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Preconceito,
pré-conceito A
simplificação moral dos "despreconceituosos" é coisa que
me boquiabre. Os caras mais preconceituosos são justamente os possuidores
dessa crença enganosa e ocasionalmente odiosa que se chama
despreconceito. Não conheço ninguém ninguém
que não seja preconceituoso. Mas conheço toneladas de fingidos,
de hipócritas, muitas vezes até, inconscientemente, covardes. Conheço
só um cara absolutamente despreconceituoso o locutor que vos fala.
E isso apenas porque não tenho a inocência do despreconceito. Ferozmente
autocrítico, sei que, se me deixar solto, sou racista, machista, elitista,
argentário, reacionário, escravagista e todo o demais repertório.
Mas jamais serei apanhado na armadilha da imaculada pureza de mim mesmo. Quando,
em 1972, circunstâncias políticas dramáticas fizeram com que
eu assumisse a direção do Pasquim, um jornal de certa importância
na época, reuni a "patota" e falei brevemente: "Todos esses erros e esculhambações
aconteceram porque somos todos abertíssimos, libertários, sublimes.
Mas só pode agir com alguma dignidade, mínima possibilidade de acerto,
quem aceita a certeza fundamental de que é, visceralmente, um FDP. O santo
bate carteira com a maior facilidade: está, para si próprio, acima
de qualquer suspeita. Simplificando: vou botar isto aqui numa condição
moral insuportável". Um "companheiro" esperto levantou a voz: "O que é
condição moral insuportável?" Respondi: "Você vai ver".
E, no período do jornal pelo qual me responsabilizo 72 a 75 ,
ele viu. Todos vimos.
Bem, o que é "condição moral"? Pensar sempre a todo risco.
Não ter medo do que é "universalmente" aceito. Não aceitar
slogans, bandeiras, pratos feitos. Desconfiar de qualquer idéia com mais
de seis meses de idade. Desconfiar de todo idealista que lucra com seu ideal.
E por aí vai. Reuters
 | | HAITI,
SETEMBRO DE 2004 |
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