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Edição 1985 . 6 de dezembro de 2006

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Justiça
Entre a cruz e a cadeia

A Justiça decreta a prisão do casal
Hernandes, da igreja Renascer, por
estelionato e lavagem de dinheiro


Victor Martino


Oival Reis/DiarioSP/Ag. O Globo
Sonia Hernandes manda ver na pregação: ela, que clamava por salvação, agora tem de rezar para escapar do xadrez

Aos olhos da Justiça, a igreja evangélica Renascer em Cristo é um antro do pecado. Na semana passada, a Justiça de São Paulo decretou a prisão de seus dois líderes, o "apóstolo" Estevam Hernandes e sua mulher, a "bispa" Sonia. O casal fugiu para escapar da cadeia. A detenção foi pedida pelo Ministério Público de São Paulo, porque os Hernandes faltaram a uma audiência de um processo no qual são acusados de estelionato e lavagem de dinheiro. Fundada há vinte anos, a Renascer se tornou a segunda maior igreja evangélica do Brasil. Em 1986, Estevam e Sonia realizavam seus cultos na sobreloja de uma pizzaria paulistana. A partir do início da década de 90, o negócio cresceu exponencialmente, ao atrair fiéis de classe média alta e cobrar deles doações polpudas. Para se adequar a esse público, a Renascer passou a recolher dízimos até por meio de cartões de crédito e de débito. Hoje, tem mais de 1 500 templos no Brasil e em outros seis países, uma torre de televisão, a Rede Gospel de TV e a emissora de rádio Gospel FM. Também criou um evento anual chamado Marcha para Jesus, que, em sua última edição, reuniu 3 milhões de pessoas em São Paulo. O jogador Kaká, da seleção brasileira, é seu discípulo e garoto-propaganda.

A Renascer começou a ser investigada pelo Ministério Público faz quatro anos. Há quatro meses, os promotores fizeram a primeira denúncia contra o casal Hernandes. Nela, acusam-nos de premeditar o calote em todos os proprietários que alugaram os imóveis onde a igreja instalou seus templos. Segundo os promotores, a prática corriqueira e planejada desse tipo de cano configura crime de estelionato. "Ao não pagar as dívidas de forma sistemática, a Renascer pratica estelionato", afirma o promotor Marcelo Mendroni, que moveu o processo. A dívida imobiliária da Renascer soma 12 milhões de reais e a igreja responde a mais de 110 ações civis impetradas por suas vítimas. Para o promotor, o crime é ainda mais grave porque a Renascer recebeu dos fiéis dinheiro suficiente para pagar as dívidas com os locadores, mas o casal Hernandes teria preferido embolsá-lo, já que enriqueceu a olhos vistos desde que a igreja foi fundada.

O Ministério Público fez um levantamento minucioso da movimentação financeira dos Hernandes e dos bens que eles usufruem. Os promotores atribuem aos Hernandes uma fazenda de 1,3 milhão de reais, quatro apartamentos, que juntos valem mais de 6 milhões de reais, e um haras de 3 milhões. Com a ajuda da Receita Federal, eles descobriram que a editora Publicações Gamaliel, que pertence ao grupo Renascer, movimentou 46 milhões de reais em três anos e não declarou essa dinheirama ao Fisco. Os promotores concluíram o óbvio: os líderes da Renascer são muito mais ricos do que dizem ser. Para o Ministério Público, a fortuna foi amealhada com os dízimos dos fiéis, e os Hernandes praticaram crime de lavagem ao se apropriar desse dinheiro. A Justiça não só acatou a denúncia como também bloqueou os bens dos líderes evangélicos, a fim de garantir o pagamento dos aluguéis atrasados.


Carlos Renno/AE
Valeria Gonçalvez/AE
Sonia, com seu marido, Estevam (à esq.), e a Marcha para Jesus, na Avenida Paulista: 3 milhões de fiéis enganados

As investigações sobre os donos da Renascer não se restringem ao Brasil. Autoridades dos Estados Unidos apuram o patrimônio não declarado que a família Hernandes possui no seu país. À Justiça brasileira, Estevam Hernandes afirmou ter apenas uma casa em Miami, onde funciona o templo do instituto Reborn – "renascer" em inglês –, e uma van alugada para transportar fiéis. Mas, além dessa casa e da van, autoridades americanas atribuem aos Hernandes mais quatro casas, empresas e uma frota de catorze carros. Entre eles, um Cadillac preto, uma Mercedes-Benz e um Land Rover. Paralelamente a essa investigação, a promotoria de Miami instaurou um inquérito para apurar a denúncia de que a Renascer vende facilidades para a obtenção de vistos de permanência para pregadores religiosos. Esse tipo de visto só é fornecido a quem tem uma declaração de uma igreja instalada nos Estados Unidos de que será empregado por ela. É justamente aí que entra a Renascer. Segundo a promotoria de Miami, a igreja cobra 10.000 dólares para emitir esse documento.

Rastrear as ações e os bens da Renascer é uma tarefa complexa. A igreja esconde seus bens, operações comerciais e financeiras sob um emaranhado de empresas-fantasma. Um exemplo dessa tática é a torre de transmissão da Rede Gospel. No papel, a torre nada tem a ver com a Renascer. Tanto a estrutura quanto o prédio que a abriga pertencem à FH Comunicação. Só que, nesse caso, faltou sutileza: "FH" são as iniciais de Felippe Hernandes, filho de Estevam e Sonia Hernandes, que constituiu a empresa juntamente com sua irmã, Fernanda. Depois que a FH Comunicação passou a acumular dívidas hoje na casa dos 2,4 milhões de reais, a torre foi penhorada para pagar os débitos e a empresa está sendo processada por emitir 6 milhões de reais em notas fiscais frias e sonegar pelo menos outros 6 milhões. Mas, como Deus é pai, a FH mudou de donos subitamente. Agora, pertence a dois pastores da igreja em Pernambuco.

No ano retrasado, os Hernandes criaram outra igreja, a Renovação Evangélica. Noutro exemplo de falta de sutileza, instalaram sua sede num dos templos da Renascer. Para o Ministério Público paulista, a Renovação Evangélica é apenas outra fachada usada para encobrir o patrimônio do "apóstolo" e sua família. Por causa desse artifício, o promotor Mendroni apresentou em outubro uma nova denúncia contra a família Hernandes. Desta vez os acusa de falsidade ideológica. "A Renovação foi constituída apenas para esconder o patrimônio dos denunciados", diz Mendroni.

Em depoimento à Justiça, o "apóstolo" Estevam dá sua versão para o calote nos locadores dos templos e para as operações pouco cristãs de sua contabilidade. Segundo ele, a Renascer atravessa um mau momento financeiro e só não paga o que deve porque "a igreja está passando por dificuldades econômicas". Entre os fiéis, a defesa dos Hernandes é mais contundente. Foragido da polícia, Estevam se comunicou por rádio com os fiéis durante os cultos realizados na última quinta-feira. O "apóstolo" disse que a igreja e sua família sofrem por causa de uma "artimanha do demônio". Em seu site, incitou os fiéis a proclamar uma guerra contra as "mentiras do Diabo". Mas não há exorcismo que cancele tantos malfeitos.

 

 
 
 
 
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