senac do Rio de Janeiro forma 2.200 alunos por ano. No Senac de São Paulo, que em trinta anos formou 50.000 esteticistas, organizava-se um curso de aperfeiçoamento por ano; hoje, é mais de um por mês. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica registra um total de 4.000 médicos filiados, quase o dobro de dez anos atrás. Na conceituada Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a plástica é, entre as cirurgias, a especialização mais cobiçada – cinco anos antes, havia dez candidatos às quatro únicas vagas do curso; no ano passado, foram 45.

Calcula-se que existam cerca de 5.000 clínicas de estética só em São Paulo. A maior rede do Brasil, a Onodera, criada em 1981 a partir de uma academia de judô, tem 51 unidades espalhadas por São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba e Paraná, nas quais oferece cerca de quarenta tratamentos, que vão de uma simples limpeza de pele (por volta de 40 reais) a uma sonoríssima hidrolipoclasia ultra-sônica, de cerca de 2.000 reais – que vem a ser a injeção de soro fisiológico nas áreas de concentração de gordura, seguida de aplicação de ultra-som com o fim de promover a celebrada "quebra" das células de gordura. Os procedimentos na Onodera podem ser parcelados em até seis vezes sem juros. "Todo mundo cultua o corpo e a beleza. Nós conseguimos mostrar que os tratamentos estéticos são acessíveis", orgulha-se Lucy Onodera, diretora executiva da empresa.

Das salas de cirurgia aos consultórios dos dentistas, da lipo e do Botox aos tratamentos antiacne e à dupla imbatível ginástica-dieta, há muito que fazer em prol de uma figura mais bonita. "Os tratamentos de odontologia estética deixaram de ser coisa de rico e estão acessíveis à classe média", afirma o dentista paulista Fábio Bibancos, que cuida do sorriso de Ana Paula Arosio, Fabio Assunção e Marcello Antony, entre outras estrelas. Acessíveis, em termos – dentes perfeitos continuam caros, embora bem menos que antigamente. Segundo Bibancos, um tratamento com aparelho ortodôntico custa em torno de 1.200 reais, com manutenção de 120 a 150 reais por mês. "Dez anos atrás, só o aparelho custava cerca de 2.000 dólares e tinha de ser importado", compara. No campo da cirurgia estética, as técnicas evoluíram, as cicatrizes e o tempo de recuperação diminuíram e os preços, para alegria geral, estão caindo. "Diversos fatores têm contribuído para reduzir custos, como o fato de nem sempre o paciente precisar ficar internado e quase não se usar mais anestesia geral. Além disso, é possível negociar e parcelar o pagamento do cirurgião, do anestesista e da clínica", explica Luiz Carlos Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Se nem isso for suficiente para a sonhada recauchutagem, há empresas que financiam as cirurgias em até 48 vezes, funcionando como intermediárias entre médicos (aqueles devidamente registrados em seu cadastro) e pacientes que disponham de pouca verba. A Master Health, de São Paulo, intermedeia cerca de 2.500 cirurgias por ano; a Higiia, de Santa Catarina, contabiliza 400 cirurgias anuais. As formas de pagamento incluem financiamento bancário e, em muitos casos, uma inexorável carência exige que metade do pagamento esteja quitada antes de ser marcada a operação. "Antigamente, só fazia plástica quem era da classe A ou, pelo menos, da B. Nós atendemos auxiliar de escritório, ascensorista, empregada doméstica", diz Susete Moreira, diretora da Master Health.

As associações médicas de elite evidentemente não estimulam esse tipo de financiamento. "Essas empresas mercantilizam a relação médico-paciente. Quem tem contato com o paciente é a empresa, não o cirurgião, o que é prejudicial para ambos", alerta o médico Garcia, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. O alerta, no entanto, não dissuade quem sonha com a plástica a prestação. A gaúcha Bárbara Reiter, 36 anos, que aparece na capa de VEJA, conta que financiou sua cirurgia e cuidou, sim, da relação médico-paciente: não gostou do primeiro cirurgião indicado pela empresa e exigiu consultar-se com um segundo, que lhe agradou. Médico escolhido, colocou prótese de silicone e pagou em doze parcelas de 300 reais no cartão de crédito. Quitada a última prestação, lá foi ela de novo para a mesa de operação: uma lipoaspiração e mais doze parcelas de 300 reais no cartão. Bárbara ainda parcelou aplicações de Botox, preenchimento de vincos e peeling. "Deus não foi muito generoso comigo. Tenho de fazer o melhor que posso com a matéria-prima de que disponho", analisa, muito pragmaticamente.

Fazer uma plástica, gostar e repetir virou esporte nacional. "Calculo que metade de meus pacientes volte para uma segunda cirurgia", diz o cirurgião Volney Pitombo, do Rio de Janeiro. E ainda levam as amigas, entusiasmadas com os resultados alegremente propagados. É difícil acreditar, mas houve um tempo em que fazer plástica era meio vexaminoso, por ranço moralista, que via isso como uma futilidade condenável, ou desvio esquerdista, pelo qual as mulheres eram consideradas vítimas de uma pérfida indústria da beleza fadada a perpetuar sua exploração. Até a especialidade médica não era bem vista. "Nos anos 50, quando comecei, a cirurgia plástica era uma especialidade nova e ainda desconhecida por muitos médicos", lembra Ivo Pitanguy, um dos mais antigos e conhecidos cirurgiões plásticos do país. "Existia um certo preconceito, como se o cirurgião plástico fosse menos médico que os outros", confirma o gaúcho Mauro Deos, 43 anos, no ramo há quinze. Atualmente, cirurgião plástico é praticamente uma celebridade e as operadas trocam idéias com as amigas sobre o antes, o durante e o depois da cirurgia. A funcionária pública Lilian Costa Cardoso, 44 anos, duas a três vezes por ano viaja de Criciúma, em Santa Catarina, até Porto Alegre, no vizinho Rio Grande do Sul, com quatro amigas para juntas refazerem suas aplicações de Botox e preenchimentos. "Marcamos todas no mesmo dia e uma fica esperando a outra. Os maridos também vão, mas em dias separados", entrega Lilian. No salão de beleza Scenario, em São Paulo, procedimentos estéticos são feitos mais ou menos em série: a proprietária Luciana Alvarez – uma lipoescultura, uma plástica de abdômen, uma correção de orelhas e uma cirurgia para colocar próteses de mama no currículo estético – inspirou sua sócia, que inspirou a esteticista, que inspirou uma amiga e catorze clientes. "Aqui tem sempre alguém sem blusa no banheiro, mostrando o resultado da cirurgia às outras", diz Luciana.

Em 2003, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o Brasil atingiu a impressionante marca de 400.000 cirurgias realizadas, mantendo-se firme na segunda posição do ranking, atrás apenas dos Estados Unidos. Os dois países competem prótese a prótese pela liderança nos procedimentos estéticos, sendo que as mulheres daqui provavelmente são mais vaidosas, mas as de lá têm mais dinheiro. De 2002 para 2003, o mercado de Botox cresceu 40% na América Latina, onde o Brasil é, de longe, o maior consumidor regional. Com um detalhe: no cômputo geral, 60% do Botox vendido no mundo é utilizado para fins terapêuticos; aqui, 65% são injetados com fim puramente estético. A Allergan, fabricante do Botox, calcula que 7% das brasileiras já usaram o produto desde 2001, quando ele foi autorizado para uso cosmético no país. Próteses de silicone, outra preferência nacional que as americanas, coitadas, estavam proibidas de usar até recentemente por força de regulamentos do governo, também fazem a festa dos fabricantes. A nacional Silimed registrou um salto de 9.850 unidades vendidas em 1998 para 38.000 em 2003. Não que todas as brasileiras sejam iguais – dependendo da região, o ideal de beleza pode estar mais em cima ou mais embaixo. "A carioca, pelo fato de expor mais o corpo na praia, quer próteses mais volumosas e mais contorno corporal (leia-se: cintura fina, seios e bumbum grandes). A mineira e a paulista preferem um efeito mais natural", analisa o cirurgião plástico mineiro Alexandre Senra, que tem consultório em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. "No Rio Grande do Sul, por causa da influência de italianos e alemães, as mulheres têm estatura maior, tronco mais largo e fazem muita lipo para remover gordura das costas. Outra particularidade é a pele muito clara, por um lado mais suscetível ao envelhecimento e, por outro, mais receptiva a peelings, com menos risco de ficar manchada", complementa o cirurgião Deos, presidente da regional do Rio Grande do Sul da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Os números sempre crescentes dos tratamentos estéticos confirmam algumas verdades estabelecidas: os brasileiros tendem a valorizar bastante a aparência, têm grande flexibilidade cultural para encampar novidades e, claro, adoram modismos. "Tem paciente que me liga dizendo que quer ser cobaia de qualquer novo tratamento em estudo", conta a dermatologista Dóris Hexsel, coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Nem sempre foi assim. "Quando introduzimos os tratamentos estéticos, só as clientes européias faziam alguma coisa", conta Monica Nishikawa, do Instituto de Fisioterapia Mizuki, um dos mais tradicionais de São Paulo, fundado em 1954. Janine Goossens, sócia da rede de salões de beleza Jacques Janine e responsável pela área de estética na empresa desde sua criação, confirma: "Se eu recomendava algum tratamento, elas se ofendiam: 'Você está querendo dizer que minha pele não está bonita?'". Hoje, o esforço é inverso, diz Janine: "Temos de convencê-las de que o excesso de tratamentos também não é benéfico". Não é mesmo. Mas, em meio a abusos eventuais, até compreensíveis em face do natural entusiasmo diante do novo, prevalece a constatação assim resumida por Ivo Pitanguy: "Entre as várias conquistas do ser humano moderno está a do direito de escolher sua aparência". Que se faça bom uso dele.

 

Envelhecer? Depois dos 70

NEOFEMINISMO
Leilah Assumpção: "Mulher deve fazer plástica para agradar a si mesma"

A peça Fala Baixo Senão Eu Grito foi um marco do movimento pela libertação da mulher nos anos 70, mas a dramaturga Leilah Assumpção não carregou nenhum dos senões do feminismo. Hoje com 60 anos, ela leva algum tempo para listar as intervenções estéticas a que já se submeteu. Só de lipo, foram três, "mas acho que não funciona muito bem, porque voltou tudo". Também ergueu os seios, corrigiu o nariz e, há três anos, passou por um minilifting. Seu depoimento:

"A oposição das feministas à plástica era uma reação extremada aos excessos de vaidade. Viam a cirurgia como uma coisa que a mulher era obrigada a fazer para se encaixar nos cânones de beleza, para agradar aos homens. Eu acho que a mulher deve fazer plástica, sim, mas para agradar a si mesma e só. Não é fútil, como não é fútil vestir-se bem, passar perfume e ir ao cabeleireiro. Fazer plástica é se cuidar – se a pessoa sente falta, deve fazer. Eu pretendo envelhecer com dignidade dos 70 anos em diante. Vou fazer mais um minilifting e depois deixar que a natureza siga seu curso. Pode ser que chegando lá eu mude de idéia, mas por enquanto esse é o meu limite".


Com reportagem de
Tatiana Schibuola

 
 
 
 
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