Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Livros
Um dedicado
burocrata do mal

Historiador russo compõe uma
biografia dura e objetiva do tirano
que matou 20 milhões de pessoas


Jerônimo Teixeira


Arquivo de Dimitri Volkogonov
Lenin e Stalin: a história oficial consagrou a tese dos "dois líderes". Stalin, porém, teve papel insignificante na revolução

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Primeiro capítulo do livro

No tempo em que viviam na clandestinidade, os revolucionários russos costumavam adotar curiosos pseudônimos na esperança de driblar a polícia czarista. Vladimir Ulyanov buscou inspiração no Rio Lena, na Sibéria, onde esteve exilado, para se converter em Lenin. Leon Bronstein adotou o nome de um de seus guardas na prisão, Trotsky. Filho de um sapateiro pobre e beberrão da Geórgia, Josef Vissarionovich Djugashvili mostrou sua propensão megalômana na escolha do nome de guerra: passou a se chamar Stalin, que em russo significa homem de aço. O primeiro tomo da biografia Stalin – Triunfo e Tragédia (tradução de Joubert de Oliveira Brízida; Nova Fronteira; 376 páginas; 39 reais), de Dmitri Volkogonov, confirma o acerto do nome. Com a frieza e a dureza próprias do aço, Josef Stalin converteu-se em um dos maiores assassinos de massa do século XX.

O primeiro tomo cobre de 1879, o ano de nascimento de Stalin, até 1939. O segundo tomo, a ser lançado no fim deste mês, vai até a morte do ditador, em 1953. A obra vem sanar uma falta grave nas livrarias brasileiras, nas quais não se encontrava uma biografia equilibrada do líder soviético. Extensivamente documentado com material de arquivo do Partido Comunista, o livro de Volkogonov foi publicado originalmente no início dos anos 90. O autor é um desses casos de esquizofrenia ideológica que vicejam em contextos totalitários. Seu pai foi executado pela repressão stalinista em 1937. Volkogonov, no entanto, fez carreira no Exército Vermelho, em cujo departamento de propaganda trabalhou por muito tempo. Enquanto doutrinava jovens cadetes no marxismo-leninismo, pesquisava para compor um retrato duro e objetivo de Stalin. O historiador morreu de câncer, em 1995, com 67 anos. Sua última obra, uma alentada revisão geral da experiência soviética intitulada Autópsia de um Império, mostra uma desilusão radical com o sistema ao qual Volkogonov serviu. Em Stalin, ele ainda apresentava o ditador como um desvio dos "ideais socialistas" supostamente acalentados pelo povo soviético.

O Stalin retratado por Volkogonov é um composto contraditório de mediocridade intelectual e esperteza política. A despeito do culto à personalidade que instituiu na União Soviética, ele não gostava de conviver com a massa. Era fraco como orador. Na revolução de outubro de 1917, quando os bolcheviques tomaram o poder, seu papel foi menos que secundário (mais tarde, a historiografia oficial inventaria a teoria dos "dois líderes", segundo a qual Stalin teria sido, sempre, o segundo de Lenin). Escritor tosco, Stalin nunca conseguiu alçar-se à condição de teórico marxista, como foi o caso de Lenin, Trotsky e alguns outros camaradas. Em certo sentido, porém, ninguém entendeu tão bem quanto ele a natureza do regime comunista. Sabia manobrar a estrutura autoritária do partido. Ao tempo em que se decidia a sucessão de Lenin, muitos preferiram Stalin a Trotsky, considerado um tipo arrogante e astucioso. O pretendente a tirano compôs alianças momentâneas – e não hesitou em desfazê-las adiante, quando expurgou e mandou matar quase todos os bolcheviques de primeira hora. Como secretário-geral do Politburo, levou a centralização do poder ao extremo. No entanto, quando alguém vinha lhe pedir clemência para um preso político condenado, o ditador encenava o papel do funcionário dedicado obedecendo aos ditames do sistema: dizia que o caso não estava em suas mãos.

Volkogonov estima em torno de 9 milhões o número de pessoas atingidas pela coletivização do campo, conduzida com mão de ferro pelo regime soviético a partir de 1929. A maioria morreu no gelado exílio da Sibéria. A estimativa do historiador é na verdade conservadora – o próprio Stalin falava em 10 milhões. O número total de vítimas do stalinismo até hoje é incerto e varia de historiador para historiador. Deve ficar em torno de 20 milhões. É por causa dessa cifra tétrica que o stalinismo é hoje um anátema até mesmo na esquerda. Salvo exceções patológicas, ninguém se apresenta como stalinista. O trotskismo parece uma doutrina mais charmosa. Trotsky foi o mais loquaz opositor de Stalin – que mandou matá-lo no México, em 1940 –, e muitos esquecem ou perdoam sua crença na militarização do trabalho e sua conduta draconiana como comandante do Exército Vermelho. Stalin foi sem dúvida um dos maiores criminosos do século passado. Mas, entre os comunistas expurgados, havia outros tantos criminosos em potencial. Não podia ser diferente: o sistema era criminoso. Stalin era apenas um burocrata – o mais dedicado funcionário do mal que o século XX conheceu.

 
 
 
 
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