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Festas do bem

Lucyna e Armínio Fraga promovem
uma prática que engatinha no Brasil:
a dos convites que pedem doações

Marcelo Camacho

Fotos Vania Laranjeira
Vania
Armínio, com Jabor e convidadas, e a anfitriã (de óculos), com Ruth Cardoso, no recital: 250 reais por cabeça

Pela origem, pelo estilo e pelas idéias, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, vive sendo acusado pelos inimigos de ser americanizado, quando não gringo da gema. No último dia 24, Fraga e a mulher, Lucyna, radicalizaram no americanismo: ofereceram em sua casa no Rio de Janeiro uma festa beneficente. Institucionalizadas nos Estados Unidos, onde é quase impensável promover uma grande badalação que não tenha algum fim nobre em pauta, as comemorações desse tipo são um costume que está chegando devagar ao Brasil. A festa do casal Fraga, destinada a levantar recursos para a obra social Renascer, da qual Lucyna é diretora, mostrou que a moda pode pegar – principalmente se tiver como anfitrião um presidente do Banco Central. Fora os muito amigos e os muito abnegados, é difícil imaginar que o coquetel simplesinho, seguido de concerto de piano com os convidados sentados em prosaicas cadeiras brancas, atraísse tanta gente. Cada um dos 200 presentes compareceu com uma contribuição em dinheiro de 250 reais. Estiveram por lá gente como a primeira-dama Ruth Cardoso, os ministros José Gregori e Luiz Felipe Lampreia. Previsivelmente, a seleta de economistas que já ocuparam postos importantes no governo – Marcílio Marques Moreira, Persio Arida e André Lara Resende – era significativa. Degustaram ostras, bijus com caviar, pastéis tailandeses com frango ao curry – tudo gentilmente oferecido pela empresa de bufê. O cineasta e colunista Arnaldo Jabor cruzou nos salões decorados pelo badalado Hélio Fraga, primo do anfitrião, com empresários de escol.

Cida Souza

Eliana e Roberto Justus na festa de aniversário: doações abaixo do esperado


Vestindo uma despojada camisa de seda branca sobre calça comprida preta, Lucyna Fraga não alimentou ilusões sobre o motivo do sucesso da festa. "Já que eu tenho visibilidade – ou melhor, o Armínio tem –, por que não usar isso em favor de uma coisa boa, construtiva?", indaga. Ela não revela nomes, mas conta que alguns convidados contribuíram com mais que os 250 reais pedidos. Para completar, conseguiu o apoio de um instituto de filantropia suíço que se ofereceu para dobrar o valor arrecado na festa. Resultado: mais de 100.000 reais no caixa da Renascer, instituição que ajuda famílias de crianças carentes. Uma gota d'água, comparada a eventos bombásticos como os jantares organizados pela atriz Elizabeth Taylor para angariar fundos destinados a combater a Aids (o último deu 2 milhões de dólares), mas um bom começo para um país onde muitos ricos ainda hesitam em se separar de seu dinheiro para fins beneficentes.

Doação bem definida – Em tese, o mais importante nessas festas não é a diversão, nem a satisfação gastronômica, e sim a ajuda que se dá. Na prática, conta muitos pontos também a oportunidade de estar lado a lado com o poder e a sensação de desfrutar de algum tipo de projeção social. No Rio de Janeiro, a socialite Angela Fragoso Pires organiza todo ano a festa beneficente Nuit de Noël, que, ao preço de 250 reais por cabeça, oferece jantar dançante black-tie para 450 pessoas. Vai muita gente de sociedade. Vão também pessoas que, no resto do ano, sonham desfrutar do convívio dos grã-finos. Para Angela, tudo bem – o que importa é que, nos últimos oito anos, juntando os dois bailes anuais que produz, tenha arrecadado 1,2 milhão de dólares para obras sociais. "É muito trabalhoso", avisa Angela, que procura patrocínio de bancos e empresas para colocar a festa de pé e não ter de usar o dinheiro arrecadado com os convites para pagar as despesas. Há outro complicador, tipicamente nacional. "No Brasil, por causa da corrupção, as pessoas ficam desconfiadas na hora de fazer doações. Acham que o dinheiro vai parar no bolso de alguém", lamenta Lucyna Fraga.

Nelson Peixoto/AE

Giobbi, com João Sayad e Cosette Alves na primeira festa beneficente: lição aprendida


A saída é ter credibilidade e arregaçar as mangas do terninho de grife. Em São Paulo, a família Ermírio de Moraes é das poucas que costumam unir festa a caridade. Em agosto, Liana e José Ermírio de Moraes Neto convidaram 500 pessoas para suas bodas de prata e pediram, em vez de presente, doações para as obras do Hospital do Câncer. No domingo 26, sua prima Regina montou uma festa para levantar recursos para três asilos. No Rio, a socialite Gisela Amaral, mulher do empresário da noite Ricardo Amaral, organizou um brunch para 1.400 pessoas que ocupou todo o hotel Copacabana Palace, ao preço de 80 reais por cabeça. Havia shows de mágica, música, dança. "As pessoas vão por causa da diversão, mas também tem quem queira realmente ajudar e não sabe como", avalia Gisela, que, com a renda, ajudou creches e uma instituição que cuida de vítimas de estupro. "Essas festas são uma oportunidade." São para quem quer mesmo ajudar. Quem não quer tira o corpo fora, na maior sem-cerimônia. No ano passado, a apresentadora infantil Eliana torrou 40.000 reais numa festa de aniversário. Chamou mais de 100 pessoas e pediu, no lugar de presentes, doações para um orfanato. Arrecadou meros 17.000 reais, dos quais 8.000 vieram do talão de cheques de dois convidados. Daí a importância de estipular valores para a contribuição, lição aprendida a duras penas pelo colunista social Cesar Giobbi, do jornal O Estado de S. Paulo. Dois anos atrás, Giobbi comemorou seu aniversário pedindo doações para um hospital. Os 2.000 convidados compareceram com apenas 200.000 reais, incluídas aí algumas polpudas contribuições de empresas. Em 1999, escolado, Giobbi estipulou o ingresso para a festa em 300 reais por pessoa. Arrecadou 600.000 reais.

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