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Entrevista: Giorgio
Armani
Roupa é para durar
O estilista italiano diz que ignora tendências,
faz moda do seu jeito e que é triste aposentar
um bom vestido com seis meses de uso

Bel Moherdaui
Todo de preto, calça larga e camiseta
agarradinha, pele bronzeada contrastando com a cabeleira prateada,
o italiano Giorgio Armani parece debochar dos 70 anos completados
em julho. Ele também incorpora a imagem de seu estilo: o
clássico contemporâneo, limpo, despojado e milimetricamente
descomplicado. Um dos poucos estilistas da sua geração
ainda em atividade e dono da própria grife, Armani comanda
de perto o grupo que leva seu nome, com 250 lojas espalhadas pelo
mundo, incluindo quatro no Brasil. Não só não
se intimida diante dos jovens e atrevidos estilistas que com ele
disputam cliente a cliente o mercado de luxo, como critica a criação
incessante de tendências pela indústria da moda. Mas,
realista, sabe que é preciso inovar sempre. Sua receita:
manter o estilo, apostando, ao mesmo tempo, na constante diversificação
da marca. Só de roupa, o grupo Armani tem linhas que vão
do infantil (Armani Junior) ao adulto abastado (Giorgio Armani),
passando pelo jovem recém-seduzido (Emporio Armani e Armani
Jeans) e pelo profissional (Armani Collezioni) já estabelecido,
mas que ainda não tem tanto dinheiro para gastar ou
"investir", como diz. Ele acabou de abrir uma loja em Xangai e pretende
montar uma rede de hotéis de luxo nos próximos sete
anos. Logo depois de apresentar o seu primeiro desfile da temporada,
na semana passada, em Milão, Armani falou a VEJA.
Veja Como conciliar estilo
próprio e sucesso comercial?
Armani No começo da minha carreira, quando
eu trabalhava comprando coleções para uma loja, aprendi
que a roupa que vende é aquela que pode ser usada pelo maior
tempo possível. É isso que o consumidor quer. Eu não
gosto da idéia de que um vestido que deu tanto trabalho para
ser confeccionado em seis meses estará aposentado. Um bom
vestido é como um bom terno, feito para durar. Além
disso, como eu tenho cinco linhas diferentes (Armani Jeans, Armani
Exchange, Emporio Armani, Armani Collezioni e Giorgio Armani, sem
contar a infantil, Armani Junior), posso satisfazer cinco tipos
diferentes de homem e mulher.
Veja É possível
manter padrões de qualidade sólidos e agradar a uma
enorme variedade de clientes em tantos países?
Armani Dou muita atenção aos detalhes,
procurando, ao mesmo tempo, ser constante no meu modo de ver a moda.
Estamos presentes em 37 países e não tenho como fazer
uma coleção especial para cada um. Procuro ser fiel
àquilo em que eu acredito, e isso acaba caindo no gosto dos
clientes.
Veja Numa atividade em que
todo mundo vive procurando a última novidade, ou o estilista
do momento, o senhor já teve a sensação de
que está ficando ultrapassado? Como enfrenta isso?
Armani Apresentando coleções que sejam
criativas e que façam sonhar. Não preciso mostrar
em todas as passarelas, em todas as temporadas, o terno com três
botões. Todo mundo o conhece e ele estará sempre nas
minhas lojas. O maior desafio é sempre manter a capacidade
de provocar impacto e a energia.
Veja O senhor costura?
Armani Não, nem sei dar nenhum ponto. Claro
que, se precisar, consigo, porque com as mãos sou capaz de
fazer tudo.
Veja Suas coleções
são feitas à moda tradicional, começando com
o desenho dos modelos?
Armani Hoje em dia o desenho não é mais
tão importante. Desenhar é um costume antigo. Às
vezes, uma idéia vem de um rascunho que eu faço, ou
que alguém da minha equipe faz. Mas normalmente eu me reúno
com a equipe de criação, ela traz idéias e
tecidos, muitas vezes peças já prontas, e nós
discutimos se devemos seguir este ou aquele caminho. Cada vez menos
usamos o desenho, simplesmente porque ele mexe muito pouco com os
sentidos, está muito distante da roupa.
Veja O senhor usa sempre
exatamente o mesmo tipo de roupa. Por quê?
Armani Adotei um "uniforme" que uso sempre. De dia,
jeans ou calça esporte escura com camiseta branca ou azul-marinho,
suéter da mesma cor e blazer esportivo. De noite, camisa
com gola indiana e paletó mais formal. Tudo, geralmente,
das minhas coleções, embora de vez em quando também
use outros estilistas. É a roupa que acho adequada e na qual
me sinto confortável.
Veja Que estilistas o senhor
admira?
Armani Difícil dar um nome. Posso admirar
de vários modos. Gosto muito do John Galliano por sua genialidade,
sua poesia louca. Do Jean-Paul Gaultier porque ele procura sempre
dar um toque pessoal àquilo que faz é fácil
reconhecer o trabalho dele. Eu gosto daquilo que não fica
preso a uma tendência. Hoje, principalmente no prêtporter,
as tendências são, em grande parte, ditadas por toda
a indústria da moda, incluindo aí jornais e revistas.
Eu me sinto um pouco isolado de tudo isso. Faço a moda do
meu jeito, o que muitas vezes é o oposto da tendência.
Veja Tomando então
Galliano como exemplo: qual a diferença entre um desfile
dele para a Christian Dior e os seus?
Armani O Galliano faz um desfile pelo espetáculo,
faz uma coisa excêntrica, impossível. É muito
livre. Eu estou preocupado com o meu negócio. Faço
um desfile com aquilo que vende nas lojas, mostrado da forma que
as pessoas realmente vão poder entender e usar.
Veja E entre os estilistas
de outras épocas, qual o senhor citaria?
Armani Yves Saint Laurent, porque ele ama as mulheres
e cria para deixá-las bonitas.
Veja Só neste ano,
Versace, Ungaro e Givenchy deixaram de apresentar suas coleções
de alta-costura. Antes deles, muitos outros, como o próprio
Saint Laurent, Thierry Mugler e Paco Rabanne. A alta-costura está
acabando?
Armani Ela está mudando. Ainda há
algumas pessoas que procuram por ela, existem mulheres que têm
muito dinheiro e querem se vestir de maneira diferente, personalizada,
e pagam por isso. Só que são poucas as que podem ter
um vestido de sonho. Ele é o topo. É como ter um diamante
grande: a maioria das pessoas comprará outros parecidos,
mas menores, caso do prêtporter, em que as coleções
estão muito mais próximas da realidade.
Veja Se são poucas
as mulheres que têm condições de comprar esses
vestidos, ainda faz sentido manter uma parte do negócio voltada
para elas?
Armani Na verdade, quase já não se vê
a produção de vestidos sob medida, porque são
muito caros. Um caminho que encontrei para manter o gosto pelo exclusivo
e que estou começando a colocar em prática são
os trunk shows, desfiles montados na própria loja,
em algumas cidades, um pouco antes do início da temporada,
para aquele grupo específico de clientes em condições
de adquirir peças únicas. Elas poderão escolher
o que desejam e receberão a roupa na sua numeração,
dali a dois ou três meses. Embora o vestido não seja
feito para o corpo da cliente, como na alta-costura tradicional,
esse não deixa de ser um serviço de luxo, um tratamento
exclusivo, uma vez que naquela cidade não será mais
vendido nenhum modelo igual. Digamos que é um prêtporter
de alto luxo.
Veja O Brasil já esteve
no roteiro de suas famosas viagens de barco?
Armani Estive lá duas vezes, mas há
quinze ou vinte anos, e só no Rio de Janeiro, no Carnaval.
Posso dizer que me diverti muito. Os brasileiros são muito
divertidos, cheios de vida, vibrantes. Também sabem ser sexy,
provocantes, sem cair na vulgaridade. Tenho uma amiga brasileira,
Penelope, que namora um rapaz da minha equipe. Ela é modelo,
trabalha para mim com freqüência e já viajou conosco
nas férias. É muito gentil, muito linda e muito emotiva.
Como são emotivas as brasileiras! Da mesma forma que riem,
têm sempre uma lágrima escorrendo. Tão dramáticas!
Veja O senhor não
costuma trabalhar com Gisele Bündchen. Não gosta dela?
Armani Gisele é belíssima. Mas aqui
ela está muito ligada à imagem de Dolce & Gabbana.
Além disso, Gisele é muito cara. No desfile do Emporio
Armani, hoje, tive oitenta modelos. Se coloco Gisele para desfilar,
não posso pôr mais ninguém. Se eu tivesse apenas
dez modelos, ou então dez tops, aí sim precisaria
da Gisele. Acho as modelos brasileiras muito bonitas. Nunca me esqueço
de uma dos anos 80, também chamada Gisele (Zelauy).
Era lindíssima, sofisticadíssima. Tinha um rosto muito
forte, um nariz grande. Era minha modelo favorita.
Veja O senhor veste muitas artistas,
principalmente para a festa do Oscar. Elas dão muito trabalho?
Armani E como. De maneira geral, elas são muito inseguras.
São muito influenciadas por todos os que estão ao
seu redor: stylist, cabeleireiro, mídia. Elas não
têm muita personalidade e por isso não conseguem definir
um estilo próprio. Têm pavor de errar. Você tem
de passar horas com elas.
Veja Quem já se superou
no quesito insegurança?
Armani Uma vez fiquei quatro horas com a Mira Sorvino,
para experimentar seis vestidos. Ela estava aterrorizada. Hoje,
melhorou muito, está muito mais bonita, muito mais segura.
Isso foi bem no começo. Já Michelle Pfeiffer e Jodie
Foster sabem exatamente do que gostam. Annette Bening sempre escolhe
de maneira excepcional. Mas a maioria das atrizes é muito
condicionada ao último grito da moda, à última
tendência, ao que sai nas revistas e nos jornais como sendo
o máximo. Ainda que seja um vestido feio ou que não
caia bem nelas.
Veja Ultimamente o senhor
tem trabalhado bastante com esportistas. Veste o time inglês
de futebol, agora também a seleção italiana
de basquete e chamou o brasileiro Kaká para estrelar uma
de suas campanhas. Por quê?
Armani O esporte, como a música, atrai muitos
jovens. Não tem fronteiras, não tem diferenças.
E esse tipo de público cosmopolita é o meu público-alvo.
O esporte agrada a todos. Além disso, tem a vantagem de que,
em geral, os esportistas são muito bonitos. São quase
modelos e, ao mesmo tempo, são ídolos. Se vestem Armani,
melhor ainda.
Veja O grupo Armani já
vende óculos, maquiagem, objetos de decoração,
até flores e doces. Recentemente o senhor fechou um grande
negócio para fazer hotéis e resorts. Qual o próximo
passo?
Armani Não quero dar uma resposta trágica.
O meu futuro agora é um pouco limitado. Sei que não
vou durar para sempre e comecei a investir mais numa infra-estrutura
sólida e numa equipe competente. O que mais me preocupa é
consolidar o grupo. Conseguindo fazer isso, já estarei feliz.
Mas confesso que não consigo abandonar uma pergunta: o que
mais vou fazer agora?
Veja O que mais?
Armani Bem, para ser sincero, tem mais uma coisa que
quero fazer: copiar o Tom Ford quando ele diz que vai trabalhar
com cinema. Eu adoraria fazer cinema.
Veja De onde vem esse gosto?
Armani Cresci na Itália destroçada do
pós-guerra. Naquele tempo, faltava tudo e as pessoas lutavam
pela sobrevivência mais básica. O cinema era acessível
e mostrava um mundo maior que a realidade. Até hoje sou apaixonado
pelo cinema, por essa mágica que continua a influenciar o
meu trabalho.
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