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O coração bate mais forteMais hospitais, remédios melhores e novos Julio Wiziack, Monica Weinberg e Thomas Traumann
"Em quase todas as regiões os pacientes podem encontrar salas de emergência e centros cirúrgicos tão bons quanto eram os de São Paulo há pouco tempo", diz Adib Jatene, o mais respeitado cirurgião cardíaco brasileiro. Há um número que resume os avanços da cardiologia de qualidade no Brasil. A partir da primeira pontada de dor denunciadora do ataque cardíaco, que algumas vítimas descrevem como "um chute no peito", a pessoa precisa receber socorro especializado no máximo em seis horas. Depois disso, o músculo cardíaco, que teve sua alimentação de oxigênio subitamente interrompida pelo bloqueio de uma ou mais coronárias, começa a morrer. Pacientes atendidos nas seis primeiras horas têm 95% de chance de sobreviver e retomar uma vida normal depois do tratamento. Pois bem, oito em cada dez brasileiros moram hoje a menos de seis horas de distância de um bom centro cardíaco. Alguns dos melhores são prontos-socorros ligados a grandes hospitais públicos e universidades e, portanto, gratuitos.
O progresso aparece quando se analisa a situação levando-se em conta
a idade dos pacientes. Isso é importante porque na idade avançada a maioria
das mortes naturais ocorre por parada cardíaca, quando quase nunca o culpado
é o coração, mas a falência geral dos órgãos minados pelo tempo. Os pacientes cuja idade varia dos 40 à beira dos 60 anos são observados
muito de perto pelos médicos. "Se a vida começa aos 40, como dizem,
é uma pena que esse seja justamente o período em que acaba a garantia",
costuma dizer o médico Raul Cutait, que foi secretário municipal da Saúde
de São Paulo. O período é conturbado por vários motivos. No campo pessoal
e profissional, é a fase em que homens e mulheres costumam estar em plena
ascensão, com filhos adolescentes ou crianças. São muito cobrados, o stress
está no auge e muitos enfrentam a última chance de obter uma aposentadoria
tranqüila. Poucos se animam a mudar os hábitos alimentares e exercitar-se
de acordo com a boa norma da saúde. Sabe-se que a redução de certas gorduras
nas dietas ajuda a diminuir os riscos da doença cardíaca em 30%. Quebra-cabeça – O Brasil, claro,
se beneficiou muito dos avanços da cardiologia mundial. O progresso registrado
em todas as frentes ao longo dos últimos cinco anos foi formidável. Pode-se
afirmar com alguma dose de certeza que o mal cardíaco é uma invenção deste
século. As estatísticas, embora imperfeitas, mostram que nas primeiras
décadas do século XX o número de ataques cardíacos fatais foi significativamente
maior do que na mesma época do século passado. Isso se explica em parte
porque as pessoas antes morriam de outras causas, como as doenças infecciosas,
e não tinham tempo de desenvolver um ataque cardíaco. É verdade. Entre tantas notícias positivas, os cardiologistas quebram a cabeça com um fenômeno com o sinal oposto – ele é extremamente negativo. Fala-se aqui da chegada das mulheres em grande número ao grupo de pacientes com doenças do coração. Todo mundo tem um tio ou primo distante que foi operado do coração. Já uma mulher cardíaca era coisa rara. Está se tornando mais comum. As mulheres com mais de 50 anos são o grande quebra-cabeça dos cardiologistas. Duas décadas atrás, em cada dez vítimas de infarto, nove eram homens e apenas uma era mulher. Hoje a proporção encolheu. São em média quatro homens para uma mulher. A explicação está na mudança do estilo de vida. No final da década de 70, apenas 14 milhões de brasileiras trabalhavam fora de casa. Atualmente esse número saltou para 27 milhões. "O mercado de trabalho expõe as mulheres aos mesmos fatores de risco que os homens", afirma Antônio Mansur, diretor do Núcleo de Estudos de Problemas do Coração da Mulher, em São Paulo. "A questão é que muitas mulheres ainda acham que a doença de coração é masculina e não se previnem." Há poucas diferenças entre os conselhos que um cardiologista pode dar a um homem e a uma mulher. A diferença é de atitude: são raríssimas as mulheres que vão ao cardiologista fazer um check-up.
A ciência ainda tem o que desvendar em relação à manifestação feminina da doença. Para explicar por que o infarto é mais letal em mulheres que em homens há apenas hipóteses. Uma das teses mais debatidas, recém-publicada na revista especializada The New England Journal of Medicine, sugere que a questão está ligada ao hormônio estrógeno, produzido até a menopausa. Sabe-se que, entre outras coisas, o estrógeno é um protetor natural do coração da mulher. Sem ele, a mulher ficaria até mais vulnerável do que os homens. O estrógeno retarda em cerca de dez anos a entrada das mulheres na faixa de risco. Os homens ingressam na faixa de risco maior aos 40 anos e as mulheres, aos 50. Mas como explicar, apenas pela teoria do estrógeno, que só agora elas começaram a ter problemas cardíacos em número maior? Só a química não explica. Os médicos sugerem que outros fatores decisivos são o fumo e a chegada das mulheres ao mercado de trabalho em posições de comando – o que as igualaria aos homens na exposição ao stress e a outros fatores de risco. Muitas mulheres se submetem hoje à terapia de reposição hormonal para diminuir os riscos de infarto. Existem bons indícios de que a prática funciona, mas não há nenhum estudo conclusivo. A pesquisa mais avançada na área está concentrada em uma droga que só agora começa a ser receitada, o Raloxifeno. Este composto, que além de ter características estrogênicas ainda ajuda a combater o colesterol ruim, o LDL, mostrou nos testes ser capaz de diminuir a incidência de ataques cardíacos. Um levantamento preliminar das autoridades de saúde brasileiras, cobrindo o período de 1991 a 1997, indica que depois de um aumento vertiginoso o mal cardíaco dá sinais de reversão também entre mulheres. Houve uma diminuição de 7% nos casos de infarto feminino no Brasil naquele período. Força evangelizadora – Na avaliação do especialista inglês Michael Marmont, os últimos cinco anos foram os mais espetaculares não apenas pelas descobertas e avanços cirúrgicos, mas pela consistente popularização dos hábitos e dietas condizentes com a saúde do coração. "A informação sobre como prevenir a doença cardíaca espalhou-se com a força de uma evangelização bem-sucedida pelo mundo", diz Marmont. "As pessoas hoje conversam sobre dieta e exercícios físicos, trocam experiências e, principalmente nas classes média e rica, sabem exatamente o que fazer caso comecem a ter um ataque cardíaco." Marmont se refere ao fato de que no passado a atitude mais comum de alguém que achava estar tendo um infarto era deitar-se e chamar o médico da família. Hoje o próprio médico da família é quem receita: em caso de suspeita de ataque cardíaco, tome uma aspirina forte, de 100 mg ou 325 mg, e rume para o pronto-socorro mais próximo. Esta simples providência aumenta as chances de sobrevida em mais de 60%. As pessoas também têm mais informações sobre quais são os sintomas denunciadores de um infarto. O principal deles é a dor aguda no peito que se irradia para os braços. Pode ou não vir combinada com dificuldade de respirar. A confusão mais comum é achar que se está tendo uma indigestão, uma queimação no estômago. Como saber? Os médicos alertam que o histórico familiar é decisivo. Pessoas cujos pais, mães ou tios tiveram problemas cardíacos antes de completar 50 anos não tenham dúvida. O risco de a dor no peito ser infarto é enorme. Há também progressos no atendimento profissional ao doente enfartado já no pronto-socorro. Antes uma prática quase cabalística, com drogas caras e raras, o atendimento de urgência era restrito aos centros cardíacos especializados. Hoje em dia, no Brasil e no mundo, em quase todos os prontos-socorros o diagnóstico e o tratamento do infarto agudo viraram rotina. "Morrer do coração num hospital ficou difícil", afirma José Carlos Pachón, cardiologista do Hospital do Coração, em São Paulo. "Só se perde um paciente hoje na emergência de um bom hospital brasileiro se o caso for muito complicado." O ataque inicial nos prontos-socorros é feito com algumas drogas banais que podem ser compradas em qualquer farmácia: a aspirina e os chamados betabloqueadores. O analgésico torna o sangue mais ralo e diminui os riscos de coágulo, fazendo com que a circulação se dê mais facilmente pela artéria parcialmente entupida. O betabloqueador segura o ímpeto da adrenalina, impedindo que o coração dispare como um potro selvagem, o que pode complicar ainda mais o quadro numa emergência. O uso conjunto da aspirina e do betabloqueador tem sido mais decisivo para salvar vidas de cardíacos numa emergência do que os equipamentos de última geração, escreve o médico americano J. Chen num artigo publicado no The New England Journal of Medicine. Passada a fase aguda da emergência, a maioria dos pacientes cardíacos internados vivia o drama da confirmação do diagnóstico. Antes, em todos os casos, era preciso abrir um buraco num vaso da perna ou do braço e por ali inserir um cateter que serpenteava pelo corpo adentro até o coração. Ali o cateter injetava uma substância contrastante que, vista de fora por raios X, permitia aos médicos saber o tamanho do bloqueio na artéria. Hoje, o cateter é usado apenas nos casos mais graves e quando a cirurgia parece inevitável. Além disso, seu uso se tornou mais seguro e diversificado. O cateter serve não apenas para sondar o interior, mas também para desobstruir artérias. Isso se faz por meio de um balão que infla com força bem em cima do bloqueio, amassando o material responsável pelo entupimento, o que restabelece a passagem do sangue. Ou seja, o mesmo mecanismo que permite o diagnóstico ajuda no tratamento. A última novidade no diagnóstico de problemas cardíacos no mundo é um aparelho americano chamado CAT, que produz imagens quase perfeitas do interior das artérias – sem precisar parar o coração. Já está em uso no Incor. O resultado foi a diminuição do número daquelas grandes cirurgias de peito aberto, com o coração parado e o sangue sendo desviado para uma máquina onde recebia oxigênio e impulsão para voltar ao corpo. "Mais da metade dos pacientes dos anos 70 terminava sendo operada inutilmente, porque os médicos não tinham equipamento ou conhecimento para fazer um diagnóstico sem abrir o peito", diz o chefe da divisão cirúrgica do Incor, Noedir Stolf. "Aprendia-se tentando. Isso não existe mais." Vinte anos atrás, de cada dez operações de ponte de safena apenas duas davam certo. Agora, o índice de acerto é quase total – 95% das operações são bem-sucedidas. Ovos sem remorso – Um front importante da batalha pela saúde do coração está sendo travado nas caminhadas e na mesa. Quem pratica exercícios aeróbios três vezes por semana durante uma hora pode reduzir o risco de ter um infarto em até 50%. Exercícios aeróbios, como a caminhada, são aquelas atividades de baixo impacto, diferente da musculação. Em três meses de prática, uma pessoa aumenta sua capacidade cardiorrespiratória em 20%. O exercício ajuda a alargar o diâmetro dos vasos e previne o congestionamento das artérias. Também amplia a rede capilar, criando novas alternativas de fluxo sanguíneo. Por isso a pressão arterial cede um pouco. Estudos demonstraram que mesmo uma pessoa que já passou por uma cirurgia de ponte de safena consegue melhorar em 20% a irrigação do coração em seis meses. Algumas academias espalhadas pelo país já farejaram o filão e começaram a oferecer exercícios com direito a monitoramento da freqüência cardíaca. Na dieta, antigos mitos foram derrubados e hoje se sabe muito mais sobre como usar os alimentos para baixar os riscos de um ataque do coração (veja quadro). O ovo é um ótimo exemplo. Era o símbolo do colesterol até se descobrir que colesterol na comida não equivale matematicamente a colesterol na artéria. Agora, uma pessoa sem tendência a doença cardíaca pode comer quatro ovos por semana sem remorsos. Apesar de a gema ser uma riquíssima fonte de colesterol, sabe-se hoje que as gorduras saturadas, aquelas abundantes nos derivados de leite integral e nas carnes vermelhas, têm um potencial muito maior de aumentar as taxas de colesterol no sangue. Outra idéia falsa era que a margarina traz menos riscos do que a manteiga. Não é assim. Ambas contribuem de forma decisiva para agregar as placas de gordura nos vasos. As fibras, encontradas em legumes, cereais e frutas, agem no intestino, onde o colesterol é metabolizado, e ajudam a diminuir o LDL, o chamado colesterol ruim. É a mesma vantagem de uma substância chamada flavonóide, presente no vinho tinto, na cebola e no alho. Outra novidade, esta de laboratório, é o Benecol, uma margarina finlandesa composta de uma substância extraída de pinheiros que ajuda a combater o colesterol ruim. "Até aqui, o grande avanço para diminuir os riscos das doenças cardíacas foi feito pelos médicos, químicos e biólogos", analisa o cardiologista especializado em prevenção de doenças do coração Matt Sorrentino, da Universidade de Chicago. "A partir daí, cada vez mais, a saúde cardíaca dependerá das atitudes de cada um. É preciso esforço, mas, se a pessoa adotar hábitos favoráveis ao seu coração, dificilmente terá um infarto." Quando se pára para analisar por que o número de ataques cardíacos vem diminuindo no Brasil – e, de resto, nos países industrializados – fica evidente que boa parte disso se explica pela chegada à idade adulta de uma geração mais ligada em alimentação saudável e prática regular de esportes. Mas a mudança de hábito não justifica tudo. Certas condições não regridem sem que novas e potentes drogas sejam utilizadas. O desenvolvimento da família de drogas conhecidas como "estatinas" está entre as novidades mais significativas. Até o ano passado os médicos receitavam a lovastatina para baixar quimicamente os índices de colesterol e outras gorduras no sangue. Recentemente chegou ao mercado a atorvastatina, cujo nome comercial é Lipitor. Essa droga age com mais eficácia e sem os efeitos secundários das primeiras estatinas – cansaço e dores musculares. No caso da hipertensão, o uso de remédios foi vital. A diminuição no peso corporal e a redução do sal na dieta têm efeitos apenas passageiros sobre a pressão arterial. Com a palavra o médico Sidney Clawansky, da Escola de Sáude Pública de Harvard: "O uso de remédios de última geração permitiu diminuir para 10% o número de mortes associadas à hipertensão arterial".
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