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Entrevista:
Robert Kagan O país
da guerra O ensaísta americano
desconstrói o mito de que, em assuntos internacionais, os Estados
Unidos só atacam para se defender  Carlos
Graieb "Americanos são
de Marte e europeus são de Vênus." Com essa frase, o cientista político
Robert Kagan deu início ao livro Do Paraíso e do Poder (Rocco),
que causou polêmica em 2003. Ele explorava as razões e as conseqüências
de duas maneiras de fazer política externa. Segundo Kagan, a apologia européia
dos organismos internacionais tem muito de hipocrisia e autocomplacência:
resulta da perda de poderio militar e floresce num mundo policiado pelos americanos
que não têm medo de exercitar seus músculos. Kagan
acaba de lançar mais um livro. Seu propósito é combater a
idéia de que, ao usarem a força na arena internacional, os Estados
Unidos estão fugindo às suas tradições políticas.
O livro se chama Dangerous Nation (Nação Perigosa) e analisa
as crenças e os valores que deram forma à política externa
americana desde os primórdios do país até o fim do século
XIX. Um segundo volume a ser lançado no futuro deverá retomar o
assunto do século XX em diante. Kagan, de 48 anos, foi assessor político
do governo Reagan. Falou a VEJA por telefone de Bruxelas, onde sua mulher, a diplomata
Victoria Nuland, é representante americana na Otan.
Veja O senhor afirma que os americanos se
iludem a respeito de si próprios no campo da política internacional.
No que consiste essa ilusão? Kagan A despeito de
alguns séculos de história nos quais promovemos guerras para a aquisição
de territórios, intervenções em outros países e ocupações
prolongadas, muitos americanos acalentam a idéia de que os Estados Unidos
tendem ao isolamento e à neutralidade e só agem na arena externa
quando sofrem ataques. Esses americanos se surpreendem diante das ações
belicosas de seus governantes. Eles se surpreendem ao descobrir que outros povos
nos temem e nos odeiam e pensam que, se nos vemos nessa situação,
é porque traímos nossa identidade. Esses americanos acreditam em
um mito. Desde que os primeiros peregrinos fincaram pé na América,
fomos um poder expansionista. Esse é o impulso que está inscrito
em nosso DNA, não a neutralidade ou o isolacionismo. Tirei o título
de meu livro de uma observação feita por John Quincy Adams quando
ele comandava a embaixada americana em Londres. Segundo Adams, corria na Europa
o sentimento universal de que éramos um "membro perigoso da sociedade das
nações". Essa observação foi feita em 1817. Ganharíamos
muito ao deixar de lado as idealizações sobre nossa tradição
política. Veja
O senhor descreve a filosofia americana no campo das relações
internacionais como sendo liberal e diz que esse liberalismo resulta em contradições.
Em que sentido? Kagan Nosso ideário liberal está
inscrito na Declaração de Independência e na Constituição.
Ele remonta ao filósofo inglês John Locke, e seu núcleo é
a salvaguarda dos direitos do indivíduo. Todos têm direito à
vida, à liberdade, à busca da felicidade inclusive no sentido
material. O papel dos governantes é proteger e fomentar esses direitos.
Aqueles que não o fizerem serão ilegítimos. As implicações
disso no trato com o "mundo externo" são extensas. Cito apenas um exemplo:
em nome da liberdade de iniciativa de seus cidadãos, administrações
americanas dos séculos XVIII e XIX sentiram-se compelidas a dar apoio aos
colonos que avançavam sobre território indígena, mesmo quando
esse avanço criava tensões inoportunas e contrariava acordos legais.
Ora, não é difícil perceber o curto-circuito que se forma
cada vez que o liberalismo aplicado aos americanos cerceia a liberdade alheia.
Ao mesmo tempo em que serve como mecanismo de expansão territorial, política
e comercial, a filosofia embutida em nossos documentos fundadores às vezes
torna difícil justificar nossos atos de poder e ambição.
Veja A idéia
de que o modo de vida americano está sob constante ameaça
e de que o país só ataca para defender-se é muito
forte nos Estados Unidos. Qual a origem desse sentimento? Kagan
É a convicção profunda de que, com nossa forma de governo
democrática, atingimos um pináculo na história da civilização.
Talvez só Roma, na Antiguidade, cultivasse uma concepção
semelhante de seu papel civilizador. O resultado dessa crença é
o nosso impulso para transformar os países que não se alinham conosco.
Aqueles que nos ameaçam o fazem porque não são democráticos.
A cura está na mudança de suas formas de governo. O Japão
e a Alemanha não eram perigosos na II Guerra porque buscavam o poder, mas
pela natureza do império e do nazismo. Depois da guerra, tornou-se uma
prioridade supervisionar a transformação de regime político
nesses países. De maneira semelhante, depois do 11 de Setembro tornou-se
comum a idéia de que a resposta às ameaças que emanam do
Oriente Médio está na democratização daquela região.
Sabemos perfeitamente bem que os Estados Unidos não atacaram todas as ditaduras
existentes. Pelo contrário, apoiaram muitas delas. Mas todas as vezes que
nos lançamos à ação recorremos à mesma lógica.
O mundo precisa ser transformado para se tornar seguro: essa tradição
de pensamento é muito forte entre nós. Veja
De maneira curiosa, uma guerra interna a Guerra Civil que
devastou o país na década de 1860 parece ter tido um papel
central na definição da maneira como os Estados Unidos lidam com
as questões externas. Como isso aconteceu? Kagan
A Guerra Civil foi travada em torno da escravidão e do problema ético
que ela representava. A vitória do Norte liberal sobre o Sul escravista
consagrou no país a idéia das guerras justas de que há
combates feitos em nome de princípios morais. Quando a I Guerra Mundial
se aproximava, Theodore Roosevelt não hesitou em compará-la à
Guerra Civil, dando assim à participação americana o caráter
de uma cruzada moral. A II Guerra foi vista do mesmo modo. Nossas guerras são
cruzadas morais: essa é a memória que o país cultiva. Mesmo
hoje, a crença na guerra justa prevalece nos Estados Unidos de uma maneira
que não se vê em outras partes do mundo e certamente não na
Europa. Uma pesquisa patrocinada por entidades alemãs procura medir as
diferenças de pensamento nos dois lados do Atlântico há vários
anos. Uma das perguntas que são sempre feitas é: "A guerra pode
ser necessária para obter justiça?". Mais de 80% dos americanos
respondem sim a essa pergunta. Na Europa continental, apenas 30% concordam.
Veja Seu livro anterior,
Do Paraíso e do Poder, é justamente sobre as diferenças
entre americanos e europeus. Algo mudou desde que o escreveu? Kagan
O argumento continua válido. Os europeus continuam hesitando
em ter uma postura ativa nos conflitos internacionais. Eles se envolveram no Afeganistão
e falam em aumentar seus esforços, mas os recuos são freqüentes.
Veja bem, eu acho que os europeus têm razão ao reclamar da maneira
como a guerra no Iraque foi conduzida. Aqueles que se opunham à invasão
avisaram que ela poderia ser desastrosa e neste momento estamos nos aproximando
do desastre. Para países com grande população islâmica,
como são os países europeus atualmente, não há dúvida
de que os últimos anos acirraram ânimos e o sentimento de insegurança.
Mas eu ainda acredito que o domínio americano sobre o sistema internacional
de segurança beneficia os europeus de uma forma que eles não reconhecem.
Sem as garantias americanas, o poder crescente dos alemães não deixaria
de causar desconforto na Europa, por exemplo. Mas a tendência é baratear
essa questão. Alguns líderes que viveram a Guerra Fria, como Joschka
Fischer, reconhecem o papel dos Estados Unidos em tornar viável a União
Européia. Mas eles são hoje uma minoria.
Veja Ser um país poderoso não
é o mesmo que ser um império. Este último conceito se aplica
aos Estados Unidos? Kagan Os Estados Unidos tiveram momentos
imperiais. Quando marchou pela América do Norte absorvendo territórios,
ou quando invadiu as Filipinas, no fim do século XIX, o país agiu
como um império, sem dúvida nenhuma. O curioso sobre os americanos
é que eles nunca demonstraram ter o desejo de exercer um governo direto
sobre outros povos ao contrário do que aconteceu com os britânicos,
por exemplo. O dever, até mesmo a obrigação, de governar
povos menos desenvolvidos fazia parte da auto-imagem inglesa. Os americanos, por
outro lado, sempre sentiram que deveriam mudar os outros. Para países que
experimentaram todo o peso do poder americano como a Nicarágua,
por exemplo , essa distinção talvez soe bizantina. Mas a meu
ver ela significa que os Estados Unidos não são, nem nunca foram,
um império no sentido clássico. Veja
O historiador britânico Niall Ferguson descreve os Estados
Unidos como "um império em estado de negação". O que o senhor
acha dessa idéia? Kagan A diferença entre
mim e Ferguson é que ele acredita que o simples poder dos Estados Unidos
basta para qualificar o país como um império, enquanto eu penso
que as intenções são essenciais. Os ingleses tomaram o poder
na Índia e planejaram ficar lá para sempre. Os Estados Unidos entraram
no Afeganistão cinco anos atrás e desejam sair o mais rápido
possível. Só o medo do que poderia acontecer com a saída
os detém. Não consigo me lembrar de um único país
ocupado pelos Estados Unidos onde tenhamos desejado permanecer para sempre. Essa
é uma distinção importante. Mas concordo com Niall Ferguson
quando ele diz que os Estados Unidos não compreendem as conseqüências
e as responsabilidades decorrentes do exercício de seu grande poder. Se
você entra num lugar para transformá-lo, tem de mostrar o empenho
necessário e levar a tarefa a cabo. Caso contrário, é melhor
nem começar. Veja
Suponho que o senhor discorde da idéia de que os Estados
Unidos devem sair quanto antes do Iraque. Kagan Sem dúvida
nenhuma. A única coisa sensata a fazer neste momento é enviar mais
tropas ao Iraque, e não planejar a saída. Nenhuma solução
política será viável em meio a uma escalada de violência
como a que observamos. Essa escalada só será interrompida com a
presença de mais forças. E não devemos nos iludir: o desastre
de hoje será brincadeira de criança comparado à carnificina
de uma guerra civil a pleno vapor. O motivo pelo qual atacamos o Iraque foi a
crença de que Saddam Hussein era perigoso. Uma vez lá dentro, dissemos,
de maneira típica, que o modo de curar o país era torná-lo
democrático. Mas nunca mobilizamos os recursos militares e econômicos
necessários a esse projeto. Perdemos tempo precioso argumentando que éramos
"libertadores", que não estávamos comandando uma ocupação,
e enquanto isso fugíamos da obrigação de manter a segurança
no país e impedir que ele implodisse. Novamente, esse é um padrão
antigo na política americana. Nós o observamos no interior do nosso
país, depois da Guerra Civil. O Norte venceu a guerra imbuído de
altos princípios, mas não tratou com a mesma seriedade do imperativo
de reconstruir os estados do Sul. Veja
O presidente Bush fez bem em demitir o secretário de Defesa
Donald Rumsfeld? Kagan Rumsfeld deveria ter sido demitido
três anos atrás. É difícil entender por que o maior
responsável por uma estratégia militar desastrosa foi preservado
por tanto tempo. O pior de tudo é que a demissão, no momento em
que aconteceu, nem sequer trouxe benefícios eleitorais a Bush. A votação
já havia passado, com a vitória democrata. Os republicanos estão
furiosos com o presidente por causa disso. Veja
Os democratas venceram as eleições com uma plataforma
de oposição à guerra. Em termos históricos, existem
muitas diferenças entre democratas e republicanos no campo da política
externa? Kagan Na verdade, não muitas. A tradição
neste país é que o partido que não está no poder se
oponha aos projetos centrais da administração. Não governar
é, por definição, se opor. Mas a longo prazo as divergências
se apagam. Nos anos 90, o grande partido intervencionista, o partido que enviou
tropas ao Haiti, à Bósnia e a Kosovo, foi o Democrata. Enquanto
isso, os republicanos se referiam a essa linha de atuação como sendo
excessivamente agressiva e arrogante. São exatamente os mesmos termos usados
atualmente, mas na direção contrária. O partido que controla
a Casa Branca sempre defende um papel mais atuante para os Estados Unidos nas
questões mundiais. A exceção talvez tenha sido o período
da Guerra Fria, quando os republicanos mantiveram uma política consistente
de reclamar por mais ação. Na história recente, eu diria
que a diferença entre Bill Clinton e George W. Bush não é
nem de longe tão grande quanto as pessoas imaginam. Bush nunca disse nada
sobre o Iraque que Clinton não houvesse dito antes. E Clinton demonstrou
o propósito de invadir o país de Saddam em 1998 mesmo sem contar
com o apoio das Nações Unidas. Suponha que Hillary Clinton se torne
a próxima presidente americana. Ela tem se esforçado bastante para
mostrar que não é complacente em questões externas, mesmo
ao custo de desagradar à esquerda, e não tenho dúvida de
que se mostraria bastante linha-dura nos primeiros momentos de sua administração.
Na política externa, o histórico dos partidos tem sido muito mais
de convergência que de divergência.
Veja E no campo da economia? Acredita-se
no Brasil que a maioria democrata tenda a dificultar o acesso brasileiro ao mercado
americano. Kagan Isso pode ser verdade. Os democratas pregam
a defesa do trabalhador americano contra a competição estrangeira.
Mas esse discurso às vezes bem enganador, na minha opinião
não chega a incluir uma condenação do livre-comércio.
Ao longo da história, e em termos comparativos, a devoção
americana ao livre-comércio é muito ampla. E incontestável. |