Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Carta ao leitor
A imagem é uma arma


Marco Antonio Cavalcanti/Ag. O Globo
Edmundo e Renato Gaúcho (nos destaques) no enterro do bandido Maninho

O jornalista e escritor Luigi Barzini, autor do clássico Os Italianos, dizia que a Itália dos anos 60 apresentava o mesmo nível de desenvolvimento social da Inglaterra de 1920. O autor imputava essa defasagem de quarenta anos não apenas às condições econômicas, mas principalmente ao fato de na Itália dos anos 60 a sociedade ser condescendente e promíscua com os mafiosos.

Os relatos sobre o enterro do bicheiro Waldemir Paes Garcia, o "Maninho", fuzilado presumivelmente por rivais na semana passada no Rio de Janeiro, são uma triste evidência de que, usando-se a mesma medida de Barzini, parte do Brasil vive ainda imersa no gangsterismo típico das grandes cidades americanas das primeiras décadas do século passado.

Como outros grandes bandidos, Maninho, dono de milhares de pontos de jogos de azar ilegais, passava a vida em meio à sociedade distinta do Rio de Janeiro. Foi enterrado como viveu, cercado de gente famosa. Os jogadores de futebol Romário, tetracampeão do mundo, e Edmundo, ambos hoje no Fluminense, foram prestar as últimas homenagens ao amigo. Também esteve ao lado do caixão o ex-jogador Renato Gaúcho. Um surdo tocado por um ritmista da Escola de Samba do Salgueiro conferiu a devida solenidade às pompas fúnebres.

O Brasil e o Rio de Janeiro, em especial, não poderão estabilizar-se como sociedades modernas, produtivas e justas enquanto houver condescendência e promiscuidade com criminosos. Jogadores de futebol, artistas e outras celebridades têm a maior porção de responsabilidade em sinalizar a intolerância da sociedade com os malfeitores. Nos Estados Unidos, desde os anos 50, a Justiça pune com maior vigor os transgressores célebres. Chama-se isso de "efeito demonstração". Uma violação da lei que daria a uma pessoa anônima apenas uma multa ou advertência pode resultar em cadeia para outra famosa. Foi assim com a cantora de jazz Billie Holiday, condenada nos anos 50 por porte de drogas. Foi assim recentemente com a empresária e apresentadora de televisão Martha Stewart, que, acusada de manipulação no mercado de ações, vai cumprir pena de cinco meses. A lição? A imagem é uma arma. O melhor a fazer é usá-la para o bem.

 
 
 
 
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