Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Diogo Mainardi
A culpa não é da elite

"Lula costuma dizer que a elite não fez nada
pelo país.
O problema é que não somos
produto da elite, e sim de uma burguesia
tenentista tão bem representada pelo próprio Lula"

Os cariocas são inconsistentes. Os paraenses, descansados. Os gaúchos só pensam em guerrear. Se os brasileiros querem sair do lugar, precisam seguir o único modelo que deu certo no Brasil: os paulistanos. Eles são superiores em tudo, da distribuição de jornais à arte de saber viver. São Paulo tem um ar europeu. É como Milão ou Turim. Só que melhor, por sua habilidade de negócios americana, onde todos trabalham e procuram prosperar, fazendo prosperar o país. São Paulo não tem mendigos, como esse colossal centro de pavores que se chama Rio de Janeiro. É a capital cultural do Brasil, a cidadela sagrada do espírito da raça no coração da pátria, o foco do ensinamento da nacionalidade, o berço de nossa civilização. Sua missão é guiar o país.

As afirmações acima são do carioca João do Rio. Estão em Um Dândi na Cafelândia, uma antologia de seus artigos sobre São Paulo, publicados entre 1908 e 1921. João do Rio dizia que sua admiração por São Paulo era uma expressão de seu patriotismo. Um patriotismo incomum, que não se manifestava considerando "tudo quanto é nosso o primeiro do mundo". Ao contrário. Patriotismo, para ele, era "procurar tornar o país igual aos mais civilizados". Era o que São Paulo fazia, em sua opinião: rechaçava a mentalidade atrasada dos brasileiros, imitando bem-sucedidos exemplos estrangeiros. Esse sempre foi o grande dilema da cultura nacional: exaltar nossas especificidades ou macaquear o que vinha de fora? Depois de debater a questão exaustivamente, por mais de um século, chegamos a um desastrado meio-termo: ao mesmo tempo em que não conseguimos criar uma sociedade organizada, baseada num modelo próprio, também não macaqueamos direito os exemplos externos.

Claro que a visão de João do Rio é mistificatória. Claro que São Paulo nunca foi igual a uma cidade européia. Claro que é uma porcaria, como o resto do Brasil. Mas a jequice deslumbrada de João do Rio é um bom contraponto à historiografia oficial. A oligarquia cafeeira paulista sempre foi identificada com os aspectos mais arcaicos do país. A acusação mais infamante é que ela nunca teve um projeto de desenvolvimento nacional, mas só um projeto de dominação e manutenção do poder. Não é verdade. Os políticos paulistas da República Velha tinham um projeto para o Brasil. Podia ser insustentável, podia ser injusto com os Estados mais pobres, mas era um projeto. Macaqueando o modelo americano, eles defendiam um federalismo extremo, com uma completa descentralização administrativa. Esse projeto autonomista foi enterrado definitivamente pelo golpe de 1930, que deu origem ao Estado autoritário e centralizado que até hoje domina o Brasil.

Lula costuma dizer que a elite não fez nada pelo país. O problema é que não somos produto da elite, e sim de uma pequena burguesia tenentista tão bem representada pelo próprio Lula. Não surpreende que ele não tenha tentado mudar o Estado. Afinal, o Estado corresponde perfeitamente ao seu projeto de poder. O tenentista Lula é a maior força conservadora do Brasil.

 
 
 
 
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