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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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Fado e enfado

Dois sósias e nenhuma graça
no novo romance de Saramago

Marilia Pacheco Fiorillo


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Trechos do livro

O Homem Duplicado, de José Saramago (Companhia das Letras; 316 páginas; 36 reais), trata da aparição, na vidinha do professor de história Tertuliano Máximo Afonso, de um sósia, o ator coadjuvante António Claro. Saramago conta que imaginou o livro a partir do título. Naturalíssimo, pois o título por si só é quase um gênero literário, aquele que trata do duplo, do "doppelgänger", do gêmeo maléfico. O mais famoso duplo foi criado pelo escocês Robert Louis Stevenson: Dr. Jekyll, um ilibado cidadão vitoriano, metamorfoseia-se à noite no malfeitor Mr. Hyde. Em geral fábulas morais, histórias de duplos costumam pôr em ação o bem contra o mal. Mas não é o que acontece em Saramago. António Claro não é o eco distorcido de Tertuliano. É somente o eco, e há mais coincidência que susto. Os predecessores de Saramago evocavam uma atmosfera de tensão e mistério. Já o autor português, com seu estilo digressivo, de cadência melancólica e regular como a de um fado, afasta o clima de pesadelo. Nada daquela estranheza, penumbra e sussurros que nos trazem Hyde – ou o William Wilson de Edgar Allan Poe, ou o Frankenstein de Mary Shelley. Talvez porque estes, apesar de funestos, possuam um certo humor. Tertuliano e Claro são sisudos demais para ser sinistros. São, provavelmente, o primeiro caso de duplo fantasmagórico em que tudo se passa de maneira um bocado natural.

   
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