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A comédia da
vida corporativa

O lado caricato nas grandes empresas do país,
com personagens (quase) de carne e osso

Carlos Prieto

Antonio Milena

Steinberg: personagens caricatos inspirados na vida real das empresas


O charme real e virtual que cerca a vida dos altos executivos enche os olhos de quem está de fora do seleto grupo de homens e mulheres que comandam grandes corporações. Viagens internacionais, carros importados, cartões de crédito sem limite e hospedagens em hotéis cinco-estrelas são fascínios que alimentam as máquinas corporativas e motivam o trabalho desde o mais tenro estagiário ao gerente de carreira mais sólida. Todos querem atingir o topo da pirâmide social das empresas e manter-se nele. Foi escrita uma infinidade de obras pretensamente capazes de ensinar como chegar lá. Elas se revezam nas primeiras posições da lista de livros mais vendidos. Muitas se tornaram clássicos. Coube ao consultor Fábio Steinberg, carioca de 50 anos, mais de trinta deles trabalhando em algumas das maiores empresas nacionais e multinacionais instaladas no Brasil, pintar o outro lado da aventura. Ele deixa as repisadas glórias da rotina empresarial para os outros e concentra-se nas baixezas.

Steinberg reuniu em livro meia centena de ensaios escritos sobre o lado caricato da vida corporativa, alguns já publicados pela revista Exame, do Grupo Abril, que edita VEJA. Deu ao livro o nome de Ficções Reais (Editora Campus; 221 páginas; 25 reais). "É um mito imaginar que se chega ao paraíso depois de ultrapassar determinado ponto da carreira. Também é irreal a concepção de que a escalada é sempre segura para quem tem talento, é esforçado e honesto", diz Steinberg. "Na verdade, sobem mais rápido os burocratas espertos, que decifram os códigos da empresa, e não os funcionários mais produtivos." Steinberg demonstra especial interesse num certo tipo que ele define como "pavão corporativo". É o sujeito seguro, cheio de planos, sempre ocupando um cargo de conselheiro, o que o livra das responsabilidades às vezes demolidoras de tomar decisões erradas. "Não importa a moda administrativa, eles sempre escapam da degola e seguem sua vitoriosa carreira de inutilidade", explica o autor. Suas crônicas falam também da amargura e das apostas ousadas que os executivos ambiciosos fazem para subir a qualquer preço. Vale tudo para chegar ao topo da empresa e garantir poder e prestígio: casar com a filha feia do patrão, valer-se de informação privilegiada para chantagear colegas e superiores, apresentar projetos mirabolantes que não levam a nada e montar uma boa e bem arquitetada rede de relacionamentos construída somente para facilitar a escalada até o topo. "Não são pessoas sem caráter. Apenas são forçadas pelas circunstâncias a atropelar sua ética pessoal em busca do sucesso", diz Fábio Steinberg.

Quem já pendurou no peito o crachá de uma empresa, com foto e número de identificação, sabe que a vida corporativa tem seu lado teatral – como toda e qualquer atividade humana organizada coletivamente, seja na escola ou na família. Mas, vistos em grupo sob a ótica crítica de Steinberg, os "seres corporativos" parecem mais pérfidos que as demais pessoas. E nesse aspecto está o lado caricato e engraçado do livro. Entre seus personagens estão secretárias que vivem num mundo de faz-de-conta, executivos com cultura de almanaque, carreiristas com respostas na ponta da língua e burocratas cuja única preocupação na carreira é criar situações que tornem sua função imprescindível. Seus personagens são tirados de exemplos reais de carne e osso? "Eles são frankensteins feitos de retalhos de pessoas reais e outras nem tanto", explica o autor. Na semana passada, quando o livro começou a circular ainda de forma restrita (ele chega às livrarias nesta semana), havia apostas sobre quem seria quem entre alguns dos personagens de Fábio Steinberg. Chamou a atenção o último dos ensaios, intitulado Eunice sem Sobrenome, que conta a história de uma mulher executiva sem um sobrenome famoso que vence no mundo corporativo sempre como a Eunice da IBM, ou do Pão de Açúcar, ou da Microsoft. Pelas similaridades do relato com a carreira de Marluce Dias, a "Marluce da Globo", sob cujas ordens Steinberg trabalhou recentemente, fica a impressão de que ele quis mesmo caricaturar a vida da ex-chefe. "Não faria isso. Existem muitas executivas no Brasil que se encaixam no perfil da Eunice sem sobrenome", limita-se a informar o autor.

Há vários outros caricaturados que se encaixam em alguns aspectos nas figuras poderosas que cruzaram a vida profissional do autor do livro. O executivo que se sente "o dono do mundo" depois de sair na capa de uma revista e vê o mundo desmoronar em seguida ao ser demitido semanas depois seria Omar Carneiro da Cunha, que foi presidente das filiais da Shell e da AT&T no Brasil. Hoje é o principal executivo do grupo Bob's. "Não é segredo para ninguém que Omar é muito vaidoso, mas o personagem que criei, nesse caso, é fictício", diz Steinberg, que, igualmente, trabalhou com Carneiro da Cunha. Se fosse um livro de revanche contra ex-chefes, a obra de Steinberg seria limitada por esse aspecto utilitário e perderia muito do interesse que pode despertar. O mundo que ele relata tem lá sua harmonia, sua ética estranha e particular. Conhecê-lo através dos olhos do autor, mesmo com a tentativa que ele faz de não ser neutro, ajuda a entender o universo descrito.

A maneira como carreiras de sucesso são construídas ou desfeitas chama a atenção de estudiosos do meio empresarial há muitas décadas. Várias publicações sobre o tema surgiram nos últimos anos pelo mundo afora. Esses estudos mostram como uma boa rede de relacionamentos vale mais do que a capacidade profissional em alguns casos. Quase tão vital quanto saber fazer é saber se vender, propagandear suas qualidades. É assim que as empresas são organizadas. Mesmo as melhores. Como em toda organização, existem tipos obscuros, seres enigmáticos cujo sucesso desafia o entendimento pelo senso comum. Esse tipo é relatado com precisão num dos capítulos do livro, por sinal a parte mais engraçada. Steinberg chama esse profissional de "ratocorp" – ou o rato corporativo. "Ele tem orelhas grandes, para ouvir cada sussurro, e olhos esbugalhados, para não perder qualquer movimento. Não é o puxa-saco comum, nem o carreirista. É, mais do que isso, o sujeito que se apossa das sobras de energia e de talento dos colegas e nunca é demitido, nem nas crises econômicas mais profundas."

Outro tipo revelado por ele, não sem uma certa crueldade, é o das pessoas que descobrem na corporação uma vida mais confortável do que conseguem bancar na esfera privada. "A vida na empresa é muitas vezes melhor que a real. Isso cria um choque nas pessoas. Elas passam a viver um conto de fadas, como a gata borralheira. São príncipes e princesas na vida corporativa que voltam a sua realidade no final do dia", diz. E, quanto maior a empresa, maior a distância entre a realidade e a ficção das corporações. Jantares em restaurantes da moda, hospedagem em hotéis de luxo, carro zero, roupas de grife e poder sobre o destino das pessoas fazem parte da vida corporativa. Contas a pagar, filhos para criar, conserto do carro, reunião de condomínio e cheque especial estourado fazem parte da vida real. "As pessoas querem abandonar, mesmo que por algumas horas do dia, a vida real em preto-e-branco e viver a vida colorida que as empresas proporcionam."

Steinberg não é o primeiro nem o mais devastador cronista da vida corporativa. Esse tema é antigo e já teve inúmeros intérpretes. Muito conhecido, o cartunista americano Scott Adams foi um dos que levaram a ironia para os quadrinhos com que retrata o universo das grandes empresas. Dilbert, seu herói, ou anti-herói, surgiu como uma resposta aos projetos de reengenharia, um modismo na administração do começo dos anos 90. Pela ótica de Dilbert, independentemente do modismo em voga, toda a administração é baseada numa rígida hierarquia, que lembra o modelo militar. O general é o presidente. Logo abaixo vêm vice-presidente e diretores, que poderiam ser os coronéis. O sargentão é o chefe imediato, que, atingido pelo stress de carregar todos os chefes acima dele, anda normalmente mal-humorado. A lista segue até o chamado soldado corporativo, aquele que não conhece quase nada da estratégia da empresa, cumpre suas obrigações e espera um dia ser reconhecido. Dilbert faz rir mostrando como as culturas corporativas acabam fazendo as pessoas se cercarem de zonas de proteção formadas de boas doses de cinismo. No fundo, são todos iguais. Os fracassados e os bem-sucedidos. Steinberg aborda bem a massificação dos executivos. "O gênio e o idiota têm a mesma chance de triunfar na civilização corporativa", diz Steinberg. Thomaz Wood Junior, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e autor do livro Organizações Espetaculares, com lançamento previsto para este mês, completa: "Ninguém escapa da doutrinação corporativa. Ou se adapta ou é expelido". Wood estudou o que chama de teatro da vida organizacional em sua tese de doutorado e chegou à conclusão de que para muitos executivos o trabalho substitui a vida. O trabalho, nesse aspecto, pode tornar-se ele próprio uma forma de caricatura.


O ratocorp

Ratos corporativos, ou ratocorps – como a eles se poderiam referir especialistas no assunto –, existem em todas as organizações. São parte inerente do próprio ambiente empresarial, pois nele nascem, crescem e dele se nutrem. Ali, historicamente, encontram calor, proteção e excelentes condições de desenvolvimento.
Um ratocorp típico é aquele sujeito de inteligência mediana, mas sem chegar a medíocre, que passa na seleção da empresa muito mais por sua capacidade de repetir chavões e pelo comportamento ambíguo do que por seus méritos intelectuais ou sua criatividade.
A primeira coisa que um ratocorp faz, quando ingressa na empresa, é aprender tudo sobre seus manuais e procedimentos, hábitos e idiossincrasias. Intuitivamente, sempre segue cegamente a burocracia e o formalismo, pois assim não corre riscos e garante nunca ser acusado de não cumprir com seu dever corporativo.
Enquanto os demais colegas dão sangue e suor à operação, procurando dominar técnicas e colocar em dia o trabalho para o qual foram contratados, o ratocorp gasta energias em coisas bem menos produtivas, mas muito mais efetivas para sua carreira.



Sapatos e sardinhas

Era um rapaz que tinha um sonho: trabalhar na área de marketing.
Desconhecia exatamente o que esse termo significava. O que mais chamava sua atenção era como todos esses profissionais se expressavam com um linguajar próprio e a segurança dos que sabem o que estão dizendo. Aprendeu a primeira lição. Prometeu a si mesmo que, não importa o que viesse a falar, o faria com a convicção de quem domina o assunto. Começou a devorar revistas de negócios e a copiar o comportamento das autoridades em marketing. Passou a assimilar e desassimilar maneirismos, tornando-se um admirável clone dos profissionais da moda. Assim ganhou um estágio numa indústria de sardinhas em lata. Implantou um audacioso plano de marketing que mudava a embalagem e as cores das latas de sardinha. Outra idéia foi criar centros de degustação em restaurantes da moda. Começou a dar entrevistas a jornais e revistas, foi eleito presidente da Associação dos Anunciantes de Sardinhas (AAS), virou fonte de repórteres. Mas as vendas de sardinhas empacaram. Antes de o plano naufragar, foi procurado por um headhunter e mudou para uma empresa de sapatos. Antes de completar dois anos foi para um banco, depois laticínios, bicicletas, computadores, fast food. A empresa de sardinhas foi à falência, mas ele chegou ao final da vida com uma carreira coroada de êxito. Agora chegara ao derradeiro momento: tornara-se consultor.

 

O prêmio

Vamos contar como terminou o ano do executivo Monteclair. Lamentavelmente, nosso herói não atingiu os objetivos. Mesmo assim, para sua surpresa, foi convidado para a convenção de vendas. Convenções – nunca é demais ressaltar – vivem de surpresas. De dentro de bolos, podem sair mulheres gostosas ou travestis vestidos em trajes sumários e com véus de feiticeiras. A qualidade e a fama dos protagonistas desses espetáculos variam diretamente em função da disponibilidade de verbas para a sua realização. Assim, os shows da noite de gala das convenções podem ser apresentados por vedetes famosas ou decadentes, cantores da moda ou pagodes de segunda linha, humoristas engraçados ou aqueles que a gente pensava mortos. Mas o principal momento é o das premiações. Pois nesse ano havia uma surpresa especial. Para receber uma homenagem, comovido, Monteclair foi chamado ao palco. O galã de plantão que apresentava a cerimônia – um ator de segundo time da novela das 8 de dois anos atrás – entregou-lhe uma misteriosa caixa. A pedidos, abriu o pacote ali mesmo, sob as luzes e atenção geral. Debaixo de risos histéricos, assovios e gozações dos colegas, tirou de dentro um penico cor-de-rosa. Foi quando explicaram que era o prêmio pela merda de resultados que ele tinha dado à empresa naquele ano...



O aposentado

O dia mais feliz da vida de Pedro Augusto, ou doutor Pedro Augusto, como era conhecido o então presidente da gigantesca e poderosa multinacional, foi o em que ele se aposentou. As emocionantes cenas da cerimônia de despedida seriam lembradas para sempre. Mas nada superou o comportamento de dona Lurdinha, a fiel secretária de dezenas de anos. Afinal, ele fez por merecer estas homenagens. Foram 35 anos ininterruptos de dedicação exclusiva àquela corporação. Num trabalho incessante, abriu pouquíssimas concessões para a vida pessoal. Os filhos cresceram, casaram e mudaram. A mulher envelheceu.
Trocou de mulher, mas a nova também envelheceu. Depois de muitos discursos, presentes, manifestações de amizade, intermináveis comes e infindáveis bebes, Pedro Augusto foi para casa com um sorriso semi-abobalhado, típico de quem bebeu muito e viveu fortes emoções. Pedro Augusto vai muito bem, obrigado! No campo profissional, esqueceu a ingrata corporação, da qual nunca mais falou nem quis ouvir falar. Concorreu e venceu a disputa como síndico de seu prédio. Além disso, tornou-se presidente da Associação dos Ex-Dirigentes de Multinacionais (Assedim), que ajudou a fundar. No campo pessoal, largou a mulher (uma perfeita estranha, como não se dera conta?). Casou-se com dona Lurdinha (uma perfeita companheira, como não se dera conta?).

 

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