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Dores
de um parto
Madame
Satã mostra como um
homem venceu a distância entre
o que era e o que queria ser
Isabela
Boscov
Divulgação
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O
baiano Lázaro
Ramos, como o personagem-título: erupções de
ira
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Veja também |
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Na
primeira cena de Madame Satã (Brasil/França,
2002), que estréia nesta sexta-feira, o protagonista João
Francisco dos Santos é apresentado num close que, de tão
direto, chega a ser humilhante. Uma voz, provavelmente de um policial,
diz quem ele é: negro, analfabeto, homossexual, proxeneta, criminoso.
Não deixa de ser um resumo correto do currículo de Santos
(1900-1976), que ficaria mais conhecido como o transformista Madame Satã,
figura emblemática de uma certa boêmia e marginalidade carioca
das décadas de 40 e 50. O trabalho do diretor Karim Aïnouz,
porém, é mostrar quanto a descrição acima
é incompleta. Aïnouz flagra Santos num período crucial
de sua vida, entre 1931 e 1932. Camareiro de um cabaré pulguento
do bairro carioca da Lapa, Santos (o excepcional Lázaro Ramos)
sonha em ser também ele o astro ou, melhor dizendo, a estrela
de um espetáculo. É algo que suas circunstâncias
definitivamente não favorecem. Ele é paupérrimo e
desprezado, mora num cortiço com a prostituta Laurita (Marcélia
Cartaxo) e o travesti Tabu (Flávio Bauraqui), não sabe nem
assinar seu nome e é presa de uma ira vulcânica, que se manifesta
sempre que ele é levado a medir a distância entre o que é
e o que quer ser. Em nenhum momento, porém, Santos se vê
como vítima, no que é endossado por Aïnouz. Ao contrário,
a beleza de Madame Satã está na admiração
que o filme expressa por um homem que buscou o quanto pôde um invólucro
que correspondesse ao conceito que ele tinha de si mesmo. "Sou b... porque
eu quero, mas também sou muito macho", diz Santos em dado momento,
exemplificando seu dom para conciliar seus extremos.
Walter Firmo
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| O
verdadeiro Madame Satã, morto em 1976: emblema boêmio |
O cearense Aïnouz, de 36 anos, faz com Madame Satã
sua estréia em longa-metragem, mas é um veterano do ramo.
Formado em arquitetura, ele fez mestrado em história do cinema
na Universidade de Nova York, trabalhou como assistente de montagem e
direção para diversos cineastas americanos (entre eles Michael
Mann, em O Último dos Moicanos) e assinou o roteiro de Abril
Despedaçado. Aïnouz se descreve como um teórico
por excelência e, em certa medida, está correto. Mas o rigor
com que ele estrutura seu roteiro se combina de maneira brilhante com
a turbulência de Madame e com as soluções narrativas
empregadas no filme. Na fotografia excelente de Walter Carvalho, os personagens
nunca estão inteiros dentro do quadro, como se não coubessem
naqueles limites, e o foco muitas vezes se dilui, como se as emoções
dos protagonistas turvassem sua visão. No fim desse ano de 1932,
Santos perde de vez a cabeça. Ridicularizado por um bêbado,
ele mata o sujeito com um tiro. Santos ficou preso até 1942 e saiu
da cadeia já na encarnação que seria a sua definitiva:
foi direto para um desfile com uma fantasia intitulada Madame Satã,
e acabou virando lenda. Exatamente como ele sempre quis.
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