
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
O
crepúsculo do macho
Em
Dívida de Sangue, Eastwood
retorna ao seu tema favorito: as
limitações e as bênçãos da velhice
Isabela Boscov
Divulgação
 |
O
ator e diretor, com Anjelica Huston: um coração novo
não basta |

Veja também |
|
|
|
Em
Dívida de Sangue (Blood Work, Estados Unidos,
2002), que estréia nesta sexta-feira no país, Clint Eastwood
toca o tempo todo seu peito, como que para se certificar de que seu coração
ainda está lá, e ainda está batendo. É um
gesto angustiante e, ao mesmo tempo, de uma galhardia singular. Aos 72
anos e com o rosto vincado pelas rugas, o ator e diretor não tem
nenhuma preocupação em esconder a idade. Pelo contrário:
faz questão de ostentá-la e de usá-la como um trunfo
que só enriquece o seu cinema. Em seu 23º filme atrás
das câmeras, Eastwood interpreta Terry McCaleb, um agente federal
que sofre um infarto enquanto persegue a pé um criminoso. A cena
parodia tantas outras que Eastwood protagonizou na juventude, o que só
acentua o constrangimento do seu desfecho. Como resultado do infarto,
McCaleb é submetido a um transplante cardíaco. Sua rotina
passa a consistir de visitas à sua médica (Anjelica Huston),
para fazer exames dolorosos e ouvir sermões. Toma dezenas de comprimidos,
fala com voz roufenha e anota meticulosamente sua temperatura. É
um presente inglório para um investigador que teve um grande passado,
e McCaleb às vezes se pergunta se é justo salvar uma vida
como a sua. Certo dia, ele é procurado por uma garçonete
(Wanda de Jesús) que lhe assegura que o coração que
ele ganhou veio de sua irmã, e que esta foi baleada durante um
assalto a uma mercearia. A polícia de Los Angeles nunca identificou
o assassino, e a moça quer ajuda para encontrá-lo. Sentindo-se
em dívida, McCaleb atende ao pedido e, pelo restante do filme,
enfrenta um rosário de pequenas humilhações. Precisa
que alguém dirija seu carro, ofega sempre que se exercita um pouco
e tem acessos de febre por causa do esforço. Mas, pelo simples
fato de poder empregar de novo sua experiência, volta à vida.
Dívida
de Sangue é um policial e um bom policial. E é
também mais um pretexto para Eastwood explorar dois temas a que
ele tem se dedicado sistematicamente desde o final dos anos 80: a velhice
e a obsolescência das definições tradicionais de virilidade.
Num país obcecado pela juventude e pela eficiência, ele é
uma das raras figuras públicas que têm a coragem de olhar
a própria decadência, sem piscar. Como seu personagem, Eastwood
assume com prazer as vantagens da experiência e de sua notável
independência de pensamento, que cultiva desde o início da
carreira. Quando isso era considerado a morte, ele largou um seriado bem
pago nos Estados Unidos para ir filmar faroestes-espaguete na Itália
com Sergio Leone. Quando São Francisco onde nasceu
era a capital do flower power, ele e o diretor Don Siegel usaram
a cidade como hábitat de um policial, o Dirty Harry, cuja ira roçava
o fascismo. Já consagrado como o grande astro de ação
dos anos 70, Eastwood começou a dirigir filmes sobre tipos autodestrutivos
ou desconectados de seu tempo. E, quando os faroestes eram encarados como
uma espécie de suicídio financeiro, ele se saiu com Os
Imperdoáveis (que está sendo relançado nesta
semana num DVD duplo, repleto de extras). Em todas essas ocasiões,
Eastwood só ganhou por afrontar o senso comum e seguir os próprios
instintos. Passou de astro B a ícone, de artista relativamente
marginal a autor de primeira grandeza. "Nunca paro para pensar se os outros
vão gostar do que estou fazendo. Se eu gostar, já está
de bom tamanho", diz ele.
No quarto casamento com a jornalista Dina Ruiz, mãe de sua
caçula Morgan e com uma prole que vai dos 34 aos 5 anos
de idade, Eastwood evidentemente pratica a filosofia que prega, a de que
a velhice traz o fim mais para perto, mas não é o fim em
si. Desde os quatro Oscar de Os Imperdoáveis, ele vem sendo
acusado de ter afrouxado seu pulso como diretor. Mas talvez o mais certo
seja virar essa afirmação do avesso e dizer que Eastwood
tem feito de seus filmes elegias a um tempo interior mais lento, e por
isso mesmo muito mais rico.
|
|
 |
|
 |

|
 |