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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Perigos, tombos
e esperança
O significado das lajes, em vez de
telhados, sobre as casas um traço
típico das moradias brasileiras
Esta é uma história que começa
com pessoas desabando do topo de suas casas e termina com uma interpretação
do Brasil. O médico Sérgio Branco Soares Jr., recém-formado
pela Universidade Federal Fluminense, deparou com um fenômeno
que o intrigava quando começou a trabalhar, em meados da
década de 80, no hospital Antônio Pedro, voltado para
a população pobre de Niterói: pacientes vitimados
por tombos do alto das lajes de suas casinhas constituíam
um caso dolorosamente rotineiro. Sérgio Branco ganhou uma
bolsa para estudar neurocirurgia em Osaka, no Japão, e a
permanência por aquelas bandas, que era para durar um par
de anos, prolongou-se por uma década. Retornou ao Brasil
em 1999. Foi então trabalhar em São Paulo, de novo
numa área pobre, e o fenômeno voltou a espantá-lo,
agora com redobrada força: as pessoas não só
continuavam a despencar das lajes, mas a freqüência com
que o faziam era maior.
A casa coberta por uma laje, em lugar de telhado,
é uma manifestação tão típica
da arquitetura brasileira de moradia quanto os iglus cobertos de
gelo na arquitetura dos esquimós. Nos bairros pobres ou favelas,
a laje é universalmente preferida a outro tipo de cobertura.
Casas em forma de caixote, com as paredes de blocos aparentes
eis a visão dominante nas áreas mais populosas das
cidades brasileiras. As casas-caixotes, muitas vezes encarapitadas
nas encostas de morros, sempre espremidas umas junto às outras,
não sugerem, ao gosto convencional, a mesma elegância
de casas arrematadas com as alternativas angulosas das coberturas
de telhas. Mas, com boa vontade, pode-se olhar para a Rocinha, no
Rio de Janeiro, e concluir que não se trata propriamente
de falta de estética, e sim de uma outra estética.
Por que as pessoas caem das lajes? Sérgio
Branco pôs-se a pesquisar o assunto. Para começar,
é preciso ter em mente o princípio de que a laje não
é um pedaço morto da casa, ao qual não se tem
acesso, como os telhados. É uma área de serviço
e de lazer. As mulheres estendem roupa lá em cima. As crianças
brincam. Os jovens se estendem ao sol ou namoram. No fim de semana,
o churrasco é lá. Enquanto brincam, as crianças
podem dar um passo em falso e despencar. Nos fins de semana, depois
de uns tantos copos de cerveja, os adultos estarão propensos
a perder o equilíbrio. Sérgio Branco, que hoje comanda
o departamento de neurocirurgia do hospital municipal de Ermelino
Matarazzo, na periferia de São Paulo, conta de um a três
casos diários de tombo de laje. Se o número aumentou
com relação à década de 80, quando ele
começou a atentar para o problema, não é apenas
por estar em São Paulo, onde a população é
maior. É também por ter crescido por todo o país,
nesse intervalo, a opção pelas coberturas de laje.
Há dois anos e meio, Sérgio
Branco criou o Projeto Laje. Para esse médico insatisfeito
com o comercialismo da medicina de hoje, e convencido da dignidade
do serviço público, foi uma oportunidade não
só de atacar um problema, mas de mergulhar na realidade das
comunidades atendidas pelo hospital onde trabalha, algo que considera
fundamental para o desempenho de suas funções. O projeto
começou com palestras de conscientização e
desdobrou-se em duas outras vertentes: mutirões para construir
muretas de proteção nas lajes e trabalhos para a reinserção
social das vítimas graves de quedas. As palestras no começo
ocorriam no hospital e reuniam de 100 a 150 pessoas. Depois passaram
a ser feitas também em escolas, igrejas e centros comunitários,
e chegaram a atrair até 400 ouvintes.
A mais singela providência de prevenção
à queda de lajes é a construção de muretas.
Dos mutirões para esse fim participa o próprio Sérgio
Branco, e não custa nada para o beneficiário, mas
mesmo assim a medida encontra resistência. "Por que construir
isso se vamos destruir depois?", perguntam os moradores. É
que, para entender a laje, é preciso ter em conta que ela
embute um sonho. As famílias imaginam que, um dia, construirão
sobre ela mais um pavimento. É por isso, mais que por outro
motivo, que preferem esse tipo de cobertura. Trata-se de uma afirmação
de esperança. Confia-se que, um dia, a família conseguirá
bancar a expansão do espaço residencial. Os mais propensos
a concordar em erguer as muretas são aqueles em cujas casas
já ocorreram acidentes.
A interpretação do Brasil que
decorre do estudo da laje tem início com as comparações
que Sérgio Branco faz com outros países. No Japão,
assim como na Europa e nos Estados Unidos, não há
construções desse tipo. Os países ricos as
dispensam de suas paisagens. Na África também não
há. Ali, ainda se está na fase do barraco de madeira.
Cobertura de laje existe em outros países da América
do Sul, na Índia e no Sudeste Asiático, regiões
em estágio similar ao do Brasil. Economistas distinguem na
história dos países as fases dos produtos primários,
da substituição de importações, da industrialização
etc. As observações de Sérgio Branco conduzem
a critério diferente. O Brasil, por elas, se encontra na
fase da laje.
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