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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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O crepúsculo do macho

Em Dívida de Sangue, Eastwood
retorna ao seu tema favorito: as
limitações e as bênçãos da velhice

Isabela Boscov

 
Divulgação
O ator e diretor, com Anjelica Huston: um coração novo
não basta


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Em Dívida de Sangue (Blood Work, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país, Clint Eastwood toca o tempo todo seu peito, como que para se certificar de que seu coração ainda está lá, e ainda está batendo. É um gesto angustiante e, ao mesmo tempo, de uma galhardia singular. Aos 72 anos e com o rosto vincado pelas rugas, o ator e diretor não tem nenhuma preocupação em esconder a idade. Pelo contrário: faz questão de ostentá-la e de usá-la como um trunfo que só enriquece o seu cinema. Em seu 23º filme atrás das câmeras, Eastwood interpreta Terry McCaleb, um agente federal que sofre um infarto enquanto persegue a pé um criminoso. A cena parodia tantas outras que Eastwood protagonizou na juventude, o que só acentua o constrangimento do seu desfecho. Como resultado do infarto, McCaleb é submetido a um transplante cardíaco. Sua rotina passa a consistir de visitas à sua médica (Anjelica Huston), para fazer exames dolorosos e ouvir sermões. Toma dezenas de comprimidos, fala com voz roufenha e anota meticulosamente sua temperatura. É um presente inglório para um investigador que teve um grande passado, e McCaleb às vezes se pergunta se é justo salvar uma vida como a sua. Certo dia, ele é procurado por uma garçonete (Wanda de Jesús) que lhe assegura que o coração que ele ganhou veio de sua irmã, e que esta foi baleada durante um assalto a uma mercearia. A polícia de Los Angeles nunca identificou o assassino, e a moça quer ajuda para encontrá-lo. Sentindo-se em dívida, McCaleb atende ao pedido e, pelo restante do filme, enfrenta um rosário de pequenas humilhações. Precisa que alguém dirija seu carro, ofega sempre que se exercita um pouco e tem acessos de febre por causa do esforço. Mas, pelo simples fato de poder empregar de novo sua experiência, volta à vida.

Dívida de Sangue é um policial – e um bom policial. E é também mais um pretexto para Eastwood explorar dois temas a que ele tem se dedicado sistematicamente desde o final dos anos 80: a velhice e a obsolescência das definições tradicionais de virilidade. Num país obcecado pela juventude e pela eficiência, ele é uma das raras figuras públicas que têm a coragem de olhar a própria decadência, sem piscar. Como seu personagem, Eastwood assume com prazer as vantagens da experiência e de sua notável independência de pensamento, que cultiva desde o início da carreira. Quando isso era considerado a morte, ele largou um seriado bem pago nos Estados Unidos para ir filmar faroestes-espaguete na Itália com Sergio Leone. Quando São Francisco – onde nasceu – era a capital do flower power, ele e o diretor Don Siegel usaram a cidade como hábitat de um policial, o Dirty Harry, cuja ira roçava o fascismo. Já consagrado como o grande astro de ação dos anos 70, Eastwood começou a dirigir filmes sobre tipos autodestrutivos ou desconectados de seu tempo. E, quando os faroestes eram encarados como uma espécie de suicídio financeiro, ele se saiu com Os Imperdoáveis (que está sendo relançado nesta semana num DVD duplo, repleto de extras). Em todas essas ocasiões, Eastwood só ganhou por afrontar o senso comum e seguir os próprios instintos. Passou de astro B a ícone, de artista relativamente marginal a autor de primeira grandeza. "Nunca paro para pensar se os outros vão gostar do que estou fazendo. Se eu gostar, já está de bom tamanho", diz ele.

No quarto casamento – com a jornalista Dina Ruiz, mãe de sua caçula Morgan – e com uma prole que vai dos 34 aos 5 anos de idade, Eastwood evidentemente pratica a filosofia que prega, a de que a velhice traz o fim mais para perto, mas não é o fim em si. Desde os quatro Oscar de Os Imperdoáveis, ele vem sendo acusado de ter afrouxado seu pulso como diretor. Mas talvez o mais certo seja virar essa afirmação do avesso e dizer que Eastwood tem feito de seus filmes elegias a um tempo interior mais lento, e por isso mesmo muito mais rico.

   
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