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Em
foco: Gustavo Franco
O ano do fim das ilusões
"Em
2004 os desafios do governo serão
ainda mais formidáveis que em 2003.
O
crescimento vai depender do investimento
privado e
caberá ao governo praticar políticas
pró iniciativa privada"
O
ano de 2003 foi de enlouquecer os que vivem de fazer previsões.
Há paradoxos, surpresas e desafios de interpretação
por toda a sua superfície. Foi horrível em matéria
de crescimento, talvez mesmo negativo, mas termina com um aroma
de otimismo meio inexplicável, talvez cansaço, ou
torcida, não tanto por indicadores objetivos. E o que vale
mesmo é a sensação, não a estatística.
A
balança comercial foi o espetáculo, e graças
à impressionante, e não menos preocupante, desvalorização
cambial ocorrida a partir de meados do ano passado. Sim, é
bom ter superávit comercial quando a conta de capitais parece
um deserto, mas não se pode esquecer que, em dosagens maiores
que a ideal, a desvalorização é recessiva,
comprime os salários, piora a distribuição
de renda e enfraquece os incentivos empresariais para a busca de
maior produtividade, pois seus efeitos são em tudo idênticos
aos de uma tarifa protecionista.
Ilustração Ale Setti
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A explosão do câmbio não foi obra do acaso,
tampouco do Banco Central: teve a ver com uma espécie de
"bolha negativa" que se armava em meados de 2002 em razão
das terríveis expectativas que existiam sobre o que seria
a política econômica do PT. Essa "bolha" começou
a inchar meses antes de abertas as urnas, e atingiu seu ápice
no colo de FHC, que nada podia fazer, pois todo o problema era com
o medo de piruetas heterodoxas por parte do PT. Só mesmo
o próprio PT para furar essa "bolha", o que acabou sendo
feito de forma diligente e determinada a partir do acordo com o
FMI em 2002, e ao longo de 2003 através da adoção
surpreendentemente convicta do que os radicais do PSDB (para não
falar dos petistas) chamavam de "fernando-malanismo". Quem poderia
esperar que o ex-prefeito de Ribeirão Preto, médico
de profissão, formasse uma equipe tão "ortodoxa" e
estranha ao PT?
O
fato é que o ano de 2003 termina com o governo embriagado
com o aplauso do mercado à manutenção de políticas
de responsabilidade fiscal e disciplina monetária que, como
bem sabemos, foram depredadas de forma impiedosa e oportunista pelos
economistas do PT nos últimos anos. Quem se importa? O presidente
repete orgulhoso que a inflação foi dominada, o risco
Brasil caiu de 24% para 5% e as linhas comerciais externas voltaram.
É verdade, mas seria hipócrita dizer que essas vitórias
têm a ver com idéias petistas, ou com "mudanças"
introduzidas pelo novo governo diante da falência do anterior.
Antes pelo contrário, os mercados foram pacificados porque
o PT se despiu de seu passado, abandonou sua coerência e renegou
tudo o que disse da política econômica do governo passado.
Foi
um ano de ouro para o mercado financeiro, inclusive e principalmente
porque ninguém esperava. O C-Bond quase dobrou de preço,
beirando seu valor de face, e a bolsa triplicou de valor em dólares.
É verdade que as condições internacionais favoreceram
essa volta à normalidade dos preços dos ativos brasileiros,
mas papel fundamental coube à surpreendente continuidade
de políticas macroeconômicas convencionais e ao também
inesperado avanço das mesmas reformas que o PT combateu tenazmente
nos últimos anos.
Em
2004 os desafios serão ainda mais formidáveis. Se
em 2003 o governo enfrentou a senadora Heloísa Helena, em
2004 será a vez da professora Maria da Conceição
Tavares. Em 2004 o crescimento só virá se for cumprida
uma extensa agenda que tem sido chamada de "microeconômica".
Trocando em miúdos, como não há dinheiro para
investimentos públicos, o crescimento vai depender do investimento
privado. Trata-se, portanto, de praticar políticas pró
iniciativa privada no varejo, em todos os setores e esferas regulatórios.
Se queremos formação de capital, temos de agradar
ao capital, um desafio monumental para um partido de embocadura
estatista, avessa ao mercado e à globalização.
Será, como em 2003, mudar ou perder o trem, deixar-se atropelar
pela decepção dos mercados, que pode ser tão
devastadora quanto foi irresistível a aclamação
em 2003.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com www.gfranco.com.br)
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