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Bicho engraçado

Jim Carrey encarna o Grinch, uma criatura
famosa da literatura infantil americana

Marcelo Marthe

 
Ron Batzdorff/ 2000 Universal Studios
Carrey, sob a fantasia do Grinch: ele nasceu para interpretar o monstrengo

Theodor Seuss Geisel – ou melhor, Dr. Seuss – é um nome que soa tão familiar nos Estados Unidos quanto Monteiro Lobato no Brasil. Ninguém vendeu tantos livros infantis em língua inglesa como ele: nada menos do que 400 milhões de exemplares. Romântico, sempre procurou manter suas histórias longe da "contaminação" excessiva da mídia. Depois de sua morte, em 1991, iniciou-se uma verdadeira corrida entre os estúdios de Hollywood pelos direitos de filmagem de suas obras. A grande oportunidade veio há dois anos, quando a viúva e única herdeira de Seuss colocou à venda, por 5 milhões de dólares, os direitos do clássico Como o Grinch Roubou o Natal – fábula sobre uma criatura feiosa e desumana que resolve estragar os festejos natalinos numa terra fantástica, a Quem-Lândia. A disputa foi vencida pela Universal, num projeto encabeçado por Jim Carrey. O astro careteiro, que competia com outros atores, entre eles Jack Nicholson, fez de tudo para conseguir o papel-título de O Grinch (Dr. Seuss's How the Grinch Stole Christmas, Estados Unidos, 2000). Ao conhecer pessoalmente a viúva, Audrey Geisel, ele se pôs a saltitar e fazer trejeitos iguais aos do personagem, antes mesmo de cumprimentá-la. O gracejo deu resultado – e como. Audrey simplesmente adorou Carrey. Mas não deixou que a boa impressão pudesse ser entendida como carta branca. Ela controlou com mão de ferro o roteiro do filme. Foram necessários oito esboços até que se convencesse de que não havia a mínima conotação libidinosa nas piadas. Em relação a Dr. Seuss, nada escapa aos olhos de Audrey.

Nos Estados Unidos, o filme cravou a quinta maior bilheteria da história para um fim de semana de estréia: 55 milhões de dólares. Lançado há apenas quinze dias, já faturou mais que o dobro desse valor. A superprodução, que estréia no país nesta sexta-feira, engrossa uma certa onda revivalista em torno de Dr. Seuss, que, além dos livros, produziu desenhos animados premiados a partir dos anos 30. No ano passado, a mesma Universal inaugurou um parque temático em Orlando, na Flórida, onde a atração são personagens como o Grinch e o não menos célebre Gatola da Cartola. Na semana passada, estreou na Broadway um musical chamado Seussical, produção de 10 milhões de dólares cujo conteúdo é um pot-pourri de sua obra. Aproveitando o embalo da fita pré-natalina, dois livros do autor estão saindo no Brasil (veja abaixo). Tudo isso resulta da imensa disposição da viúva em divulgar a obra do marido. Os lucros da grife Dr. Seuss serão destinados em boa parte a entidades filantrópicas.

O livro e sua versão cinematográfica são bem diferentes. Originalmente ilustrada com traços austeros e narrada em versos, a fábula é curta e despojadíssima. O filme, que teve o vitaminado orçamento de 120 milhões de dólares, vai na direção contrária: é carregado de cenários e figurinos luxuosos, além de uma superdose de efeitos especiais. Invejoso, mal-intencionado, vingativo, fedorento e verde como o Louro José, o Grinch vive isolado numa caverna que é um lixo só – habitada também por Max, um cãozinho submetido a maus-tratos e trabalhos forçados, como puxar um enorme trenó. Para encarnar a criatura – que parece ser um duende, mas nem o livro explica sua origem –, Carrey vestiu uma roupa de látex e usou lentes de contato amarelas que lhe provocaram dores e chiliques constantes no set. Construída basicamente em isopor, a Quem-Lândia é uma cidade sem linhas retas, onde moram seres que não são exatamente humanos, com narizes afilados e feições meio felinas. Na véspera do Natal, o Grinch decide aplicar uma peça nos moradores do vilarejo. A compaixão de uma garotinha, porém, pode mudar o rumo das coisas. Por causa da necessidade de sustentar um longa-metragem, essa trama simples foi esticada. Como em qualquer adaptação, há diálogos e situações que não se encontram no livro. Explica-se, por exemplo, que a odiosa aversão que o Grinch sente pelo Natal seria fruto de uma frustração amorosa vivida na infância. Algo como dizer que a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo se tornou má porque levou um fora do Visconde de Sabugosa.

O resultado, apesar dessas liberdades, é divertido. Especialmente porque Carrey parece ter nascido para encarnar um personagem como o Grinch. É incrível que ele consiga ser expressivo debaixo de uma máscara com pêlos verdes. Poeta afiado, Dr. Seuss, sob suas histórias deliciosamente anárquicas, iniciava as crianças em valores morais e noções de autocontrole. Tudo isso, veja bem, sem nunca soar moralista. Na fábula do Grinch, ele mostra como o Natal é uma data cujo significado vai muito além do apelo materialista dos presentes e ceias fartas. Sugere também que, às vezes, basta um gesto para dissipar a maldade. O filme esforça-se para manter as boas intenções do autor – lança mão, inclusive, de um narrador respeitável: Anthony Hopkins. Mas não tem a sutileza dos livros de Dr. Seuss.

 

"Diversão bem divertida"

Dois livros do genial Dr. Seuss estão sendo
lançados no Brasil

Ilustração Dr. Seuss


Da mesma forma que o filme estrelado por Jim Carrey, a edição brasileira dos livros Como o Grinch Roubou o Natal (tradução de Mônica Rodrigues da Costa, Lavínia Fávero e Gisela Moreau; 63 páginas; 19,50 reais) e O Gatola da Cartola (idem; 71 páginas; 19 reais) foi acompanhada atentamente pela viúva de Dr. Seuss. Num procedimento raro em se tratando de obras infantis, os agentes de Audrey Geisel contrataram um especialista em português para analisar a tradução dos versos. O cuidado se justifica. Simples na aparência, a poesia de Seuss tem armadilhas. Ele adora, por exemplo, fazer trocadilhos com palavras que têm sonoridade semelhante, mas significado distinto. Também é mestre em acelerar ou diminuir o ritmo conforme a trama vai ganhando ação. Ilustrações espirituosas, do próprio autor, dão vida a suas fantasias.

Dr. Seuss: poesia de primeira, traduzida e no original

Vertidos para o português, os livros perderam um tanto da musicalidade. Isso ocorre sobretudo com a história do Grinch, cujo ritmo se baseia na repetição da palavra "quem" – aplicada a tudo que se refere à fantástica Quem-Lândia. Em inglês fica mais engraçado, como poderão conferir os pais e as crianças que dominam a língua, já que o texto original é reproduzido no livro. Mas Dr. Seuss conserva seu charme em qualquer idioma. Tome-se a história de O Gatola da Cartola. Duas crianças estão em casa, sozinhas, olhando pela janela a chuva que cai. De repente, surge o Gatola, conclamando à bagunça: Sei que está molhado/ O Sol não está ensolarado/ Mas existe uma saída/ Diversão bem divertida!. Um peixinho de aquário adverte que a agitação vai acabar em encrenca. A fábula é um achado da pedagogia. Ensina às crianças como decidir o que é certo e errado, e a avaliar riscos. O animal doidão simboliza a liberdade, enquanto o peixe é o autocontrole. Ao final, atinge-se o equilíbrio. Mais de quarenta anos depois de criado, O Gatola ainda é o máximo.

Marcelo Marthe

 

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