Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Em foco: Gustavo Franco
O ano do fim das ilusões

"Em 2004 os desafios do governo serão
ainda mais formidáveis que em 2003.
O crescimento vai depender do investimento
privado
e caberá ao governo praticar políticas
pró iniciativa privada"

O ano de 2003 foi de enlouquecer os que vivem de fazer previsões. Há paradoxos, surpresas e desafios de interpretação por toda a sua superfície. Foi horrível em matéria de crescimento, talvez mesmo negativo, mas termina com um aroma de otimismo meio inexplicável, talvez cansaço, ou torcida, não tanto por indicadores objetivos. E o que vale mesmo é a sensação, não a estatística.

A balança comercial foi o espetáculo, e graças à impressionante, e não menos preocupante, desvalorização cambial ocorrida a partir de meados do ano passado. Sim, é bom ter superávit comercial quando a conta de capitais parece um deserto, mas não se pode esquecer que, em dosagens maiores que a ideal, a desvalorização é recessiva, comprime os salários, piora a distribuição de renda e enfraquece os incentivos empresariais para a busca de maior produtividade, pois seus efeitos são em tudo idênticos aos de uma tarifa protecionista.

Ilustração Ale Setti


A explosão do câmbio não foi obra do acaso, tampouco do Banco Central: teve a ver com uma espécie de "bolha negativa" que se armava em meados de 2002 em razão das terríveis expectativas que existiam sobre o que seria a política econômica do PT. Essa "bolha" começou a inchar meses antes de abertas as urnas, e atingiu seu ápice no colo de FHC, que nada podia fazer, pois todo o problema era com o medo de piruetas heterodoxas por parte do PT. Só mesmo o próprio PT para furar essa "bolha", o que acabou sendo feito de forma diligente e determinada a partir do acordo com o FMI em 2002, e ao longo de 2003 através da adoção surpreendentemente convicta do que os radicais do PSDB (para não falar dos petistas) chamavam de "fernando-malanismo". Quem poderia esperar que o ex-prefeito de Ribeirão Preto, médico de profissão, formasse uma equipe tão "ortodoxa" e estranha ao PT?

O fato é que o ano de 2003 termina com o governo embriagado com o aplauso do mercado à manutenção de políticas de responsabilidade fiscal e disciplina monetária que, como bem sabemos, foram depredadas de forma impiedosa e oportunista pelos economistas do PT nos últimos anos. Quem se importa? O presidente repete orgulhoso que a inflação foi dominada, o risco Brasil caiu de 24% para 5% e as linhas comerciais externas voltaram. É verdade, mas seria hipócrita dizer que essas vitórias têm a ver com idéias petistas, ou com "mudanças" introduzidas pelo novo governo diante da falência do anterior. Antes pelo contrário, os mercados foram pacificados porque o PT se despiu de seu passado, abandonou sua coerência e renegou tudo o que disse da política econômica do governo passado.

Foi um ano de ouro para o mercado financeiro, inclusive e principalmente porque ninguém esperava. O C-Bond quase dobrou de preço, beirando seu valor de face, e a bolsa triplicou de valor em dólares. É verdade que as condições internacionais favoreceram essa volta à normalidade dos preços dos ativos brasileiros, mas papel fundamental coube à surpreendente continuidade de políticas macroeconômicas convencionais e ao também inesperado avanço das mesmas reformas que o PT combateu tenazmente nos últimos anos.

Em 2004 os desafios serão ainda mais formidáveis. Se em 2003 o governo enfrentou a senadora Heloísa Helena, em 2004 será a vez da professora Maria da Conceição Tavares. Em 2004 o crescimento só virá se for cumprida uma extensa agenda que tem sido chamada de "microeconômica". Trocando em miúdos, como não há dinheiro para investimentos públicos, o crescimento vai depender do investimento privado. Trata-se, portanto, de praticar políticas pró iniciativa privada no varejo, em todos os setores e esferas regulatórios. Se queremos formação de capital, temos de agradar ao capital, um desafio monumental para um partido de embocadura estatista, avessa ao mercado e à globalização. Será, como em 2003, mudar ou perder o trem, deixar-se atropelar pela decepção dos mercados, que pode ser tão devastadora quanto foi irresistível a aclamação em 2003.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com – www.gfranco.com.br)

 
 
 
 
topo voltar