Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Tales Alvarenga
Gigante adormecido

"Entre 90 países, o Brasil aparece em 66º
lugar. Piores do que nós, só Turcomenistão,
Benin, Camarões, Gâmbia, Lesoto... É preciso
dizer mais?"

Caro leitor. Sempre que lhe apresentarem um índice animador a respeito do desempenho brasileiro, peça que lhe digam em que posição estão os outros países. É preciso olhar para fora se você quer entender o que acontece aqui dentro. O Brasil oscila levemente para cima e para baixo há mais de vinte anos. E tem âncoras de tal porte atrapalhando sua movimentação que deverá levar uma geração, pelo menos, para conseguir algum progresso digno de admiração. Tenho repetido isso neste espaço nas últimas semanas, enquanto brasileiros, embriagados de patriotismo, continuam insistindo que nossas exportações nunca foram tão milionárias, que o crescimento do PIB finalmente abriu as asas e que, maravilha das maravilhas, o superávit primário será elevado de 4,25% para 4,50% do PIB! Sinceramente, não estou impressionado. Esses números falam de gotas. Acho mais adequado falarmos de oceano.

Oceano: na semana passada, o Banco Mundial divulgou uma pesquisa realizada em 53 países em desenvolvimento. No trabalho, o Brasil aparece como um dos mais atrasados em matéria de clima propício a investimentos. De 1.642 empresários ouvidos pelo Banco Mundial sobre o Brasil, 67% apontaram a corrupção como um empecilho significativo para investir no país e 51% admitiram que é preciso pagar propina para fazer negócios. Na avaliação, o Brasil aparece como um dos piores países do mundo para resolver problemas através da Justiça, e só três outras nações apresentam um ambiente mais nefasto em matéria de criminalidade. No tópico dos impostos, das leis trabalhistas e da concessão de crédito, o Brasil foi apontado como o pior entre todos os 53 países.

Note-se que não se está comparando o Brasil com as duas ou três dezenas de países ricos. O buraco é mais embaixo. Perdemos na comparação com a turma do Terceiro Mundo. A pesquisa não levantou dados absolutos. Retrata a opinião dos entrevistados em cada país. Há países mais corruptos que o Brasil, como a Rússia, onde os investidores não acham esse detalhe tão prejudicial. O que vale é a visão comparativa que se tem quando o desempenho do Brasil é posto lado a lado com o de outras nações.

O retrato é lamentável, mas não mudará enquanto os brasileiros continuarem prisioneiros de uma visão pontual a respeito do país, baseada em estatísticas divulgadas a cada seis meses. É preciso encarar nossa incompetência olho no olho. Boas notícias de curto alcance devem ser apresentadas como excelentes pequenos passos de uma longa caminhada. Por exemplo: na semana passada, o Brasil teve sua cotação melhorada em matéria de risco para investimentos. A agência internacional de classificação de risco Fitch elevou a cotação brasileira de B+ para BB-. O fato foi comemorado como grande conquista. Essa conquista, no entanto, leva o Brasil de volta para a cotação que já tinha em junho de 2002. Pior do que isso, na lista de 90 países avaliados, o Brasil aparece em 66º lugar. Piores do que nós, só 24 países. Quer saber seus nomes? Turcomenistão, Benin, Camarões, Gâmbia, Gana, Indonésia, Lesoto... É preciso dizer mais? É a isso que chamo de examinar as coisas pelo ângulo relativo.

 
 
 
 
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