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Tales
Alvarenga
Gigante adormecido
"Entre 90 países, o Brasil aparece
em 66º
lugar. Piores do que nós, só Turcomenistão,
Benin, Camarões, Gâmbia, Lesoto... É preciso
dizer mais?"
Caro leitor. Sempre que lhe apresentarem um
índice animador a respeito do desempenho brasileiro, peça
que lhe digam em que posição estão os outros
países. É preciso olhar para fora se você quer
entender o que acontece aqui dentro. O Brasil oscila levemente para
cima e para baixo há mais de vinte anos. E tem âncoras
de tal porte atrapalhando sua movimentação que deverá
levar uma geração, pelo menos, para conseguir algum
progresso digno de admiração. Tenho repetido isso
neste espaço nas últimas semanas, enquanto brasileiros,
embriagados de patriotismo, continuam insistindo que nossas exportações
nunca foram tão milionárias, que o crescimento do
PIB finalmente abriu as asas e que, maravilha das maravilhas, o
superávit primário será elevado de 4,25% para
4,50% do PIB! Sinceramente, não estou impressionado. Esses
números falam de gotas. Acho mais adequado falarmos de oceano.
Oceano: na semana passada, o Banco Mundial
divulgou uma pesquisa realizada em 53 países em desenvolvimento.
No trabalho, o Brasil aparece como um dos mais atrasados em matéria
de clima propício a investimentos. De 1.642
empresários ouvidos pelo Banco Mundial sobre o Brasil, 67%
apontaram a corrupção como um empecilho significativo
para investir no país e 51% admitiram que é preciso
pagar propina para fazer negócios. Na avaliação,
o Brasil aparece como um dos piores países do mundo para
resolver problemas através da Justiça, e só
três outras nações apresentam um ambiente mais
nefasto em matéria de criminalidade. No tópico dos
impostos, das leis trabalhistas e da concessão de crédito,
o Brasil foi apontado como o pior entre todos os 53 países.
Note-se que não se está comparando
o Brasil com as duas ou três dezenas de países ricos.
O buraco é mais embaixo. Perdemos na comparação
com a turma do Terceiro Mundo. A pesquisa não levantou dados
absolutos. Retrata a opinião dos entrevistados em cada país.
Há países mais corruptos que o Brasil, como a Rússia,
onde os investidores não acham esse detalhe tão prejudicial.
O que vale é a visão comparativa que se tem quando
o desempenho do Brasil é posto lado a lado com o de outras
nações.
O retrato é lamentável, mas
não mudará enquanto os brasileiros continuarem prisioneiros
de uma visão pontual a respeito do país, baseada em
estatísticas divulgadas a cada seis meses. É preciso
encarar nossa incompetência olho no olho. Boas notícias
de curto alcance devem ser apresentadas como excelentes pequenos
passos de uma longa caminhada. Por exemplo: na semana passada, o
Brasil teve sua cotação melhorada em matéria
de risco para investimentos. A agência internacional de classificação
de risco Fitch elevou a cotação brasileira de B+ para
BB-. O fato foi comemorado como grande conquista. Essa conquista,
no entanto, leva o Brasil de volta para a cotação
que já tinha em junho de 2002. Pior do que isso, na lista
de 90 países avaliados, o Brasil aparece em 66º lugar.
Piores do que nós, só 24 países. Quer saber
seus nomes? Turcomenistão, Benin, Camarões, Gâmbia,
Gana, Indonésia, Lesoto... É preciso dizer mais? É
a isso que chamo de examinar as coisas pelo ângulo relativo.
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