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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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Elogio da impureza

Philip Roth ataca os moralistas
e fecha sua
trilogia sobre os
Estados Unidos do século XX

Carlos Graieb

"As pessoas são injustas com a raiva. Ela pode ser vivificante." Assim escreveu certa vez o americano Philip Roth. E a raiva tem sido, de fato, a sua musa mais constante. Ela está presente nas páginas iniciais de A Marca Humana (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 454 páginas; 45 reais), na forma de uma inspirada diatribe contra a histeria que varreu os Estados Unidos em 1998, depois que a estagiária Monica Lewinsky e o presidente Bill Clinton faltaram com o decoro nos salões da Casa Branca. "No Congresso, na imprensa, na televisão, os moralistas espalhafatosos de plantão, loucos para acusar, deplorar e punir, eram onipresentes." É nesse ambiente, marcado pelo "êxtase da santimônia", que se desenrolam os últimos meses de vida do antes respeitado professor judeu Coleman Silk. Por ter supostamente ofendido dois estudantes negros e ter-se envolvido com uma faxineira semi-analfabeta, ele é implacavelmente perseguido. É a história dele que Roth (ou Nathan Zuckerman, seu alter ego ficcional) decide contar.

Uma reviravolta desconcertante aguarda o leitor, porém, logo no segundo capítulo de A Marca Humana. Descobrimos que Silk não é um judeu de Nova Jersey, mas um descendente de negros que, por ter a pele clara, passou por branco durante a vida inteira. (Parece inverossímil, mas uma história semelhante veio à tona nos Estados Unidos em 1996, envolvendo o crítico literário Anatole Broyard. Nem seus filhos sabiam que ele era negro.) Torna-se claro, então, que Roth quer algo mais que apenas ralhar com seus conterrâneos pelo febril moralismo exibido no caso Clinton. O escopo histórico do livro amplia-se: são fissuras mais profundas na vida de seu país que o autor pretende explorar. Nesse sentido, A Marca Humana é um fecho brilhante para a trilogia de romances composta, ainda, por Pastoral Americana e Casei com um Comunista, na qual o autor, pela primeira vez, deu papel de destaque a temas políticos em sua ficção. E, se a crítica ao puritanismo continua sendo até o fim um dos temas centrais do livro, o fato de Coleman Silk esconder um formidável segredo, ser uma figura ambígua e não uma simples vítima da intolerância alheia dá a esse tema uma dimensão mais profunda e, por que não, transcendente. "Nós deixamos uma marca. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excrementos, esperma – não tem jeito de não deixar. É por isso que toda purificação é uma piada", escreve Roth na passagem que explica o sentido do título A Marca Humana.

   
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