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Especial
Inimigo íntimo
Um alerta da ciência condena um hábito
que, em geral, começa em casa: o consumo
exagerado de álcool na adolescência pode
causar danos em regiões do cérebro ligadas
à memória e ao aprendizado, além de aumentar
a propensão dos jovens ao alcoolismo

Ronaldo Soares
Montagem com fotos de Pedro Rubens e
Reginaldo Teixeira
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Quando tinha 11 anos, o carioca
Fabrício tomou seus primeiros goles de cerveja. Estava na
companhia do irmão e de um primo em uma festa. Com 15 anos,
acompanhado do pai, embriagou-se pela primeira vez. Aos 16, munido
de uma carteira de motorista falsa, ele saía para dirigir
quase sempre bêbado e volta e meia se metia
em brigas de rua. A presença marcante do álcool na
adolescência de Fabrício (nome fictício),
hoje um DJ de 27 anos, não é um caso isolado. Poderia
ter se dado na imensa maioria dos lares brasileiros, em que o consumo
de bebida alcoólica por menores de idade é uma prática
não só tolerada como às vezes incentivada pelos
próprios pais. Sempre foi assim. O que começa a mudar
agora é que esse tipo de comportamento, normalmente encarado
como uma das muitas transgressões típicas da adolescência,
às quais as famílias não dão grande
importância, vem assumindo os contornos de calamidade no meio
científico. As pesquisas dedicadas ao tema se intensificaram
nos últimos dez anos. A principal constatação
dos cientistas é que o consumo de álcool na adolescência
e na juventude deixa marcas indeléveis no cérebro.
Beber é muito mais danoso para o cérebro jovem do
que para o dos adultos. Os efeitos a longo prazo são bastante
indesejáveis. Eles variam de déficits de aprendizagem,
falhas permanentes de memória, dificuldade de autocontrole
a ausência de motivação. Além disso,
o abuso de álcool na juventude faz com que o jovem fique
cinco vezes mais propenso a se tornar alcoólatra na idade
adulta.
Atenção! A esta
altura da reportagem entra em funcionamento o sistema de defesa
de todo adulto perfeitamente normal hoje que se lembra de seus porres
homéricos na juventude. "Eu enchi a cara na juventude e não
me tornei alcoólatra" é uma reação tão
pouco científica quanto outras duas clássicas chicanas
mentais: "Eu apanhei muito de meus pais na infância e nem
por isso tenho traumas ou os odeio" ou "Bati muito racha a 100 quilômetros
por hora nas madrugadas e estou aqui vivo e forte além
de ter me tornado um motorista muito responsável". Do ponto
de vista pessoal, essas reações devem ser vistas como
a fala de sobreviventes, de pessoas que desafiaram o perigo e saíram
vivas, intactas, para contar a história. Do ponto de vista
da ciência, os sobreviventes são apenas a prova de
que o perigo é real e de que não vale a pena fechar
os olhos a que os filhos corram os mesmos riscos. A boa sorte, infelizmente,
não é hereditária.
Oscar Cabral
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DELINQÜÊNCIA
Documentos falsos: adolescentes
como os cariocas André, Arlindo e Maurício usam
identidades fabricadas para burlar o controle na portaria de
estabelecimentos que não permitem a entrada de menores
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Os estudos nessa área ainda
precisam ser aprofundados, mas as descobertas feitas até
agora são alarmantes. Um dos maiores especialistas no assunto,
o pesquisador americano Aaron White, anunciou que existe um "sentido
de urgência" na investigação científica
sobre uso de álcool na adolescência. Diz ele: "Estamos
na mesma situação em que nos encontrávamos
há trinta anos, quando se tornou evidente o risco que corriam
os bebês de gestantes que ingeriam álcool. Era urgente
advertir todas as grávidas o mais rápido possível".
As pesquisas (veja
quadro) são unânimes em apontar que o uso exagerado
de álcool na adolescência afeta principalmente habilidades
cognitivas do cérebro, como memória e aprendizado.
Um dos estudos mais completos é o da equipe da psiquiatra
americana Susan Tapert, na Universidade da Califórnia. Tapert
estudou o cérebro de jovens menores de idade com histórico
de consumo de álcool. Ela descobriu em todos eles um dano
variável mas permanente em uma região cerebral conhecida
como hipocampo. Essa estrutura neuronial é parte do chamado
sistema límbico. Ela aparece nos dois hemisférios
cerebrais e, de forma pouco conhecida pelos cientistas, é
responsável pela navegação espacial e pela
memória. Não por acaso, as doenças degenerativas
do cérebro, como Alzheimer, são mais cruéis
quando destroem as células nervosas do hipocampo. A exposição
do hipocampo ao álcool em tenra idade é uma temeridade
que os cientistas sustentam que deve ser evitada a todo custo. Disse
Susan Tapert a VEJA: "O cérebro do adolescente tem grande
plasticidade e teoricamente poderia se recuperar naturalmente de
alguns dos danos provocados pelo álcool. Isso, no entanto,
precisa ser provado de modo científico".
As principais descobertas feitas
até agora revelam que:
O álcool pode causar danos ao hipocampo, cujo desenvolvimento
mais acentuado ocorre a partir do fim da adolescência. Testes
em cobaias mostraram que o álcool deixa mais lentos os neurônios
envolvidos na formação de novas memórias, o
que pode ser a explicação para lapsos em jovens humanos.
Adolescentes de 15 a 16 anos que haviam se embebedado pelo menos
100 vezes na vida se saíram pior em testes de memória
do que seus equivalentes sóbrios. Além disso, apresentavam
hipocampo menor que o dos que não bebiam.
O nível de atividade cerebral durante testes de memória
e atenção realizados com uso de ressonância
magnética funcional (que mede a alteração dos
níveis de oxigênio no cérebro) foi menor em
adolescentes com histórico de bebedeiras.
Dos adultos que haviam começado a beber antes dos 14 anos,
47% se tornaram dependentes; entre os que iniciaram o consumo a
partir dos 21 anos, o porcentual de dependência foi de 9%.
Fabiano Accorsi
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SALTO
PARA A MORTE
Alessandra: fugindo da polícia para não ser detida
por andar de moto embriagada, ela se atirou às margens
do Rio Tietê e não morreu por milagre, mas até
hoje sente os efeitos do tombo |
Dois fatores em especial chamam
a atenção dos pesquisadores e tornam esse cenário
ainda mais sombrio. Primeiro, a iniciação ao álcool
se dá cada vez mais cedo. No Brasil, ela ocorre aos 12 anos
e meio, enquanto nos anos 90 acontecia aos 14. Nos Estados Unidos,
o primeiro uso se dava entre os 17 e os 18 anos até meados
da década de 60. Atualmente, está na faixa dos 14
anos. O outro motivo de apreensão justamente por ser
o que expõe os jovens a possíveis danos cerebrais
é que eles estão adotando como hábito
beber exageradamente, e não apenas nos fins de semana. Essa
prática, descrita em inglês como binge drinking,
é a famosa bebedeira, ou suas variantes país afora
para designar consumo excessivo de álcool, como "encher a
cara", "tomar todas", "meter o pé na jaca" ou "enxugar o
copo". Apesar das inúmeras referências jocosas criadas
pelo anedotário popular, não há nada de engraçado
nesse comportamento, principalmente entre os mais jovens. Porque,
além dos danos neurológicos a longo prazo, o adolescente
fica exposto a riscos mais imediatos, como envolvimento em acidentes
de trânsito, casos de violência sexual, brigas e sexo
sem proteção.
Quem circula por locais onde
adolescentes costumam se reunir para beber percebe a gravidade da
situação. Embora seja proibida a venda de bebidas
a menores de 18 anos, meninos e meninas bebem quanto querem e nos
mais variados locais: postos de gasolina, bares próximos
a escolas, boates, clubes e festas. Se o local restringe a entrada
de menores, a solução é simples: os adolescentes
pegam carona com grupos de amigos maiores de idade para iludir o
controle na portaria. Ou então partem para a delinqüência
mesmo, falsificando documentos. O carioca Maurício, 16 anos,
se orgulha de ter mais de vinte documentos falsos, entre diferentes
versões de RG e carteirinhas de universitário. Um
de seus amigos de bebedeiras, André, também de 16
anos, conhece os macetes para "envelhecer" uma carteira de identidade
postiça. Diz ele: "É só passar borra de café
para escurecer o papel, amassar um pouco e morder a borda do plástico
para parecer que o documento não é muito novinho.
Tem boate em que a pessoa olha e até percebe que é
falso, mas deixa entrar assim mesmo".
Oscar Cabral
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DIREÇÃO
PERIGOSA
Paulo Victor: o estudante perdeu a conta de quantas vezes bateu
o carro dirigindo bêbado quando era adolescente; no mais
grave dos acidentes, ele perdeu a consciência, só
acordou no hospital e teve de ficar dois meses de cama |
O repertório de bebidas é mais amplo do que os truques
para burlar o frágil controle na entrada. As preferidas dos
adolescentes são as de sabor adocicado, como os coquetéis
de frutas cujos nomes são de péssimo gosto e não
têm nenhuma relação com o potencial etílico
de suas composições sex on the beach
(vodca com groselha, laranja e pêssego) e anjo mexicano (tequila
com absinto), entre outros. Nesse quesito, um dos mais apreciados
é o gummy, mistura de vodca com suco em pó
que costuma ser usada como chamariz em boates, já incluída
no preço da entrada. Outra febre entre os adolescentes são
as chamadas alcopops, bebidas gasosas que contêm essência
de fruta adicionada a algum destilado. Também conhecidas
como bebidas ice, as alcopops possuem teor alcoólico
semelhante ao da cerveja e, por seu sabor adocicado, são
mais atraentes para quem está começando a beber. Tornaram-se
tão populares na Europa e nos Estados Unidos que alguns locais
decidiram sobretaxá-las para conter seu avanço.
No Brasil, elas também
ganharam terreno. Pesquisa do Centro Brasileiro de Informações
sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) detectou no ano passado
o hábito de adolescentes misturarem destilados (em geral,
vodca e uísque) a bebidas energéticas. Foi a primeira
vez que a mistura foi mencionada desde que o Cebrid começou,
em 1987, a série de pesquisas entre alunos dos ensinos médio
e fundamental do Brasil. "Essas alcopops se destinam claramente
ao segmento de mercado dos menores de idade e são muito perigosas,
pois têm um sabor agradável que a cerveja não
tem. Muitas vezes os supermercados as expõem na seção
de refrigerante, o que é um absurdo", afirma a psiquiatra
Analice Gigliotti. Segundo ela, a introdução das ice
no mercado é uma das explicações para o número
cada vez maior de meninas consumindo álcool. Para o presidente
da Associação Médica Americana (AMA), J. Edward
Hill, as alcopops são "difundidas como alegres, sexy
e bacanas, como se fossem menos arriscadas de beber, mas suas conseqüências
para a saúde são tudo, menos sexy ou bacanas". O estudante
Arlindo, 17 anos, descobriu isso da pior maneira possível.
Em uma de suas investidas noturnas com os amigos André e
Maurício, alternou copos de vinho com bebidas ice.
"Já cheguei carregado. Comecei a dançar, subi num
tablado, caí num vão e cortei o braço todo",
relata.
André Fossati/1º Plano
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COMPORTAMENTO
DESTRUTIVO
Adolescentes que têm as bebedeiras como hábito
ficam sujeitos a acidentes, brigas e sexo sem proteção
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Arlindo teve sorte. As noitadas
nem sempre terminam bem. Em um episódio que comoveu o Rio
de Janeiro em setembro, um carro com cinco jovens que haviam passado
a noite em uma boate capotou e bateu numa árvore. Todos os
ocupantes morreram. As vítimas eram de famílias de
classe média ou média alta e tinham entre 16 e 22
anos de idade. O rapaz que estava ao volante, um jovem de 18 anos,
havia bebido mais do que duas vezes o permitido para dirigir. O
episódio está longe de ser um caso isolado. No Brasil,
metade dos acidentes automobilísticos fatais está
ligada ao consumo de álcool entre jovens de 18 a 25 anos.
A paulista Alessandra Érica Elias, 33 anos, que participa
de um programa de desintoxicação para dependentes
químicos, diz que por milagre não se tornou uma vítima
da combinação de álcool com direção
na adolescência. Aos 17 anos, pilotando embriagada uma moto
em alta velocidade, tentou escapar de uma perseguição
policial e se atirou às margens do Rio Tietê, em São
Paulo. "Fiquei horas desacordada e até hoje sinto dores na
perna por causa do acidente", conta. O estudante carioca Paulo Victor
Mombach, 23 anos, por pouco também não entrou nas
estatísticas. Ele perdeu a conta de quantas vezes na adolescência
se envolveu em acidentes ao dirigir embriagado. No mais grave deles,
acordou no hospital, todo imobilizado, e ficou dois meses de cama.
"Meus pais me davam bronca, botavam de castigo, tiravam a mesada,
mas não adiantava. Eu não tinha maturidade para enxergar
que estava exagerando", diz.
A combinação de
álcool com direção torna-se especialmente mortal
com a chegada das férias e das festas de fim de ano, quando
ocorre um verdadeiro banho de sangue nas rodovias. Nos Estados Unidos,
por exemplo, o período entre o Natal e o réveillon
é conhecido pelas autoridades como "a temporada mortal".
Das mortes no trânsito ocorridas na noite de Natal, 47,4%
estão relacionadas ao consumo de álcool, acima da
média dos dias comuns (39%). No Ano-Novo, o índice
de óbitos associados ao consumo de bebida é ainda
mais impressionante: salta para quase 70%. O álcool começa
a afetar a habilidade do motorista a partir de uma taxa de concentração
no sangue bem abaixo dos limites legais estabelecidos (veja
o quadro).
Oscar Cabral
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EXEMPLO
CASEIRO
Fabrício: o DJ carioca começou a beber com 11
anos de idade e aos 15 tomou seu primeiro porre, em companhia
do pai. Segundo os especialistas, o comportamento dos adultos
é fundamental para definir a relação dos
filhos com o álcool. Atitudes negativas dos pais podem
levar os filhos a atos destrutivos como se envolver em brigas,
matar aula e mentir |
O Brasil pode se orgulhar de ter
um limite mais rígido do que o dos Estados Unidos na tolerância
ao teor de álcool no sangue do motorista, mas essa é
nossa única vantagem. Enquanto os americanos têm mais
de 2.000 leis que regulam o beber e dirigir lá, a
infração é punida até com prisão
, no Brasil nem o simples teste do bafômetro o motorista
é obrigado a fazer. "Isso mostra que uma das principais causas
de acidentes de trânsito no Brasil é simplesmente ignorada.
Aqui, beber e dirigir não é considerado crime, é
um comportamento tolerado", diz Ronaldo Laranjeira, coordenador
da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad). Também
nesse caso, os jovens são as vítimas potenciais. Estudos
americanos indicam que, quanto mais jovem o motorista que consumiu
álcool, mais risco ele corre de se envolver em acidentes
fatais.
A dificuldade de entender o perigo
da associação entre bebida e direção
é algo típico da adolescência. Nessa fase da
vida, a pessoa passa por intensas mudanças físicas
e emocionais. Mapeamentos do cérebro mostram que as estruturas
responsáveis pelo controle dos impulsos e que ajudam os indivíduos
a definir o que é certo e o que é errado ainda não
estão completamente formadas. Portanto, o adolescente, por
natureza, não tem condições de avaliar as conseqüências
de seus atos e vive se metendo em encrenca daí a noção,
muito comum, de que se trata de uma fase problemática. "Na
adolescência, ocorre uma série de transformações
que fazem com que a pessoa fique confusa. É uma confusão
boa, de descobrir o que ela vai fazer da vida. Mas, se nessa confusão
entram álcool e drogas, fica tudo mais difícil", afirma
a psicóloga Ilana Pinsky, da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp).
Não há como definir
o momento exato em que começa e em que termina a adolescência.
Sabe-se que seu início se dá ao longo de uma mudança
ocorrida entre os 7 e os 11 anos de idade, quando crescem certas
regiões cerebrais ligadas à linguagem. A transformação
maior acontece por volta dos 18 anos e pode avançar até
os 25, quando o córtex pré-frontal amadurece, consolidando
o tal senso de responsabilidade que em geral falta aos adolescentes.
Cientistas acreditam que esse longo período de desenvolvimento
do cérebro pode ser a explicação para comportamentos
típicos da adolescência, como a busca por situações
novas e potencialmente perigosas, entre elas experimentar álcool
e outras drogas.
Mirian Fichtner/Pluf Fotografias
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O PAPEL
DA ESCOLA
Porto Alegre: a Associação Brasileira de Estudos
do Álcool e Outras Drogas (Abead) está coordenando
um trabalho pioneiro no país. Em parceria com escolas
da cidade, passou a orientar os pais de alunos a deixar de servir
bebidas alcoólicas a menores em festas de família.
A corrente antiálcool formada pela iniciativa já
conseguiu evitar a presença de bebidas em festas de 15
anos promovidas por pais que aderiram ao programa |
Como, no caso do álcool,
em geral a primeira experiência se dá em casa e com
a anuência da família, o problema torna-se particularmente
difícil de ser enfrentado. O fato de o álcool ser
uma droga legalizada gera interpretações equivocadas
por parte dos pais. Especialista em adolescentes dependentes químicos,
o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp, diz que existe
"uma grande preocupação da sociedade em torno das
drogas ilícitas, mas um descuido completo em relação
às drogas legalizadas". Ele já se acostumou a atender
pais desesperados quando descobrem que o filho consome maconha.
"Quando você vai ver, o menino fuma maconha uma vez por mês,
mas tem um irmão que bebe três vezes por semana, e
os pais não estão nem aí. A questão
não é a legalidade ou a ilegalidade da substância,
e sim o padrão de uso", afirma. Os especialistas advertem
que o exemplo da família é decisivo para definir a
relação dos filhos com o álcool (veja
quadro). Para a americana Susan Tapert, a palavra-chave
é moderação. Diz ela: "Os pais devem estar
atentos a quanto e de que maneira eles bebem na presença
das crianças".
A influência dos pais no
comportamento dos filhos é tema controverso na psicologia.
Há quem considere desprezível o peso do pai e da mãe
na personalidade juvenil, que seria influenciada muito mais pelo
convívio com pessoas alheias ao ambiente doméstico,
como amigos e colegas de turma. Outra corrente prega a hegemonia
dos genes para explicar a maioria das características pessoais,
da timidez à propensão à violência. Um
dos maiores estudos já feitos sobre adolescentes no Brasil
reforça a tese de que os pais têm, sim, peso fundamental
na definição do tipo de adulto que o filho vai ser.
Nos últimos dez anos, a psicóloga Lidia Weber, da
Universidade Federal do Paraná (UFPR), ouviu mais de 10.000
adolescentes de várias classes sociais em todo o país.
O objetivo era medir a associação entre os relacionamentos
em casa e a incidência dos chamados comportamentos de risco.
A pesquisa concluiu que há relação direta entre
atitudes negativas dos pais bater nos filhos, xingar ou ser
omisso na educação e o comportamento destrutivo
dos jovens, como se envolver em brigas, faltar a aulas, usar drogas
e mentir. Constatou-se que cerca de 96% dos filhos com bom relacionamento
em família nunca haviam se drogado. Já entre os que
relataram problemas em casa, 59% usavam regularmente drogas como
maconha, crack ou heroína.
Apesar disso, não se pode
atribuir aos pais toda a culpa pelo descontrole no consumo de álcool
entre adolescentes. A Organização Mundial da Saúde
(OMS) considera o álcool um problema de saúde pública
e, como tal, é preciso enfrentá-lo a partir da formulação
de políticas governamentais. No caso do Brasil, a OMS sugere
que se adote nessa área uma política inspirada na
do controle do tabaco, em que o país virou referência
mundial. As práticas implantadas aqui reduziram de 39% para
19% o número de fumantes em 25 anos, o que significou menos
36 milhões de brasileiros consumindo nicotina. A principal
bandeira dos especialistas que tentam incluir a discussão
sobre o álcool na agenda nacional é a proibição
total da propaganda de bebidas. Países que adotaram essa
medida reduziram em 30% os acidentes fatais de carro.
Embora a ciência venha
mostrando que é preciso fazer algo urgentemente para frear
o abuso de álcool na adolescência, o alerta parece
não ter se transformado ainda em um clamor da sociedade.
"Normalmente existe um intervalo de vinte, trinta anos entre o que
a ciência estabelece e o que as pessoas passam a praticar.
Foi assim, por exemplo, com as doenças circulatórias",
diz Dartiu Xavier da Silveira. O alerta só vai ganhar contornos
de clamor social quando as descobertas da ciência sobre os
efeitos do álcool em excesso no cérebro dos mais jovens
forem tão propagadas quanto os riscos a que se expõem
as gestantes que bebem ou fumam. Isso demora. Até lá
a regra de ouro é: menor não toma bebida alcoólica.
Se tomar, que beba pouco e só em algumas ocasiões.
Com reportagem de Daniela
Pinheiro
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