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Livros
Um dedicado
burocrata do mal
Historiador russo compõe uma
biografia dura e objetiva do tirano
que matou 20 milhões de pessoas

Jerônimo Teixeira
Arquivo de Dimitri Volkogonov
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| Lenin e Stalin: a história oficial
consagrou a tese dos "dois líderes". Stalin,
porém, teve papel insignificante na revolução
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No tempo em que viviam na clandestinidade,
os revolucionários russos costumavam adotar curiosos pseudônimos
na esperança de driblar a polícia czarista. Vladimir
Ulyanov buscou inspiração no Rio Lena, na Sibéria,
onde esteve exilado, para se converter em Lenin. Leon Bronstein
adotou o nome de um de seus guardas na prisão, Trotsky. Filho
de um sapateiro pobre e beberrão da Geórgia, Josef
Vissarionovich Djugashvili mostrou sua propensão megalômana
na escolha do nome de guerra: passou a se chamar Stalin, que em
russo significa homem de aço. O primeiro tomo da biografia
Stalin Triunfo e Tragédia (tradução
de Joubert de Oliveira Brízida; Nova Fronteira; 376 páginas;
39 reais), de Dmitri Volkogonov, confirma o acerto do nome. Com
a frieza e a dureza próprias do aço, Josef Stalin
converteu-se em um dos maiores assassinos de massa do século
XX.
O primeiro tomo cobre de 1879, o ano de nascimento
de Stalin, até 1939. O segundo tomo, a ser lançado
no fim deste mês, vai até a morte do ditador, em 1953.
A obra vem sanar uma falta grave nas livrarias brasileiras, nas
quais não se encontrava uma biografia equilibrada do líder
soviético. Extensivamente documentado com material de arquivo
do Partido Comunista, o livro de Volkogonov foi publicado originalmente
no início dos anos 90. O autor é um desses casos de
esquizofrenia ideológica que vicejam em contextos totalitários.
Seu pai foi executado pela repressão stalinista em 1937.
Volkogonov, no entanto, fez carreira no Exército Vermelho,
em cujo departamento de propaganda trabalhou por muito tempo. Enquanto
doutrinava jovens cadetes no marxismo-leninismo, pesquisava para
compor um retrato duro e objetivo de Stalin. O historiador morreu
de câncer, em 1995, com 67 anos. Sua última obra, uma
alentada revisão geral da experiência soviética
intitulada Autópsia de um Império, mostra uma
desilusão radical com o sistema ao qual Volkogonov serviu.
Em Stalin, ele ainda apresentava o ditador como um desvio
dos "ideais socialistas" supostamente acalentados pelo povo soviético.
O Stalin retratado por Volkogonov é
um composto contraditório de mediocridade intelectual e esperteza
política. A despeito do culto à personalidade que
instituiu na União Soviética, ele não gostava
de conviver com a massa. Era fraco como orador. Na revolução
de outubro de 1917, quando os bolcheviques tomaram o poder, seu
papel foi menos que secundário (mais tarde, a historiografia
oficial inventaria a teoria dos "dois líderes", segundo a
qual Stalin teria sido, sempre, o segundo de Lenin). Escritor tosco,
Stalin nunca conseguiu alçar-se à condição
de teórico marxista, como foi o caso de Lenin, Trotsky e
alguns outros camaradas. Em certo sentido, porém, ninguém
entendeu tão bem quanto ele a natureza do regime comunista.
Sabia manobrar a estrutura autoritária do partido. Ao tempo
em que se decidia a sucessão de Lenin, muitos preferiram
Stalin a Trotsky, considerado um tipo arrogante e astucioso. O pretendente
a tirano compôs alianças momentâneas e
não hesitou em desfazê-las adiante, quando expurgou
e mandou matar quase todos os bolcheviques de primeira hora. Como
secretário-geral do Politburo, levou a centralização
do poder ao extremo. No entanto, quando alguém vinha lhe
pedir clemência para um preso político condenado, o
ditador encenava o papel do funcionário dedicado obedecendo
aos ditames do sistema: dizia que o caso não estava em suas
mãos.
Volkogonov estima em torno de 9 milhões
o número de pessoas atingidas pela coletivização
do campo, conduzida com mão de ferro pelo regime soviético
a partir de 1929. A maioria morreu no gelado exílio da Sibéria.
A estimativa do historiador é na verdade conservadora
o próprio Stalin falava em 10 milhões. O número
total de vítimas do stalinismo até hoje é incerto
e varia de historiador para historiador. Deve ficar em torno de
20 milhões. É por causa dessa cifra tétrica
que o stalinismo é hoje um anátema até mesmo
na esquerda. Salvo exceções patológicas, ninguém
se apresenta como stalinista. O trotskismo parece uma doutrina mais
charmosa. Trotsky foi o mais loquaz opositor de Stalin que
mandou matá-lo no México, em 1940 , e muitos
esquecem ou perdoam sua crença na militarização
do trabalho e sua conduta draconiana como comandante do Exército
Vermelho. Stalin foi sem dúvida um dos maiores criminosos
do século passado. Mas, entre os comunistas expurgados, havia
outros tantos criminosos em potencial. Não podia ser diferente:
o sistema era criminoso. Stalin era apenas um burocrata o
mais dedicado funcionário do mal que o século XX conheceu.
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