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Diogo
Mainardi
A culpa não é da elite
"Lula costuma dizer que a elite não
fez nada
pelo país. O problema
é que não somos
produto da elite, e sim de uma burguesia
tenentista tão bem representada pelo próprio Lula"
Os cariocas são inconsistentes. Os paraenses,
descansados. Os gaúchos só pensam em guerrear. Se
os brasileiros querem sair do lugar, precisam seguir o único
modelo que deu certo no Brasil: os paulistanos. Eles são
superiores em tudo, da distribuição de jornais à
arte de saber viver. São Paulo tem um ar europeu. É
como Milão ou Turim. Só que melhor, por sua habilidade
de negócios americana, onde todos trabalham e procuram prosperar,
fazendo prosperar o país. São Paulo não tem
mendigos, como esse colossal centro de pavores que se chama Rio
de Janeiro. É a capital cultural do Brasil, a cidadela sagrada
do espírito da raça no coração da pátria,
o foco do ensinamento da nacionalidade, o berço de nossa
civilização. Sua missão é guiar o país.
As afirmações acima são
do carioca João do Rio. Estão em Um Dândi
na Cafelândia, uma antologia de seus artigos sobre São
Paulo, publicados entre 1908 e 1921. João do Rio dizia que
sua admiração por São Paulo era uma expressão
de seu patriotismo. Um patriotismo incomum, que não se manifestava
considerando "tudo quanto é nosso o primeiro do mundo". Ao
contrário. Patriotismo, para ele, era "procurar tornar o
país igual aos mais civilizados". Era o que São Paulo
fazia, em sua opinião: rechaçava a mentalidade atrasada
dos brasileiros, imitando bem-sucedidos exemplos estrangeiros. Esse
sempre foi o grande dilema da cultura nacional: exaltar nossas especificidades
ou macaquear o que vinha de fora? Depois de debater a questão
exaustivamente, por mais de um século, chegamos a um desastrado
meio-termo: ao mesmo tempo em que não conseguimos criar uma
sociedade organizada, baseada num modelo próprio, também
não macaqueamos direito os exemplos externos.
Claro que a visão de João do
Rio é mistificatória. Claro que São Paulo nunca
foi igual a uma cidade européia. Claro que é uma porcaria,
como o resto do Brasil. Mas a jequice deslumbrada de João
do Rio é um bom contraponto à historiografia oficial.
A oligarquia cafeeira paulista sempre foi identificada com os aspectos
mais arcaicos do país. A acusação mais infamante
é que ela nunca teve um projeto de desenvolvimento nacional,
mas só um projeto de dominação e manutenção
do poder. Não é verdade. Os políticos paulistas
da República Velha tinham um projeto para o Brasil. Podia
ser insustentável, podia ser injusto com os Estados mais
pobres, mas era um projeto. Macaqueando o modelo americano, eles
defendiam um federalismo extremo, com uma completa descentralização
administrativa. Esse projeto autonomista foi enterrado definitivamente
pelo golpe de 1930, que deu origem ao Estado autoritário
e centralizado que até hoje domina o Brasil.
Lula costuma dizer que a elite não
fez nada pelo país. O problema é que não somos
produto da elite, e sim de uma pequena burguesia tenentista tão
bem representada pelo próprio Lula. Não surpreende
que ele não tenha tentado mudar o Estado. Afinal, o Estado
corresponde perfeitamente ao seu projeto de poder. O tenentista
Lula é a maior força conservadora do Brasil.
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