Assim é
demais
Todo
mundo desconfiava, mas foi preciso um festival de exibição
para a farra acabar

Maurício
Lima, de Maringá
Joel Rocha

Uma
das fazendas de Paolicchi: patrimônio estimado em 20 milhões
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A
cidade de Maringá, no interior do Paraná, está
vivendo uma situação que serve de alerta a todo o
país. O secretário de Fazenda do município
vem sendo acusado de desviar recursos da prefeitura e de possuir
um patrimônio muito, mas muito, superior a sua renda. Teve
sua prisão decretada no mês passado e está sumido
até hoje. O caso chama a atenção pelos valores.
Luiz Antonio Paolicchi ganhava 4.000 reais, brutos, como secretário
de Fazenda. Mas possui dez apartamentos no Brasil e no exterior,
nove fazendas, quinze carros, dois aviões, um helicóptero
e uma empresa de água mineral adquirida durante sua permanência
no secretariado. Numa avaliação inicial, os procuradores
que investigam esses exuberantes sinais exteriores de riqueza calcularam
que seu patrimônio é de, no mínimo, 20 milhões
de reais. Para se ter uma idéia do rombo, as contas no exterior
do juiz Nicolau dos Santos Neto, o tarzã dos desvios do TRT
paulista, somam 30 milhões de reais. Ou seja: é dinheiro
para Lalau nenhum botar defeito.

Paolicchi:
desvio de dinheiro da prefeitura e fuga |
Paolicchi
levava um estilo de vida nababesco. Era conhecido na cidade pelas
festas e pelas viagens que fazia. Passava fins de semana na Argentina
e viajava com freqüência na primeira classe para o exterior.
Era habitué das lojas de roupas mais caras de São
Paulo. Pegava o jatinho e gastava a valer. Pessoas que privavam
de sua intimidade comentam que, nessas ocasiões, as contas
nunca eram inferiores a 10.000 reais. Generoso como poucos, presenteava
amigos com carros, jóias e roupas. Sempre era visto na cidade
numa espécie de clube do Bolinha, um grupo de amigos em que
mulher não entrava. Há pelo menos quatro anos Maringá
inteira pressentia que havia algo errado com o enriquecimento do
secretário de Fazenda, mas ninguém fazia nada. Paolicchi
não era incomodado. "Nós não podíamos
acreditar em boatos", explica o promotor José Aparecido da
Cruz. "As pessoas falavam, sim, mas ninguém tinha prova nenhuma",
completa ele.
Cheques
do laranja Seu mundo de luxo e festas começou
a ruir quando um informante levantou seu patrimônio em cartórios
e juntas comerciais de quatro Estados Paraná, Santa
Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e entregou a papelada
ao Ministério Público federal. De posse da documentação,
os procuradores pediram a declaração de renda e bens
à Receita Federal e a compararam com as posses registradas
nos cartórios. Batata. Constataram que Paolicchi declarava
menos de 10% do que possuía. Em seguida, os procuradores
solicitaram a quebra do sigilo bancário do secretário
e descobriram que apenas uma conta em seu nome, aberta no Banco
do Brasil, recebera 56 cheques de uma mesma pessoa entre dezembro
de 1998 e março de 1999. O total dos depósitos era
de 2,6 milhões de reais uma fortuna para quem ganha
4.000 reais por mês.
Os cheques vinham de um laranja, Waldemir Ronaldo Corrêa,
advogado e assessor de Paolicchi. Uma vez quebrado o sigilo bancário
do laranja, os procuradores ficaram sabendo que os 2,6 milhões
saíam do caixa da prefeitura. Os procuradores foram à
prefeitura saber o motivo dos depósitos. E simplesmente não
havia motivo. Paolicchi desviara recursos públicos sem ao
menos se dar ao trabalho de produzir alguma cobertura, algum disfarce.
O caso do secretário é um alerta porque mostra que,
mesmo com todas as evidências de uso e abuso do dinheiro público,
mesmo com meia cidade assistindo ao espetáculo, ele só
foi desmascarado porque exagerou no luxo, exagerou, exagerou...
até que alguém achou que era demais. E nem sempre
se pode esperar que um lalau facilite tanto a aplicação
da lei.
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