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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo A
suprema trava
Um caso para pensar e um lembrete:
se o presidente quer destravar, o
que emperra mesmo é o mau ensino
Se o leitor acreditou na história de prioridade
para a educação, alardeada durante a campanha eleitoral por candidatos
diversos aos mais diferentes cargos, agora já descobriu: era tudo mentirinha.
Ou melhor: houve uma única e nobre exceção o senador
Cristovam Buarque. Este acredita mesmo que a escolha é ou educação
ou morte e, com base nessa crença, fez a mais digna das campanhas presidenciais
da temporada. Quanto aos outros, a "prioridade da educação" pode
ser medida pela rapidez com que o tema foi varrido do mapa. Os políticos
dedicam-se no momento a politicar em torno das mesas do Congresso e da formação
do ministério. Os economistas, a economistar em torno de desenvolvimentismo,
mercado, juros e similares. O presidente Lula, a proclamar a intenção
de "destravar o país" sendo que destravar, para ele, diz respeito
exclusivamente à economia. Cristovam Buarque
tinha como carro-chefe de seu programa a federalização do ensino
público fundamental e médio do país. O ensino nesses níveis
é atualmente atribuição dos estados e municípios,
e entre eles há grandes disparidades. Buarque propunha que a União
arcasse com a responsabilidade de eliminar as diferenças, a começar
pelo financiamento das unidades federativas mais pobres, e de fixar padrões
mínimos de qualidade. Pode ser uma boa proposta, pode ser má. Alguém
a discutiu? Não. Nem na campanha nem neste período pós-eleitoral.
Na campanha, é bom esclarecer, quando os candidatos invocam a prioridade
da educação, estão papagaiando coisa igual a: "A prioridade
é a vida", "A prioridade é a justiça". Quem pode ser contra?
Um caso levantado pelo jornalista Gilberto Dimenstein,
em sua coluna na Folha de S.Paulo, chama atenção para a complexidade
da questão. O Colégio Porto Seguro, um dos mais tradicionais e mais
reputados de São Paulo, fundado pela colônia alemã no século
XIX, mantém uma unidade destinada às crianças da favela de
Paraisópolis. A favela é vizinha ao colégio. Uma favela chamar-se
Paraisópolis revela que jamais se deve subestimar o grau de otimismo do
brasileiro. O fato de ser vizinha do colégio, no bairro chique do Morumbi,
expõe a "pele de leopardo" que cada vez mais toma conta das cidades brasileiras,
para recorrer a uma expressão do tempo da Guerra do Vietnã. (A expressão
indicava que, como as manchas da pele desses felinos, as áreas dominadas
pela guerrilha vietcongue e pelo governo pró-EUA se tocavam, se imbricavam
e se confundiam.) O fato de Paraisópolis ser uma das maiores e mais violentas
favelas de São Paulo revela quanto a mancha "vietcongue" da pele de leopardo
se mostra desenvolta ao avançar sobre a mancha antes exclusiva da porção
que o governador Cláudio Lembo chama de "elite branca".
A Escola da Comunidade, esse é o nome da seção do Porto Seguro
destinada às crianças e aos adolescentes da favela, tem 800 alunos,
aos quais as aulas são ministradas pelos mesmos professores da unidade-mãe.
Trata-se de um precioso e generoso serviço prestado à população
ali do lado. Implantada nos anos 60, a escola a princípio se limitava ao
ensino fundamental. Em 2003, passou a oferecer também ensino médio.
No ano passado, 68 alunos formados na primeira turma candidataram-se, com base
nos resultados obtidos no Enem, a uma bolsa no ProUni, o programa do governo que
financia os estudos de alunos carentes em faculdades particulares. Só doze
foram aprovados. A Escola da Comunidade utiliza-se
das mesmas instalações do Porto Seguro, digamos, "normal". Seus
alunos têm acesso aos mesmos laboratórios e aos mesmos computadores.
O material didático é de graça e há aulas de reforço
para quem precisa. Por que seus alunos não obtiveram, na tentativa de acesso
à faculdade, o mesmo sucesso que os do Porto Seguro costumam ter? A resposta
aponta para o ambiente familiar. Os alunos do Porto Seguro se originam de famílias
não só mais exigentes, mas que lhes fornecem um ambiente cultural
de que os outros carecem. Os livros, os filmes, os museus, as notícias
e as viagens são artigos em geral disponíveis só do lado
de cá da pele de leopardo. Essa constatação
arrasta a questão do ensino para além dos limites da escola. Baseado
em cálculos de especialistas, Dimenstein informa que a escola só
consegue responder por 30% de uma boa educação. Nos restantes 70%
a criança e o adolescente serão abastecidos por estímulos
e ofertas estranhas ao currículo. Eis um tema a ser debatido. Mas quem
discutirá, fora do mundinho de sempre? A educação será,
realmente, prioridade, quando houver tantas notícias, artigos e debates
sobre ela, na imprensa escrita e na TV, quanto sobre crescimento econômico.
E tantos políticos atentos a ela quanto às emendas ao Orçamento.
Não vale dizer que o assunto é chato. Se a questão fosse
assunto chato, ninguém falaria de economia. O presidente quer destravar?
A suprema trava é a educação ruim e mal distribuída.
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