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Carta ao leitor
A imagem é uma arma
Marco Antonio Cavalcanti/Ag. O Globo
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| Edmundo e Renato Gaúcho (nos destaques)
no enterro do bandido Maninho |
O jornalista e escritor Luigi Barzini, autor
do clássico Os Italianos, dizia que a Itália
dos anos 60 apresentava o mesmo nível de desenvolvimento
social da Inglaterra de 1920. O autor imputava essa defasagem de
quarenta anos não apenas às condições
econômicas, mas principalmente ao fato de na Itália
dos anos 60 a sociedade ser condescendente e promíscua com
os mafiosos.
Os relatos sobre o enterro do bicheiro Waldemir
Paes Garcia, o "Maninho", fuzilado presumivelmente por rivais na
semana passada no Rio de Janeiro, são uma triste evidência
de que, usando-se a mesma medida de Barzini, parte do Brasil vive
ainda imersa no gangsterismo típico das grandes cidades americanas
das primeiras décadas do século passado.
Como outros grandes bandidos, Maninho, dono
de milhares de pontos de jogos de azar ilegais, passava a vida em
meio à sociedade distinta do Rio de Janeiro. Foi enterrado
como viveu, cercado de gente famosa. Os jogadores de futebol Romário,
tetracampeão do mundo, e Edmundo, ambos hoje no Fluminense,
foram prestar as últimas homenagens ao amigo. Também
esteve ao lado do caixão o ex-jogador Renato Gaúcho.
Um surdo tocado por um ritmista da Escola de Samba do Salgueiro
conferiu a devida solenidade às pompas fúnebres.
O Brasil e o Rio de Janeiro, em especial,
não poderão estabilizar-se como sociedades modernas,
produtivas e justas enquanto houver condescendência e promiscuidade
com criminosos. Jogadores de futebol, artistas e outras celebridades
têm a maior porção de responsabilidade em sinalizar
a intolerância da sociedade com os malfeitores. Nos Estados
Unidos, desde os anos 50, a Justiça pune com maior vigor
os transgressores célebres. Chama-se isso de "efeito demonstração".
Uma violação da lei que daria a uma pessoa anônima
apenas uma multa ou advertência pode resultar em cadeia para
outra famosa. Foi assim com a cantora de jazz Billie Holiday, condenada
nos anos 50 por porte de drogas. Foi assim recentemente com a empresária
e apresentadora de televisão Martha Stewart, que, acusada
de manipulação no mercado de ações,
vai cumprir pena de cinco meses. A lição? A imagem
é uma arma. O melhor a fazer é usá-la para
o bem.
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