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Diogo
Mainardi
Abacaxi
com caroço
"Quando
alguém quer provar que o Brasil
tem saída, sempre menciona Machado de
Assis, como se um único escritor resgatasse
séculos de falta de talento. Ele virou um álibi
para o nosso fracasso"
Caetano Veloso me chamou de abacaxi com caroço. Foi numa
entrevista coletiva para promover o lançamento de um DVD.
Ele passou metade da entrevista falando mal de mim e de Paulo Francis.
Como falar mal de nós não ajuda a vender DVD, acredito
que tenha sido apenas uma maneira dissimulada de bajular o governo.
Para Caetano Veloso, represento a parte deteriorada da cultura brasileira.
Um derrotista, um entreguista, um colaboracionista, pronto a acolher
o usurpador estrangeiro. Junto com Paulo Francis, de quem sou um
mero subproduto, formo o time dos traidores da pátria. Do
lado oposto, defendendo o escrete canarinho, Caetano Veloso, imodestamente,
escalou a si mesmo, em companhia de Machado de Assis, Glauber Rocha
e Chico Buarque. Encontram-se aí, segundo ele, as duas correntes
contrapostas do pensamento nacional: os americanófilos que
condenam o Brasil a uma posição de eterno servilismo
e os artistas que, com suas obras, colocam o país no centro
do mundo.
Caetano Veloso está certo, claro. Meu maléfico plano
é derrubar o presidente e transformar o Brasil num protetorado
americano. Quanto mais dependente, melhor. Em minha empreitada,
tiro de letra o próprio Caetano Veloso, Glauber Rocha e Chico
Buarque. Difícil é enfrentar Machado de Assis. Quando
alguém quer provar que o Brasil tem saída, sempre
menciona seu nome. Como se um único escritor resgatasse cinco
séculos de falta de talento. De geração em
geração, Machado de Assis renova a crença em
nossas capacidades, como se suas conquistas individuais, isoladas,
pudessem indicar atributos coletivos. Ele virou um álibi
para o nosso fracasso.
Eu nunca havia considerado Machado de Assis como um inimigo. Ingenuamente,
aliás, eu supunha que ele estivesse do nosso lado, comandando
o nosso time, na qualidade de o maior e o mais prestigioso abacaxi
com caroço do Brasil. Basta ver a maneira impiedosa como
ele retrata nossos compatriotas em seus últimos livros. Uma
gente mesquinha, boçal, parasitária, que combina pieguice
com selvageria. Ninguém trabalha, exceto os escravos, que
só aparecem como moeda de troca. Os ideais que circulam nos
meios intelectuais são um pastiche grotesco daquilo que os
europeus enterraram no século anterior. Machado de Assis
jamais demonstrou grande fé no futuro do Brasil. Na verdade,
ele era de um ceticismo que beirava o reacionarismo. Desconfiou
de todas as transformações ocorridas em sua época,
como a abolição da escravatura e a proclamação
da República. Nunca se deixou contaminar pelo otimismo panglossiano
dos brasileiros, evitando aquela euforia irracional que, ao longo
de nossa história, sempre resultou em alguma forma de abuso.
Como se sabe, existe outro Machado de Assis: o politiqueiro e conchavista
da Academia Brasileira de Letras, entranhado fisiologicamente nas
instituições do Estado, acovardado diante do poder
político. Esse Machado de Assis brejeiro não me interessa.
Caetano Veloso pode ficar com ele.
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