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Entrevista:
Lars Grael
De
volta à vida
O velejador olímpico diz que seu
maior triunfo foi ter superado
o próprio preconceito contra
a condição de deficiente

Marcelo Carneiro
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Claudio Rossi

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"Sou
mais feliz do que pensa a maior parte das pessoas que
me vêem na rua e me consideram um coitado" |
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Quando
Lars Grael, 39 anos, entra no mar, não cumpre apenas um ritual
de vitórias na vela, tradição que acompanha
sua família há três gerações.
Duas medalhas olímpicas, dez campeonatos brasileiros na classe
Tornado, Grael continua praticando o esporte que mais ama, apesar
de ter perdido a perna direita, arrancada pela hélice de
uma lancha em alta velocidade, em setembro de 1998. Só agora,
cinco anos após o acidente, o velejador conquistou na Justiça
uma indenização de 2,5 milhões de reais e uma
pensão vitalícia de 7.000 reais mensais, a ser paga
pelo dono da embarcação. Nesse período, passou
por um lento processo de readaptação à condição
de amputado, que incluiu dores lancinantes e delírios provocados
por uma alta carga de medicamentos. Nem por isso demonstra amargura.
"Apesar de vitorioso no esporte, eu era um homem com tendência
à depressão. Superar o acidente me fez uma pessoa
mais feliz", diz Grael, que hoje ocupa o cargo de secretário
de Juventude, Esporte e Lazer de São Paulo. Durante duas
horas, ele recebeu VEJA em seu gabinete, no Ginásio do Ibirapuera,
para esta entrevista.
Veja
Cinco anos após o acidente, o que foi mais
difícil superar?
Grael A fase inicial foi, sem dúvida, a mais
dolorosa. Primeiro, a luta pela vida, semi-inconsciente, tentando
vislumbrar se eu sairia daquela. E, se conseguisse sair, como iria
viver. Eu era um atleta olímpico tendo de começar
a pensar como seria a vida de um deficiente físico. Valeria
a pena viver? Qual seria a aceitação da família?
Qual minha relação com o esporte? Será que
nunca mais? Será que viraria treinador ou abandonaria tudo?
Mas, no meu caso, o acidente adquiriu uma notoriedade tão
grande, e deixou minha vida íntima tão exposta, que
tive apenas dois caminhos. Sentir-me fragilizado e tentar fugir
de uma realidade ou, já que estava mesmo exposto, assumir
aquela condição.
Veja Que lembranças o senhor guarda dos
primeiros momentos, quando estava sendo socorrido?
Grael
Experimentei uma sensação que já tinha visto
em livros, em depoimentos. Quando eu estava na ambulância,
no caminho entre o Iate Clube de Vitória e o hospital, tive
duas paradas cardíacas. Na primeira, veio aquela sensação.
Fui perdendo a força, senti tudo se fechando. Tive um sentimento
de leveza, como se estivesse saindo do próprio corpo, levitando,
uma coisa da qual eu só tinha ouvido falar em programas como
o Fantástico, e achava que era fantasia. Na segunda
parada, eles já estavam desistindo de me reanimar com choques
e massagens, quando um médico disse: "Vamos tentar mais uma
vez, não custa nada". Isso, mesmo eu estando apagado, ficou
na minha memória. Mais tarde, perguntei a um médico
que estava lá se aquilo tinha acontecido ou se era algo que
eu havia criado. Ele falou que tinha acontecido.
Veja A dor é uma companhia constante dos
amputados. Como o senhor lidou com ela?
Grael Até hoje tenho a sensação
de que minha perna existe, como se ela tivesse acabado de ser esmagada,
como se uma máquina tivesse caído em cima do meu pé
e destruído tudo. É o que os especialistas chamam
de "dor fantasma". Na época, essa dor era muito evidente.
Eu sentia dor em detalhes, no joelho, no menisco, no tornozelo,
no tendão de Aquiles, nos dedos. E sentia algumas dores bem
distintas. Uma queimação, como se alguém tivesse
acendido um isqueiro embaixo do meu pé. Outras vezes, era
uma dor de choque, e eu dava um pulo na cama. Há um terceiro
tipo de dor, que parece uma perfuração, como se tivesse
um prego cravado na pele. Isso acaba com sua resistência psicológica.
Você fica deprimido, acha que vai ser um estorvo para sua
família, vai sentir isso a vida toda. A dor me causou muita
depressão.
Veja
Há medicamentos que aliviam a dor, mas causam dependência.
O senhor sentiu esses efeitos?
Grael
Tomei morfina e metadona. A morfina causa dependência. Quando
saí do Hospital Albert Einstein e fui para a casa de um amigo,
ainda em São Paulo, foi iniciada, lentamente, a retirada
da morfina. Ainda na UTI, tive delírios, com cores e monstros,
por causa das drogas. Eu fugia de tudo que tivesse muita cor. No
quarto havia uma televisão, e eu adoro ver TV. Só
que, quando ela era ligada, disparava minha pulsação,
a respiração aumentava. Era uma coisa meio psicodélica.
Um dia, meu médico falou que eu precisava ter força
para resistir à dor, porque havia me tornado um dependente
químico. Isso me deu uma raiva muito grande. Venho do esporte,
sempre fui um atleta limpo de qualquer droga. Apresentaram-me, então,
um médico especialista em dor, que substituiu a morfina por
metadona e receitou outros três remédios. Eu precisava
desmamar das drogas sem sofrer com a dor. Pouco antes do Natal de
1998, cerca de três meses após o acidente, resolvi
parar com os medicamentos. Até 2001, eu ainda tinha crises
de dor, principalmente quando passava por uma situação
de stress. Era como se fosse uma memória da dor. A partir
de 2002, não tive mais isso.
Veja Aceitar a condição de deficiente
também é um processo lento. Como o senhor enfrentou
essa fase?
Grael
No hospital, recebia muitas mensagens dizendo que eu ia superar
o problema. Sempre achava que essas pessoas estavam sendo legais,
mas só falavam assim porque não tinha acontecido com
elas. Até que um dia meu ortopedista, o doutor Marco Guedes,
que é um amputado de perna, decidiu que eu devia conversar
com alguns deficientes. Ele me apresentou uma enfermeira amputada
de perna que tinha se tornado gerente no Hospital Albert Einstein,
um motociclista amputado, um surfista de uma perna só, um
modelo que usa prótese na perna e pratica parapente. A partir
daí, o discurso passou a ser convincente. Essas pessoas me
mostraram que eu teria de assumir uma nova vida.
Veja
Como o senhor passou por essa mudança?
Grael
Nos primeiros dias, eu não tinha noção de quais
seriam minhas limitações. Minha perna esquerda, por
exemplo, tem um corte profundo na coxa. Eu havia perdido a sensibilidade
nessa perna. Nos primeiros dias, não sentia nada. Depois,
comecei a mexer os dedos, em seguida o pé, para bem depois
começar a mexer a perna. Eu achava que ia ficar em uma cadeira
de rodas e me perguntava se valeria a pena viver daquele jeito.
A resposta era sempre sim. Se eu conseguisse ficar numa cadeira
de rodas na beira do meu clube em Niterói, de frente para
o mar, respirando ar puro debaixo de uma árvore, vendo um
filho meu crescer saindo de barco ali na frente, já valeria
a pena. E meu grau de conforto foi aumentando. Da cadeira de rodas,
fui para o andador. Do andador, para a muleta. Depois, fui para
a prótese, e recuei por falta de tempo. Criei um parâmetro
de conforto de vida tão baixo, e aceitei que esse parâmetro
seria bom o suficiente, que tudo o que veio depois foi considerado
uma conquista. A vida é uma questão de parâmetros.
Veja
O senhor usa muletas, e não prótese. Tem encontrado
dificuldade na adaptação?
Grael
Eu achava que a prótese iria recuperar minha perna
perdida. Pouco tempo depois, descobri que ela nada mais é
do que um instrumento mecânico, como a muleta ou a cadeira
de rodas. Para usar uma boa prótese, precisaria fazer uma
cirurgia corretiva. Eu vinha de uma seqüência de dez
cirurgias, nove com anestesia geral, e isso me desanimou um pouco.
Quando cheguei a Brasília em janeiro de 1999, para trabalhar
no Ministério dos Esportes, ainda tentava usar, mas entrei
numa roda-viva tão grande, me apeguei com tanto empenho ao
trabalho, que ele serviu como uma fuga dessa realidade.
Veja
Dentre as atividades que o senhor teve de abandonar, o que mais
lhe dá saudade?
Grael
A prática de esportes. Sempre fui muito competitivo.
No colégio, fui goleiro de handebol e de futebol. Já
fiz atletismo, boxe, vôlei, tênis, tiro e badminton.
Passo horas diante da TV a cabo vendo programas esportivos. Adorava
acabar minha velejada e dar uma corrida de 5 a 10 quilômetros.
É disso que sinto muita falta. Hoje, em São Paulo,
sou sócio de um clube completo. Mas tudo que tem ali eu não
posso fazer. Essa é a hora em que fico deprimido. Quando
vejo meus irmãos jogando tênis, sento-me na beira da
quadra e olho. Gosto de assistir, mas fico triste. À noite,
sonho com uma partida de tênis inteira, cada ponto, cada game,
até fechar o set. Quando acordo, vejo que não vou
jogar tênis nunca mais. Por sorte, posso fazer meu esporte
predileto, que é a vela. Em determinadas classes, em condição
de competição. Já conquistei até alguns
títulos.
Veja
Qual a sensação de entrar pela primeira
vez no mar, após a amputação?
Grael
Indescritível. Foi muito pouco tempo depois do acidente,
menos de quatro meses, em uma regata tradicional do meu clube, em
homenagem ao meu avô. Tecnicamente, ela não tinha a
menor importância, era apenas uma confraternização.
Mas, para mim, parecia as Olimpíadas. Meu irmão Torben
insistiu para que eu fosse velejar, para perder o trauma. Ele comprou
um barco de 1933, feito de madeira, muito velho. Se eu ficasse em
último lugar na regata, a culpa ia ser do barco, e não
minha. Renata, minha mulher, e dois velejadores foram comigo. Na
classe dos barcos antigos, nós fomos os vencedores.
Veja
Como foi a reação de sua mulher diante do
episódio?
Grael
Ela foi maravilhosa, em todos os momentos, e até hoje.
Estava no clube na hora do acidente e me viu passar ainda carregado,
com a perna dilacerada. Eu via a Renata tão sensibilizada,
presente, carinhosa, dedicando noite e dia à minha recuperação,
mas pensava se ela estava ali por gratidão, por pena, dando-me
uma força para depois seguir o caminho dela.
Veja
O senhor teve medo de perder sua mulher?
Grael
Isso aconteceu. Eu me perguntava se ela continuaria a me querer
do jeito que eu estava. Pensava que nossa relação
não seria tão intensa quanto antes, que poderia perder
o desejo por estar casada com um deficiente físico. Isso
vinha à minha cabeça constantemente, e eu tinha dificuldade
em abrir o jogo com ela. Uma vez, na casa de um amigo, surgiu a
oportunidade de conversarmos. Falei que não sabia como ia
ser nossa vida dali em diante e disse que ela podia ficar à
vontade. Ela ficou muito zangada e disse que não tinha casado
com minha perna, mas comigo. Mostrou-me que não tinha a menor
dificuldade em conviver com um deficiente físico. Quem demonstrava
ter essa dificuldade era eu.
Veja E como o senhor lidou com a exposição
pública da amputação?
Grael
Essa foi uma parte difícil. Ainda no quarto do hospital,
quinze dias após o acidente, dei uma entrevista coletiva.
Era o primeiro dia em que eu ia aparecer sem perna. Estava sentado
no sofá, muito magro, ao lado da minha mulher e de meu irmão,
Torben. Eu olhava para baixo e via que não tinha perna, me
sentia envergonhado de estar sendo exposto daquele jeito. Mas a
exposição inicial foi tão grande, e tão
involuntária, que eu não tive chance de optar. A televisão
fazia simulações do meu acidente, com o desenho da
perna que sumiu e de como eu ia ficar. Eu olhava para a TV e via
a minha intimidade tão exposta que já não valia
mais a pena esconder. Nessa fase inicial, eu fiquei muito surpreso
com a divulgação que o episódio teve.
Veja
Mas o senhor esperava que o acidente não ganhasse essa
projeção?
Grael
É claro que foi um episódio marcante. Um atleta,
durante uma competição, ser atropelado por uma lancha,
naquelas condições. É natural que trouxesse
alguma comoção, mas não imaginava que seria
tão grande. A vela é um esporte que passa quase despercebido,
embora tenha o melhor saldo de medalhas olímpicas na história
do Brasil. Por isso, fiquei surpreso quando vi meu caso ganhar tanta
notoriedade.
Veja Isso incomodou?
Grael
As notícias sobre o acidente, sempre positivas, me
atribuíam uma capacidade de superação do problema
maior do que a que eu realmente tinha. Aquilo foi puxando o meu
ritmo, exigindo que eu enxergasse o mundo por uma ótica positiva.
Veja
O senhor também se sentiu alvo de pena?
Grael
Esse não é um bom sentimento. Até hoje,
quando alguém me diz "coitado, tão jovem, perdeu a
perna", isso incomoda.
Veja
Recentemente, o senhor obteve na Justiça uma indenização.
No decorrer do processo, esteve frente a frente com Carlos Guilherme
Lima, o homem que o atropelou. Como foi a experiência?
Grael
Eu não cheguei a vê-lo no dia do acidente, apenas
depois, por fotos. Só o encontrei pessoalmente uma única
vez, durante um depoimento. Eu estava perturbado com aquele encontro,
entrei na sala tentando me acalmar. Quando cheguei, ele já
estava lá e me estendeu a mão. Eu, automaticamente,
estendi também. Algumas pessoas acharam um erro, como se
eu o estivesse perdoando. Outras acharam que era uma virtude. Eu
não tenho ódio dele. Talvez tivesse se o acidente
vitimasse um filho meu.
Veja
O que é mais complicado na vida de um amputado: adaptar-se
ao mundo ou fazer o mundo adaptar-se a ele?
Grael
Quando cheguei em minha casa, em Niterói, pedi ao meu irmão
que construísse um banquinho, colocasse alças no corredor
para eu poder me apoiar e para ir ao box do banheiro. Logo depois,
vi que isso era uma bobagem. Eu é que tinha de me adaptar
à nova condição de vida, e não o inverso,
ou seja, tentar adaptar o mundo a mim. Quando comecei a trabalhar
no ministério, viajava pelo Brasil inteiro, cada dia dormindo
em um hotel diferente. Não havia a menor possibilidade de
as coisas serem adaptadas. Atualmente, tenho uma vida totalmente
independente. Com as minhas muletas, ando na mesma velocidade de
outras pessoas às vezes, até mais rápido.
Subo escadas e rampas. Só não sei dar nó na
gravata. Até hoje, quem faz é a Renata. Mas isso eu
já não sabia.
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