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A "síndrome brasileira"

Ilustração Pepe Casals


Problemas sentimentais? Dificuldades financeiras? A sua vida perdeu o sentido? Venha suicidar-se em Veneza. Veneza é uma das metas preferidas dos suicidas. Homens e mulheres do mundo inteiro escolhem a cidade para encerrar suas tristes existências. É o resultado de uma pesquisa da psicóloga Diana Stainer, publicada na revista médica italiana Minerva Psichiatrica. A pesquisa analisa os casos clínicos de 25 turistas que, entre 1988 e 1995, vieram a Veneza para se suicidar, mas fracassaram em suas tentativas. Uns tomaram barbitúricos no quarto de hotel. Outros se atiraram pela janela ou da Ponte de Rialto. Outros ainda mergulharam nas águas podres da laguna ou cortaram as veias no meio da rua. Quase sempre, gente solteira. Em média, 36 anos. Ingleses, franceses, espanhóis, americanos e, sobretudo, alemães, provavelmente por causa de Morte em Veneza, de Thomas Mann. Ele visitou Veneza durante uma epidemia de cólera. O retrato funéreo que fez da cidade reflete esse fato. Mas Mann não foi o único escritor a associar Veneza à morte. Montaigne achava que era o lugar ideal para se morrer. E Luigi Pirandello, em A Viagem, narrou uma história análoga à dos turistas examinados na pesquisa: a protagonista, Adriana, doente terminal de câncer, atravessa a Itália para ir se envenenar em Veneza.

Diana Stainer avançou algumas hipóteses para explicar aquilo que já é chamado de "síndrome de Veneza". Em primeiro lugar, ela lembrou que Veneza é circundada por água, símbolo de ventre materno no inconsciente coletivo, e quem se suicida na cidade busca o conforto uterino. Ela também disse que Veneza, aos olhos dos estrangeiros, é um lugar fantasma, decadente, o testemunho de um passado irremediavelmente perdido. Os próprios habitantes locais a consideram agonizante. A queixa mais comum é que viver em Veneza é como viver num museu. Quando ouço essa queixa, eu sempre respondo: antes fosse. Não conheço ambiente mais agradável do que um museu: limpo, silencioso, com ar-condicionado, sistema de alarmes, banheiros vazios e belos quadros nas paredes. Além disso, só entra quem paga ingresso. Se Veneza fosse mesmo um museu, não estaria constantemente alagada, cheia de lojinhas de vidro fajuto, de turistas suados e canais com cheiro de esgoto. Comparar Veneza a um museu é um lugar-comum equivalente àquele repetido durante a campanha eleitoral pelo vice-presidente americano Al Gore. Ele disse que a América Latina é o quintal dos Estados Unidos. De novo, eu respondo: antes fosse. Quintal de americano é um troço bem-cuidado, com piscina, churrasqueira, espreguiçadeiras, crianças e cachorros felizes que correm de um lado para o outro. Não tem ditadores fardados, traficantes de drogas, prostitutas adolescentes, serrarias clandestinas abatendo suas árvores e assassinos à espreita em todas as esquinas. Por falar em assassinos, uma consultoria de segurança internacional classificou o Brasil como um dos países mais perigosos do mundo. É alta a probabilidade de que um turista, em viagem pelo Brasil, acabe levando um tiro na cabeça. Suicídio por suicídio, trata-se de um método muito mais eficaz do que se atirar da Ponte de Rialto. É a "síndrome brasileira".

 

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