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O desafio do 3º milênioA diferença de renda de suíços e moçambicanos Eliana Simonetti Ao que tudo indica, a disparidade entre os muito ricos e os muito pobres é o principal problema que o mundo terá de enfrentar no terceiro milênio. Em Hong Kong, uma ilha de 6,5 milhões de habitantes, produzem-se anualmente 171 bilhões de dólares. Na Tanzânia, onde vivem 32 milhões de pessoas, a produção de riqueza é infinitamente menor: 6,9 bilhões. A Suécia tem mais ou menos a mesma área arável de Cuba, recursos naturais semelhantes, clima mais ingrato e menos gente. Mas o PIB sueco é onze vezes maior do que o cubano. A diferença em termos de renda per capita entre uma das mais ricas nações industriais do mundo, a Suíça, e um dos mais pobres países não industriais, Moçambique, é de cerca de 500 dólares para 1. Na semana passada, a reunião anual dos sócios do Fundo Monetário Internacional, FMI, tratou da questão. "Embora nós tenhamos enfrentado o desafio da mais severa e mais extensa crise desde que nossas instituições existem, seu custo humano tem sido imenso e podemos precisar de mais alguns anos para resolver esses problemas", disse Michel Camdessus, diretor-gerente do FMI, na abertura do encontro, na última terça-feira. A pobreza é uma questão que preocupa o Banco Mundial, a Organização das Nações Unidas e o próprio FMI há muitos anos. Do ponto de vista dos técnicos do Fundo, continuam sendo prioridades absolutas o ajuste fiscal, nos países em desenvolvimento, a abertura dos mercados e a solidez do sistema financeiro internacional. A novidade da reunião da semana passada foi que pela primeira vez na história o FMI admitiu que o combate à pobreza também deve ser tratado como meta prioritária. "Vamos iniciar uma ofensiva para erradicar a pobreza e humanizar a globalização", afirmou Camdessus. "É obrigação do FMI, mesmo não sendo uma instituição para o desenvolvimento, responder ao grito dos pobres."
A questão da pobreza é mais complexa. Não há receita alguma de órgão financeiro ou de entidade benemerente capaz de resolvê-la com facilidade. Países emergentes que se empenharem com vigor no combate às desigualdades sociais poderão diminuí-las, mas nunca no prazo curto. Países miseráveis, como muitos da África, talvez nem consigam fazer isso sozinhos, sem ajuda externa. O que o FMI está dizendo é que até ele acha que a fase da tolerância está esgotada. É preciso fazer alguma coisa para evitar que haja no mundo tamanha diferença entre um belga e um ugandense. Encontrar a fórmula certa para que esse projeto tenha sucesso é muito complicado. Recentemente, na universidade americana Harvard, cinqüenta estudiosos de todas as especialidades (entre eles o historiador David Landes e os economistas Jeffrey Sachs e Francis Fukuyama) dedicaram uma semana ao debate do problema entenda-se, não à constatação da existência e do crescimento do número de pobres, mas à busca das razões da pobreza. Concluíram que, além dos motivos conhecidos, como escassez de riquezas naturais, governos com administrações desequilibradas e falta de oportunidades de negócios, os países pobres sofrem por uma razão menos palpável: eles têm uma mentalidade que não favorece o enriquecimento, uma espécie de cultura da pobreza. Foi uma conclusão tão perturbadora para todos os presentes que se passou, a partir daí, a discutir se era lícito que países desenvolvidos ou instituições internacionais interviessem para promover a mudança da mentalidade dos povos. "Mais do que qualquer dos fatores que influenciam o desenvolvimento dos países, é principalmente a cultura que explica por que alguns se desenvolvem mais rápida e homogeneamente que outros", diz o economista Lawrence Harrison, professor em Harvard e autor do livro Subdesenvolvimento É um Estado de Espírito. A questão é como fazer para romper o dique entre nações ricas e pobres, porque de uma forma qualquer ele precisa ser rompido. "A paz e a prosperidade do planeta dependem do bem-estar de todos", diz David Landes, professor de história e economia política em Harvard e autor do livro A Riqueza e a Pobreza das Nações. Há números espantosos no que diz respeito aos países ricos. A riqueza se espraia nos Estados Unidos em ritmo acelerado. Segundo a revista Forbes, o país tem mais de 200 bilionários e 11 milhões de milionários (esse grupo cresce a um ritmo de cerca de 300 novos milionários por mês). No ano passado, os consumidores americanos, que são menos de 5% da população mundial, foram responsáveis pela metade do crescimento do consumo internacional. A pobreza, por seu lado, é insidiosa. Afeta cada vez mais profundamente os países do sul da África e da América Latina. De acordo com o Banco Mundial, 81% da população do planeta tem rendimentos que, nos Estados Unidos, seriam qualificados como suficientes apenas para uma má alimentação. Cerca de 1,3 bilhão de pessoas vivem com apenas 1 dólar por dia. O Egito é considerado um país em desenvolvimento desde o início do século passado. E não se move há 200 anos. Os Estados Unidos, no século XIX, eram mais ou menos como o Brasil no início deste: uma economia em desenvolvimento, com grande potencial. Por que, afinal, um país vai para a frente e outros não desempacam?
Um caso exemplar. A Colômbia tem terras férteis e um clima favorável para o cultivo de flores. Na década de 70, alguns fazendeiros começaram a se dedicar a essa atividade. Com o tempo, descobriram que poderiam fazer um acordo com as companhias aéreas e exportar seu produto para os Estados Unidos, onde as flores tinham preço muito mais alto, já que não eram produzidas no inverno americano. Montaram uma ponte aérea para Miami e relaxaram. Anos depois, os dinamarqueses, que têm terreno pequeno e clima ingrato, desenvolveram uma tecnologia tal que lhes permitiu embarcar flores para o mercado americano por preço mais baixo e não só para Miami, mas, de avião, para todos os Estados Unidos. Os colombianos foram perdendo mercado. O que fizeram? Foram ao governo pedir subsídios, em forma de redução dos impostos que pagavam. Resultado: quebraram. "Os produtores de flores estavam perdendo dinheiro e, desconsolados, diziam apenas: 'Não é nossa culpa'.", contam os dois economistas que acompanharam a ruína da floricultura colombiana, Michael Fairbanks e Stace Lindsay. Os dois são autores do livro mais recente lançado nos Estados Unidos sobre a pobreza das nações, Plowing in the Sea, em português, Arando no Mar. O título é retirado de um trecho do epitáfio de Simón Bolívar, o libertador de países como a Venezuela e a Bolívia. Bolívar dizia que tentar fazer uma revolução na América Latina é como tentar plantar no mar uma tarefa sem muita chance de sucesso. O Brasil, e a América Latina em geral, herdou de seus colonizadores a convicção de que a riqueza é uma dádiva. Portugal e Espanha tinham capital no tempo da colonização. Hoje estão entre os países mais pobres da Europa Ocidental. Na semana passada a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados, Seade, instituto de pesquisa ligado aos sindicatos, divulgou um estudo segundo o qual em São Paulo, como acontece no mundo inteiro, a distância entre ricos e pobres está aumentando. Conforme o levantamento, os 10% mais abastados enriqueceram 37% desde o Plano Real, enquanto os 10% mais pobres melhoraram sua renda em 24%. O país cresceu e se modernizou bastante na última década. Muita gente que nem sequer ousava pisar num supermercado pode ter geladeira em casa e abastecê-la. Cidades que viviam isoladas passaram a ter sistema de telefonia que funciona. Pessoas que jamais haviam deixado o país tiveram a oportunidade de viajar. As escolas noturnas estão repletas de gente que tenta atualizar-se para obter um emprego melhor. Mas todo esse esforço ainda não foi bastante para reduzir a tremenda desigualdade existente no país. A fórmula para resolver o problema foi dada, na semana passada, pelos chefões do FMI e do Banco Mundial: é preciso investir muito, mas muito mesmo, em educação e saúde. A questão, no caso, não é só de volume de dinheiro é, principalmente, de orientação. O Brasil investe 22% do PIB em programas sociais. É muito dinheiro, mas não resolve os problemas. Primeiro, porque, conforme o próprio presidente da República, grande parte dos recursos se perde no meio do caminho e não chega aos necessitados. Segundo, porque o assistencialismo não produz gente com mais iniciativa, mais criatividade, maior habilitação para o trabalho. O investimento em capital humano, de que falam o FMI e o Banco Mundial, pode ser muito mais barato e gerar melhores resultados. Trata-se de saneamento básico, da universalização dos conceitos de higiene e de escolas que preparem as pessoas para competir nesse mundo novo e implacável com os conformados e malemolentes. Isso mexerá com a cultura dos pobres e eles terão pelo menos a oportunidade de brigar por uma posição melhor na escala social.
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