![]()
|
|
|
![]() |
|
|||||||||||||
Contudo, os testes de português e matemática mostram uma tendência geral para a queda. Não é dramática, mas preocupa. Foram tentadas muitas explicações. As perícias nos testes ainda não são definitivas (teria ficado mais difícil?). Outro suspeito seria o rápido processo de municipalização, decorrente do Fundef (o fundo que redistribui verbas da educação segundo o número de alunos matriculados numa cidade). Alvíssaras, o desempenho das escolas municipais não piorou em relação ao das estaduais. A esfinge do Saeb ainda não foi decifrada (se há nisso algum consolo, a maior pesquisa americana sobre rendimento de alunos, o Coleman Report, passou dez anos gerando controvérsias em sua interpretação). Mas, espremendo os dados, alguns fragmentos de explicação começam a emergir. Verificou-se que há quedas tanto para os alunos mais pobres quanto para os ricos e, para confundir ainda mais, caíram as particulares também (que pouco têm a ver com a ação do Estado). Há mais tendência de queda nos Estados onde a matrícula cresceu mais e aumentou a distorção idade-série, como no Nordeste. Como esses alunos adicionais (incorporados ou retornados) são mais fracos ou mais pobres, ao tê-los em maior número, cai a média. Contudo, há Estados crescendo sem queda de rendimento e há quedas dentre os filhos dos mais educados. Deve haver outras causas. Vivíamos sob a "cultura da repetência", na qual a marca do ensino sério era reprovar muitos alunos. Nos últimos anos estamos reconhecendo o equívoco de tal prática e também criando ciclos de dois ou três anos, dentro dos quais não há reprovação. Note-se, nos países avançados cuja educação é escandalosamente melhor que a nossa não há alunos reprovados e repetindo o ano. Repetência é relíquia arqueológica de país atrasado. Já medimos: quanto mais repetência, mais baixo o rendimento. Frustra, derrota o aluno, mas não aumenta seu rendimento, mesmo comparado com o aluno que foi aprovado sem saber muito. Ou seja, mesmo o aluno que aprendeu pouco lucrará mais se for adiante, junto com seus colegas. Mas, ao abandonar a cultura da repetência, há que aprender a viver sem ela. Para a classe média, operava um mecanismo altamente eficiente: "a cultura do medo da repetência", pois é esse medo que faz o aluno estudar. O filho de família educada estuda e passa, com medo da "bomba" e dos castigos. Na prática, quem repete é o filho de famílias pouco educadas, para quem a ameaça da repetência não é um incentivo eficaz. Ao eliminar a reprovação, a escola tem de substituí-la por outros mecanismos de prêmios e punições, pois o gosto pelos estudos é munição insuficiente para trocar a televisão pelos livros. Ainda engatinhamos nesse aprendizado. Sem a reprovação, cai a pressão para estudar, até que apareçam outros mecanismos adequados para substituí-la. Caímos em uma entressafra de prêmios e puxões de orelha. Essa poderia ser uma das causas da queda no rendimento e das reclamações dos professores que perderam suas armas para fazer o aluno estudar. É verdade. Contudo, eram péssimas armas, que estimulavam as famílias educadas, mas puniam as pobres e mais numerosas. São Paulo já definiu alternativas razoáveis (recuperação, aulas de reforço), porém aprender a usá-las parece levar algum tempo. Como um drogado que sofre inicialmente ao ter cortado seu vício, eliminar a reprovação traz problemas de transição. E, obviamente, eliminar reprovação não se confunde com eliminar a avaliação. Pelo contrário, esta tem de ser melhor, mais freqüente e acoplada a outros prêmios e punições. Mas estamos no campo das especulações. A avaliação da educação básica de 1999 permanece uma esfinge, desafiando nossa capacidade de decifrá-la. Porém o assunto é demasiado importante para permitir desânimo. Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
|
||||||
| Copyright
2000 Editora Abril S.A. |
VEJA
on-line | Veja
São Paulo | Veja
Rio | Veja
Recife | Guias
Regionais Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco |