Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Entrevista: Lars Grael
De volta à vida

O velejador olímpico diz que seu
maior triunfo foi ter superado
o próprio preconceito contra
a condição de deficiente


Marcelo Carneiro

 

Claudio Rossi

"Sou mais feliz do que pensa a maior parte das pessoas que me vêem na rua e me consideram um coitado"

Quando Lars Grael, 39 anos, entra no mar, não cumpre apenas um ritual de vitórias na vela, tradição que acompanha sua família há três gerações. Duas medalhas olímpicas, dez campeonatos brasileiros na classe Tornado, Grael continua praticando o esporte que mais ama, apesar de ter perdido a perna direita, arrancada pela hélice de uma lancha em alta velocidade, em setembro de 1998. Só agora, cinco anos após o acidente, o velejador conquistou na Justiça uma indenização de 2,5 milhões de reais e uma pensão vitalícia de 7.000 reais mensais, a ser paga pelo dono da embarcação. Nesse período, passou por um lento processo de readaptação à condição de amputado, que incluiu dores lancinantes e delírios provocados por uma alta carga de medicamentos. Nem por isso demonstra amargura. "Apesar de vitorioso no esporte, eu era um homem com tendência à depressão. Superar o acidente me fez uma pessoa mais feliz", diz Grael, que hoje ocupa o cargo de secretário de Juventude, Esporte e Lazer de São Paulo. Durante duas horas, ele recebeu VEJA em seu gabinete, no Ginásio do Ibirapuera, para esta entrevista.

Veja – Cinco anos após o acidente, o que foi mais difícil superar?
Grael – A fase inicial foi, sem dúvida, a mais dolorosa. Primeiro, a luta pela vida, semi-inconsciente, tentando vislumbrar se eu sairia daquela. E, se conseguisse sair, como iria viver. Eu era um atleta olímpico tendo de começar a pensar como seria a vida de um deficiente físico. Valeria a pena viver? Qual seria a aceitação da família? Qual minha relação com o esporte? Será que nunca mais? Será que viraria treinador ou abandonaria tudo? Mas, no meu caso, o acidente adquiriu uma notoriedade tão grande, e deixou minha vida íntima tão exposta, que tive apenas dois caminhos. Sentir-me fragilizado e tentar fugir de uma realidade ou, já que estava mesmo exposto, assumir aquela condição.

Veja – Que lembranças o senhor guarda dos primeiros momentos, quando estava sendo socorrido?
Grael – Experimentei uma sensação que já tinha visto em livros, em depoimentos. Quando eu estava na ambulância, no caminho entre o Iate Clube de Vitória e o hospital, tive duas paradas cardíacas. Na primeira, veio aquela sensação. Fui perdendo a força, senti tudo se fechando. Tive um sentimento de leveza, como se estivesse saindo do próprio corpo, levitando, uma coisa da qual eu só tinha ouvido falar em programas como o Fantástico, e achava que era fantasia. Na segunda parada, eles já estavam desistindo de me reanimar com choques e massagens, quando um médico disse: "Vamos tentar mais uma vez, não custa nada". Isso, mesmo eu estando apagado, ficou na minha memória. Mais tarde, perguntei a um médico que estava lá se aquilo tinha acontecido ou se era algo que eu havia criado. Ele falou que tinha acontecido.

Veja – A dor é uma companhia constante dos amputados. Como o senhor lidou com ela?
Grael – Até hoje tenho a sensação de que minha perna existe, como se ela tivesse acabado de ser esmagada, como se uma máquina tivesse caído em cima do meu pé e destruído tudo. É o que os especialistas chamam de "dor fantasma". Na época, essa dor era muito evidente. Eu sentia dor em detalhes, no joelho, no menisco, no tornozelo, no tendão de Aquiles, nos dedos. E sentia algumas dores bem distintas. Uma queimação, como se alguém tivesse acendido um isqueiro embaixo do meu pé. Outras vezes, era uma dor de choque, e eu dava um pulo na cama. Há um terceiro tipo de dor, que parece uma perfuração, como se tivesse um prego cravado na pele. Isso acaba com sua resistência psicológica. Você fica deprimido, acha que vai ser um estorvo para sua família, vai sentir isso a vida toda. A dor me causou muita depressão.

Veja – Há medicamentos que aliviam a dor, mas causam dependência. O senhor sentiu esses efeitos?
Grael – Tomei morfina e metadona. A morfina causa dependência. Quando saí do Hospital Albert Einstein e fui para a casa de um amigo, ainda em São Paulo, foi iniciada, lentamente, a retirada da morfina. Ainda na UTI, tive delírios, com cores e monstros, por causa das drogas. Eu fugia de tudo que tivesse muita cor. No quarto havia uma televisão, e eu adoro ver TV. Só que, quando ela era ligada, disparava minha pulsação, a respiração aumentava. Era uma coisa meio psicodélica. Um dia, meu médico falou que eu precisava ter força para resistir à dor, porque havia me tornado um dependente químico. Isso me deu uma raiva muito grande. Venho do esporte, sempre fui um atleta limpo de qualquer droga. Apresentaram-me, então, um médico especialista em dor, que substituiu a morfina por metadona e receitou outros três remédios. Eu precisava desmamar das drogas sem sofrer com a dor. Pouco antes do Natal de 1998, cerca de três meses após o acidente, resolvi parar com os medicamentos. Até 2001, eu ainda tinha crises de dor, principalmente quando passava por uma situação de stress. Era como se fosse uma memória da dor. A partir de 2002, não tive mais isso.

Veja – Aceitar a condição de deficiente também é um processo lento. Como o senhor enfrentou essa fase?
Grael – No hospital, recebia muitas mensagens dizendo que eu ia superar o problema. Sempre achava que essas pessoas estavam sendo legais, mas só falavam assim porque não tinha acontecido com elas. Até que um dia meu ortopedista, o doutor Marco Guedes, que é um amputado de perna, decidiu que eu devia conversar com alguns deficientes. Ele me apresentou uma enfermeira amputada de perna que tinha se tornado gerente no Hospital Albert Einstein, um motociclista amputado, um surfista de uma perna só, um modelo que usa prótese na perna e pratica parapente. A partir daí, o discurso passou a ser convincente. Essas pessoas me mostraram que eu teria de assumir uma nova vida.

Veja Como o senhor passou por essa mudança?
Grael – Nos primeiros dias, eu não tinha noção de quais seriam minhas limitações. Minha perna esquerda, por exemplo, tem um corte profundo na coxa. Eu havia perdido a sensibilidade nessa perna. Nos primeiros dias, não sentia nada. Depois, comecei a mexer os dedos, em seguida o pé, para bem depois começar a mexer a perna. Eu achava que ia ficar em uma cadeira de rodas e me perguntava se valeria a pena viver daquele jeito. A resposta era sempre sim. Se eu conseguisse ficar numa cadeira de rodas na beira do meu clube em Niterói, de frente para o mar, respirando ar puro debaixo de uma árvore, vendo um filho meu crescer saindo de barco ali na frente, já valeria a pena. E meu grau de conforto foi aumentando. Da cadeira de rodas, fui para o andador. Do andador, para a muleta. Depois, fui para a prótese, e recuei por falta de tempo. Criei um parâmetro de conforto de vida tão baixo, e aceitei que esse parâmetro seria bom o suficiente, que tudo o que veio depois foi considerado uma conquista. A vida é uma questão de parâmetros.

Veja – O senhor usa muletas, e não prótese. Tem encontrado dificuldade na adaptação?
Grael – Eu achava que a prótese iria recuperar minha perna perdida. Pouco tempo depois, descobri que ela nada mais é do que um instrumento mecânico, como a muleta ou a cadeira de rodas. Para usar uma boa prótese, precisaria fazer uma cirurgia corretiva. Eu vinha de uma seqüência de dez cirurgias, nove com anestesia geral, e isso me desanimou um pouco. Quando cheguei a Brasília em janeiro de 1999, para trabalhar no Ministério dos Esportes, ainda tentava usar, mas entrei numa roda-viva tão grande, me apeguei com tanto empenho ao trabalho, que ele serviu como uma fuga dessa realidade.

Veja Dentre as atividades que o senhor teve de abandonar, o que mais lhe dá saudade?
Grael – A prática de esportes. Sempre fui muito competitivo. No colégio, fui goleiro de handebol e de futebol. Já fiz atletismo, boxe, vôlei, tênis, tiro e badminton. Passo horas diante da TV a cabo vendo programas esportivos. Adorava acabar minha velejada e dar uma corrida de 5 a 10 quilômetros. É disso que sinto muita falta. Hoje, em São Paulo, sou sócio de um clube completo. Mas tudo que tem ali eu não posso fazer. Essa é a hora em que fico deprimido. Quando vejo meus irmãos jogando tênis, sento-me na beira da quadra e olho. Gosto de assistir, mas fico triste. À noite, sonho com uma partida de tênis inteira, cada ponto, cada game, até fechar o set. Quando acordo, vejo que não vou jogar tênis nunca mais. Por sorte, posso fazer meu esporte predileto, que é a vela. Em determinadas classes, em condição de competição. Já conquistei até alguns títulos.

VejaQual a sensação de entrar pela primeira vez no mar, após a amputação?
Grael – Indescritível. Foi muito pouco tempo depois do acidente, menos de quatro meses, em uma regata tradicional do meu clube, em homenagem ao meu avô. Tecnicamente, ela não tinha a menor importância, era apenas uma confraternização. Mas, para mim, parecia as Olimpíadas. Meu irmão Torben insistiu para que eu fosse velejar, para perder o trauma. Ele comprou um barco de 1933, feito de madeira, muito velho. Se eu ficasse em último lugar na regata, a culpa ia ser do barco, e não minha. Renata, minha mulher, e dois velejadores foram comigo. Na classe dos barcos antigos, nós fomos os vencedores.

VejaComo foi a reação de sua mulher diante do episódio?
Grael – Ela foi maravilhosa, em todos os momentos, e até hoje. Estava no clube na hora do acidente e me viu passar ainda carregado, com a perna dilacerada. Eu via a Renata tão sensibilizada, presente, carinhosa, dedicando noite e dia à minha recuperação, mas pensava se ela estava ali por gratidão, por pena, dando-me uma força para depois seguir o caminho dela.

Veja O senhor teve medo de perder sua mulher?
Grael – Isso aconteceu. Eu me perguntava se ela continuaria a me querer do jeito que eu estava. Pensava que nossa relação não seria tão intensa quanto antes, que poderia perder o desejo por estar casada com um deficiente físico. Isso vinha à minha cabeça constantemente, e eu tinha dificuldade em abrir o jogo com ela. Uma vez, na casa de um amigo, surgiu a oportunidade de conversarmos. Falei que não sabia como ia ser nossa vida dali em diante e disse que ela podia ficar à vontade. Ela ficou muito zangada e disse que não tinha casado com minha perna, mas comigo. Mostrou-me que não tinha a menor dificuldade em conviver com um deficiente físico. Quem demonstrava ter essa dificuldade era eu.

Veja – E como o senhor lidou com a exposição pública da amputação?
Grael – Essa foi uma parte difícil. Ainda no quarto do hospital, quinze dias após o acidente, dei uma entrevista coletiva. Era o primeiro dia em que eu ia aparecer sem perna. Estava sentado no sofá, muito magro, ao lado da minha mulher e de meu irmão, Torben. Eu olhava para baixo e via que não tinha perna, me sentia envergonhado de estar sendo exposto daquele jeito. Mas a exposição inicial foi tão grande, e tão involuntária, que eu não tive chance de optar. A televisão fazia simulações do meu acidente, com o desenho da perna que sumiu e de como eu ia ficar. Eu olhava para a TV e via a minha intimidade tão exposta que já não valia mais a pena esconder. Nessa fase inicial, eu fiquei muito surpreso com a divulgação que o episódio teve.

Veja Mas o senhor esperava que o acidente não ganhasse essa projeção?
Grael – É claro que foi um episódio marcante. Um atleta, durante uma competição, ser atropelado por uma lancha, naquelas condições. É natural que trouxesse alguma comoção, mas não imaginava que seria tão grande. A vela é um esporte que passa quase despercebido, embora tenha o melhor saldo de medalhas olímpicas na história do Brasil. Por isso, fiquei surpreso quando vi meu caso ganhar tanta notoriedade.

Veja Isso incomodou?
Grael – As notícias sobre o acidente, sempre positivas, me atribuíam uma capacidade de superação do problema maior do que a que eu realmente tinha. Aquilo foi puxando o meu ritmo, exigindo que eu enxergasse o mundo por uma ótica positiva.

Veja O senhor também se sentiu alvo de pena?
Grael – Esse não é um bom sentimento. Até hoje, quando alguém me diz "coitado, tão jovem, perdeu a perna", isso incomoda.

VejaRecentemente, o senhor obteve na Justiça uma indenização. No decorrer do processo, esteve frente a frente com Carlos Guilherme Lima, o homem que o atropelou. Como foi a experiência?
Grael – Eu não cheguei a vê-lo no dia do acidente, apenas depois, por fotos. Só o encontrei pessoalmente uma única vez, durante um depoimento. Eu estava perturbado com aquele encontro, entrei na sala tentando me acalmar. Quando cheguei, ele já estava lá e me estendeu a mão. Eu, automaticamente, estendi também. Algumas pessoas acharam um erro, como se eu o estivesse perdoando. Outras acharam que era uma virtude. Eu não tenho ódio dele. Talvez tivesse se o acidente vitimasse um filho meu.

Veja O que é mais complicado na vida de um amputado: adaptar-se ao mundo ou fazer o mundo adaptar-se a ele?
Grael – Quando cheguei em minha casa, em Niterói, pedi ao meu irmão que construísse um banquinho, colocasse alças no corredor para eu poder me apoiar e para ir ao box do banheiro. Logo depois, vi que isso era uma bobagem. Eu é que tinha de me adaptar à nova condição de vida, e não o inverso, ou seja, tentar adaptar o mundo a mim. Quando comecei a trabalhar no ministério, viajava pelo Brasil inteiro, cada dia dormindo em um hotel diferente. Não havia a menor possibilidade de as coisas serem adaptadas. Atualmente, tenho uma vida totalmente independente. Com as minhas muletas, ando na mesma velocidade de outras pessoas – às vezes, até mais rápido. Subo escadas e rampas. Só não sei dar nó na gravata. Até hoje, quem faz é a Renata. Mas isso eu já não sabia.

 
 
 
 
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