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Fado
e enfado
Dois sósias e nenhuma graça
no novo romance de Saramago
Marilia
Pacheco Fiorillo
O
Homem Duplicado, de José Saramago (Companhia das Letras;
316 páginas; 36 reais), trata da aparição, na vidinha
do professor de história Tertuliano Máximo Afonso, de um
sósia, o ator coadjuvante António Claro. Saramago conta
que imaginou o livro a partir do título. Naturalíssimo,
pois o título por si só é quase um gênero literário,
aquele que trata do duplo, do "doppelgänger", do gêmeo maléfico.
O mais famoso duplo foi criado pelo escocês Robert Louis Stevenson:
Dr. Jekyll, um ilibado cidadão vitoriano, metamorfoseia-se à
noite no malfeitor Mr. Hyde. Em geral fábulas morais, histórias
de duplos costumam pôr em ação o bem contra o mal.
Mas não é o que acontece em Saramago. António Claro
não é o eco distorcido de Tertuliano. É somente o
eco, e há mais coincidência que susto. Os predecessores de
Saramago evocavam uma atmosfera de tensão e mistério. Já
o autor português, com seu estilo digressivo, de cadência
melancólica e regular como a de um fado, afasta o clima de pesadelo.
Nada daquela estranheza, penumbra e sussurros que nos trazem Hyde
ou o William Wilson de Edgar Allan Poe, ou o Frankenstein de
Mary Shelley. Talvez porque estes, apesar de funestos, possuam um certo
humor. Tertuliano e Claro são sisudos demais para ser sinistros.
São, provavelmente, o primeiro caso de duplo fantasmagórico
em que tudo se passa de maneira um bocado natural.
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