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Justiça
Entre a cruz e a cadeia
A Justiça decreta a prisão do casal
Hernandes, da igreja Renascer, por
estelionato e lavagem de dinheiro

Victor Martino
Oival Reis/DiarioSP/Ag. O Globo
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| Sonia Hernandes manda ver na pregação:
ela, que clamava por salvação, agora tem de rezar
para escapar do xadrez |
Aos olhos da Justiça, a
igreja evangélica Renascer em Cristo é um antro do
pecado. Na semana passada, a Justiça de São Paulo
decretou a prisão de seus dois líderes, o "apóstolo"
Estevam Hernandes e sua mulher, a "bispa" Sonia. O casal fugiu para
escapar da cadeia. A detenção foi pedida pelo Ministério
Público de São Paulo, porque os Hernandes faltaram
a uma audiência de um processo no qual são acusados
de estelionato e lavagem de dinheiro. Fundada há vinte anos,
a Renascer se tornou a segunda maior igreja evangélica do
Brasil. Em 1986, Estevam e Sonia realizavam seus cultos na sobreloja
de uma pizzaria paulistana. A partir do início da década
de 90, o negócio cresceu exponencialmente, ao atrair fiéis
de classe média alta e cobrar deles doações
polpudas. Para se adequar a esse público, a Renascer passou
a recolher dízimos até por meio de cartões
de crédito e de débito. Hoje, tem mais de 1 500 templos
no Brasil e em outros seis países, uma torre de televisão,
a Rede Gospel de TV e a emissora de rádio Gospel FM. Também
criou um evento anual chamado Marcha para Jesus, que, em sua última
edição, reuniu 3 milhões de pessoas em São
Paulo. O jogador Kaká, da seleção brasileira,
é seu discípulo e garoto-propaganda.
A Renascer começou a ser
investigada pelo Ministério Público faz quatro anos.
Há quatro meses, os promotores fizeram a primeira denúncia
contra o casal Hernandes. Nela, acusam-nos de premeditar o calote
em todos os proprietários que alugaram os imóveis
onde a igreja instalou seus templos. Segundo os promotores, a prática
corriqueira e planejada desse tipo de cano configura crime de estelionato.
"Ao não pagar as dívidas de forma sistemática,
a Renascer pratica estelionato", afirma o promotor Marcelo Mendroni,
que moveu o processo. A dívida imobiliária da Renascer
soma 12 milhões de reais e a igreja responde a mais de 110
ações civis impetradas por suas vítimas. Para
o promotor, o crime é ainda mais grave porque a Renascer
recebeu dos fiéis dinheiro suficiente para pagar as dívidas
com os locadores, mas o casal Hernandes teria preferido embolsá-lo,
já que enriqueceu a olhos vistos desde que a igreja foi fundada.
O Ministério Público
fez um levantamento minucioso da movimentação financeira
dos Hernandes e dos bens que eles usufruem. Os promotores atribuem
aos Hernandes uma fazenda de 1,3 milhão de reais, quatro
apartamentos, que juntos valem mais de 6 milhões de reais,
e um haras de 3 milhões. Com a ajuda da Receita Federal,
eles descobriram que a editora Publicações Gamaliel,
que pertence ao grupo Renascer, movimentou 46 milhões de
reais em três anos e não declarou essa dinheirama ao
Fisco. Os promotores concluíram o óbvio: os líderes
da Renascer são muito mais ricos do que dizem ser. Para o
Ministério Público, a fortuna foi amealhada com os
dízimos dos fiéis, e os Hernandes praticaram crime
de lavagem ao se apropriar desse dinheiro. A Justiça não
só acatou a denúncia como também bloqueou os
bens dos líderes evangélicos, a fim de garantir o
pagamento dos aluguéis atrasados.
Carlos Renno/AE
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Valeria Gonçalvez/AE
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| Sonia, com seu marido, Estevam
(à esq.), e a Marcha para Jesus, na Avenida Paulista:
3 milhões de fiéis enganados |
As investigações
sobre os donos da Renascer não se restringem ao Brasil. Autoridades
dos Estados Unidos apuram o patrimônio não declarado
que a família Hernandes possui no seu país. À
Justiça brasileira, Estevam Hernandes afirmou ter apenas
uma casa em Miami, onde funciona o templo do instituto Reborn
"renascer" em inglês , e uma van alugada para transportar
fiéis. Mas, além dessa casa e da van, autoridades
americanas atribuem aos Hernandes mais quatro casas, empresas e
uma frota de catorze carros. Entre eles, um Cadillac preto, uma
Mercedes-Benz e um Land Rover. Paralelamente a essa investigação,
a promotoria de Miami instaurou um inquérito para apurar
a denúncia de que a Renascer vende facilidades para a obtenção
de vistos de permanência para pregadores religiosos. Esse
tipo de visto só é fornecido a quem tem uma declaração
de uma igreja instalada nos Estados Unidos de que será empregado
por ela. É justamente aí que entra a Renascer. Segundo
a promotoria de Miami, a igreja cobra 10.000 dólares para
emitir esse documento.
Rastrear as ações
e os bens da Renascer é uma tarefa complexa. A igreja esconde
seus bens, operações comerciais e financeiras sob
um emaranhado de empresas-fantasma. Um exemplo dessa tática
é a torre de transmissão da Rede Gospel. No papel,
a torre nada tem a ver com a Renascer. Tanto a estrutura quanto
o prédio que a abriga pertencem à FH Comunicação.
Só que, nesse caso, faltou sutileza: "FH" são as iniciais
de Felippe Hernandes, filho de Estevam e Sonia Hernandes, que constituiu
a empresa juntamente com sua irmã, Fernanda. Depois que a
FH Comunicação passou a acumular dívidas hoje
na casa dos 2,4 milhões de reais, a torre foi penhorada para
pagar os débitos e a empresa está sendo processada
por emitir 6 milhões de reais em notas fiscais frias e sonegar
pelo menos outros 6 milhões. Mas, como Deus é pai,
a FH mudou de donos subitamente. Agora, pertence a dois pastores
da igreja em Pernambuco.
No ano retrasado, os Hernandes
criaram outra igreja, a Renovação Evangélica.
Noutro exemplo de falta de sutileza, instalaram sua sede num dos
templos da Renascer. Para o Ministério Público paulista,
a Renovação Evangélica é apenas outra
fachada usada para encobrir o patrimônio do "apóstolo"
e sua família. Por causa desse artifício, o promotor
Mendroni apresentou em outubro uma nova denúncia contra a
família Hernandes. Desta vez os acusa de falsidade ideológica.
"A Renovação foi constituída apenas para esconder
o patrimônio dos denunciados", diz Mendroni.
Em depoimento à Justiça,
o "apóstolo" Estevam dá sua versão para o calote
nos locadores dos templos e para as operações pouco
cristãs de sua contabilidade. Segundo ele, a Renascer atravessa
um mau momento financeiro e só não paga o que deve
porque "a igreja está passando por dificuldades econômicas".
Entre os fiéis, a defesa dos Hernandes é mais contundente.
Foragido da polícia, Estevam se comunicou por rádio
com os fiéis durante os cultos realizados na última
quinta-feira. O "apóstolo" disse que a igreja e sua família
sofrem por causa de uma "artimanha do demônio". Em seu site,
incitou os fiéis a proclamar uma guerra contra as "mentiras
do Diabo". Mas não há exorcismo que cancele tantos
malfeitos.
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