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Roberto
Pompeu de Toledo
Da América
deles
para a
Nuestra
A
secretária de
Estado da
Flórida faz
os Estados
Unidos
se deslocarem
para
mais perto
de nós
Os
americanos mantêm um resistente caso de amor com suas instituições.
A Constituição, louvada como texto religioso, admirada
como obra de arte, provoca pensamentos enternecidos em direção
aos senhores que a conceberam, 200 anos atrás. Como foram
sábios, os pais da pátria! Sempre que ocorre uma turbulência
o assassinato de um presidente (John Kennedy, 1963), a má
conduta de outro (Richard Nixon, 1974) , o fato de conseguir
contornar o embaraço sem os traumas tão freqüentes
em outros países costuma motivar redobradas comemorações.
As instituições, costuma-se dizer, venceram mais uma
prova. O sistema funcionou! O pior, para quem tem raiva dos americanos,
é que eles têm razão. Os Estados Unidos jamais
conheceram golpe de Estado. Não sabem o que é ruptura
institucional. Em regra, o sistema funciona mesmo. Só que,
desta vez...
Desta
vez as disputas em torno da apuração da eleição
deixam dúvidas no ar. Será que o coro de loas tem
o mesmo cabimento? A resposta que se vai esboçar aqui é
que o sistema funcionou numa parte, noutra não. Numa parte,
confirmou a capacidade de os EUA conviverem com situações
de incerteza política. Noutra, pôs a nu distorções
que fariam corar os cidadãos de países bem menos reputados,
em matéria de democracia. A parte boa pode ser simbolizada
pela gargalhada do presidente Clinton perante uma platéia
em Cingapura, ao observar que mesmo depois das eleições
não tinha idéia de quem lhe ocupará o lugar.
Presidente de que outra nação se permitiria rir de
tal fato? Dificilmente outro país, e aí se incluem
não apenas os habituais pangarés, como os de nossa
pobre América Latina, mas mesmo os puros-sangues da Europa
Ocidental, atravessaria tão prolongado suspense sucessório
com a convicção de que, desse no que desse, os prejuízos
nunca poderiam ser de molde a fazer soçobrar o barco.
Decorre
daí que os EUA contam com uma porta corta-incêndios,
a isolar os conflitos da política do mundo real. Em outras
partes, episódios desse tipo costumam contaminar o país
inteiro. Sabe-se com que freqüência, e com que artificialismo,
dá-se a meras querelas o nome de "crise". Nos EUA, desta
vez como em outras, se a bolsa caiu, se algum projeto de vida foi
suspenso, se alguém foi preso, fugiu ou ficou ferido, não
foi por causa do problema eleitoral. O país real e as trapalhadas
políticas são duas categorias saudavelmente estanques.
A
parte ruim diz respeito ao processo eleitoral. O processo eleitoral
(diria o Conselheiro Acácio) é tão mais aperfeiçoado
numa democracia quanto mais precisos e confiáveis são
os mecanismos de aferição da vontade popular. Pois
os EUA, quem diria, saem desta eleição devedores nesse
item. As dúvidas vão desde as cédulas mal desenhadas
até o modo de escolha segundo o qual quem ganha no voto popular
perde a eleição, e vice-versa. Mas não é
nesses pontos que se quer insistir, e sim em outro: a bizarra instituição
que é a figura de secretário de Estado do governo
da Flórida. Assim como a gargalhada de Clinton simboliza
a parte saudável do presente episódio, tal figura
merece simbolizar-lhe a face burlesca.
Ao
secretário de Estado da Flórida (nada a ver com o
secretário de Estado do plano federal) cabe, entre outras
atribuições, "certificar" o resultado da eleição,
quer dizer, reconhecê-lo e dar-lhe a chancela oficial. No
caso, o secretário é uma secretária, pois o
cargo é ocupado por uma mulher, Katherine Harris. Trata-se
de senhora famosa pelas roupas e as jóias, rica herdeira
de família produtora de cítricos dessas que
tanto estorvam a vida dos exportadores brasileiros de laranja ,
e que até outro dia mais se distinguia como locomotiva social.
Mal comparando (ou talvez bem), e com o devido respeito a uma e
outra, seria como se Vera Loyola, a emergente da Barra da Tijuca,
fosse a encarregada de chancelar as eleições no Rio
de Janeiro. Mas isso vai mencionado só de passagem. Importa
é sublinhar a esquisitice do cargo, não do ocupante.
O secretário (ou secretária) de Estado é, ao
contrário do presidente do país, eleito pelo voto
popular. Apesar disso, subordina-se administrativamente ao governador.
Tem mais: apesar da incumbência de chancelar a eleição,
o (a) secretário (a) pode se vincular a partido. E tem mais
ainda: no caso da senhora Harris, não só ela é
do Partido Republicano, como foi co-presidente, na Flórida,
do comitê eleitoral do candidato George W. Bush.
Imagine-se
o que diria o ex-presidente Jimmy Carter, que costuma chefiar missões
de observação eleitoral mundo afora, se deparasse
com um caso desses em El Salvador. Se alguém quiser acrescentar
ao conjunto um traço mais personalizado de malícia,
lembre-se de que a senhora Harris se vincula ao governo chefiado
por um tal Jeb Bush, irmão do candidato George W. Na presente
eleição, ao decantado vigor das instituições
americanas, sobrepõem-se traços que puxam os EUA para
mais perto de nós. Eles ficam um pouco mais parecidos com
os latino-americanos. Bem-vindos à Nuestra América,
irmãos do Norte.
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