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Elogio
da impureza
Philip Roth ataca os moralistas
e fecha sua
trilogia sobre os
Estados Unidos do século XX
Carlos
Graieb
"As
pessoas são injustas com a raiva. Ela pode ser vivificante." Assim
escreveu certa vez o americano Philip Roth. E a raiva tem sido, de fato,
a sua musa mais constante. Ela está presente nas páginas
iniciais de A Marca Humana (tradução de Paulo
Henriques Britto; Companhia das Letras; 454 páginas; 45 reais),
na forma de uma inspirada diatribe contra a histeria que varreu os Estados
Unidos em 1998, depois que a estagiária Monica Lewinsky e o presidente
Bill Clinton faltaram com o decoro nos salões da Casa Branca. "No
Congresso, na imprensa, na televisão, os moralistas espalhafatosos
de plantão, loucos para acusar, deplorar e punir, eram onipresentes."
É nesse ambiente, marcado pelo "êxtase da santimônia",
que se desenrolam os últimos meses de vida do antes respeitado
professor judeu Coleman Silk. Por ter supostamente ofendido dois estudantes
negros e ter-se envolvido com uma faxineira semi-analfabeta, ele é
implacavelmente perseguido. É a história dele que Roth (ou
Nathan Zuckerman, seu alter ego ficcional) decide contar.
Uma reviravolta desconcertante aguarda o leitor, porém, logo no
segundo capítulo de A Marca Humana. Descobrimos que Silk
não é um judeu de Nova Jersey, mas um descendente de negros
que, por ter a pele clara, passou por branco durante a vida inteira. (Parece
inverossímil, mas uma história semelhante veio à
tona nos Estados Unidos em 1996, envolvendo o crítico literário
Anatole Broyard. Nem seus filhos sabiam que ele era negro.) Torna-se claro,
então, que Roth quer algo mais que apenas ralhar com seus conterrâneos
pelo febril moralismo exibido no caso Clinton. O escopo histórico
do livro amplia-se: são fissuras mais profundas na vida de seu
país que o autor pretende explorar. Nesse sentido, A Marca Humana
é um fecho brilhante para a trilogia de romances composta,
ainda, por Pastoral Americana e Casei com um Comunista,
na qual o autor, pela primeira vez, deu papel de destaque a temas políticos
em sua ficção. E, se a crítica ao puritanismo continua
sendo até o fim um dos temas centrais do livro, o fato de Coleman
Silk esconder um formidável segredo, ser uma figura ambígua
e não uma simples vítima da intolerância alheia dá
a esse tema uma dimensão mais profunda e, por que não, transcendente.
"Nós deixamos uma marca. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros,
excrementos, esperma não tem jeito de não deixar.
É por isso que toda purificação é uma piada",
escreve Roth na passagem que explica o sentido do título A Marca
Humana.
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