Estante nobre
Clássicos
da ficção, muitos inéditos
em
português, ganham belas edições
Flávio
Moura
Antonio Milena
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| Titan
Jr. e Massi: "Painel da ficção ocidental" |
Quatro anos atrás, ao ser aberta, a editora Cosac & Naify
tinha um objetivo claro: fazer os melhores livros de arte do mercado
e vendê-los a preços competitivos. As concorrentes
torceram o nariz, certas de que o fenômeno era passageiro.
Não foi. Depois de se consolidar no ramo das artes plásticas,
a editora passa agora a atuar em outros segmentos. A partir desta
semana, põe nas livrarias os dois primeiros volumes da coleção
Prosa do Mundo, uma série de textos de autores clássicos.
No início do ano que vem, lança uma coleção
de livros sobre cinema e começa a publicar títulos
de poesia, de literatura contemporânea e obras para o público
infantil. Editora pequena, sediada num bairro elegante de São
Paulo, a Cosac & Naify é capitaneada pelo excêntrico
Charles Cosac, um descendente de imigrantes sírios que investiu
nos livros parte da fortuna de família. Sua editora desempenha
um papel raro no cenário cultural brasileiro: prefere operar
anos no vermelho a ter de fazer concessões quanto à
qualidade do material que publica.
Niels
Lyhne (tradução de Pedro Octávio Carneiro
da Cunha; 290 páginas; 35 reais), do dinamarquês Jens
Peter Jacobsen, e O Diabo e Outras Histórias (tradução
de Paulo Bezerra; 283 páginas; 35 reais), do russo Liev Tolstói
(Liev, e não Leon, obedecendo à pronúncia original),
são os livros que abrem a série de clássicos.
O primeiro, inédito no Brasil, é a obra central de
Jacobsen, autor do século XIX que deixou marcas na obra de
grandes modernistas, como o poeta austríaco Rainer Maria
Rilke e o romancista alemão Thomas Mann. Solar como a atmosfera
de um inverno escandinavo, o livro é protagonizado por Lyhne,
um jovem que testemunha a falência de valores tradicionais
que a incipiente modernidade de sua época parecia incapaz
de substituir. Os cinco contos de Tolstói, por sua vez, atestam
mais uma vez a habilidade do romancista russo, célebre pelos
catataus Guerra e Paz e Anna Karenina, no manejo da
forma curta. Embora já tivessem sido vertidos para o português,
os contos foram retraduzidos do original russo. A diferença
em relação às edições que existiam
no mercado brasileiro, feitas a partir do inglês e do francês,
salta à vista. Trechos em tom coloquial mostram a preocupação
do autor em se aproximar da fala da gente comum. Na tradução
anterior, os camponeses se expressavam com um rebuscamento de fazer
inveja a Rui Barbosa.
A
coordenação da coleção está a
cargo de Samuel Titan Jr., doutorando em literatura francesa pela
Universidade de São Paulo, e de um conselho editorial formado
por Augusto Massi e Davi Arrigucci Jr., professores de literatura
da mesma instituição. Massi foi o criador da festejada
coleção de poesia Claro Enigma e, mais recentemente,
coordenou a coleção Espírito Crítico
para a editora 34. Até agora, já estão definidos
mais de vinte títulos para a série Prosa do Mundo.
A intenção dos organizadores é montar um "painel
dos grandes gêneros da ficção ocidental". O
foco são autores inéditos em português, obras
menos conhecidas de grandes autores e a retradução
de textos cuja versão para o português era insatisfatória.
A
tarefa é árdua, mas por ora tudo parece no bom caminho.
Cada título traz ao final uma lista de referências
bibliográficas e é introduzido por um ensaio que contextualiza
a criação e a recepção da obra. Sempre
que possível, haverá apêndices com informações
adicionais. A nova tradução de O Vermelho e o Negro,
de Stendhal, por exemplo, trará recortes de jornal que motivaram
o autor a conceber o romance e um ensaio, inédito em português,
do escritor alemão Heinrich Mann. O mesmo se dá no
caso de Diálogos com Leucò, texto do italiano
Cesare Pavese que trará uma conferência de Italo Calvino,
jamais publicada em português. "Clássico é um
livro que nunca termina de dizer o que deve ser dito", escreveu
o mesmo Calvino certa vez. Agora só é preciso que
haja leitores brasileiros dispostos a escutar.
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