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Ponto
de vista: Lya Luft Homem,
mulher ou pessoa?
"Só nos pensando
e avaliando primeiro como pessoas poderemos nos
enxergar como homem ou como mulher"
Neste país desinformado, desiludido e desassistido, em que a política
foi trocada por um escrachado jogo de interesses e vantagens, os temas mais pessoais
poderiam parecer supérfluos: mas é bom ter algo produtivo a debater,
objeto de observação ou entusiasmo. Sendo assim, temas como o aparentemente
cansado "masculino/feminino" continuam produzindo entrevistas, livros, seminários.
Quando desanimamos das questões públicas, as humanas continuam fascinantes,
fundamentadas no imprevisto e no inatingível, por isso sem respostas definitivas.
Ilustração
Atômica Studio
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Pesquisamos,
discutimos e nos confundimos na questão dos gêneros. Queremos saber
se além do biológico existe uma psique, até uma literatura
feminina. (Faz parte do folclore a meu respeito dizer que escrevo para mulheres,
ou pior: para "mulheres maduras". Quanta tolice.) Por outro lado, não vejo
indagarem se existe uma literatura masculina, nem debatemos masculino/feminino
nas artes plásticas, na engenharia, na medicina. Não se discute,
que eu saiba, se arquitetas só podem desenhar casas ou interiores para
mulheres. Mulher produz trabalhos mais amenos e doces, homem segue caminhos mais
vigorosos e objetivos? Se ainda pensamos assim, está na hora de mudar,
correndo, correndo. É como ser humano que devo questionar o que faço,
o que pretendo, que significado posso dar à minha vida. As particularidades
biopsíquicas de cada gênero são uma complementação,
não a essência. Dessa perspectiva, o tema semelhanças e diferenças
entre os gêneros pode ser abordado com mais equilíbrio, relativa
lucidez e até algum bom humor.
Escrevi em
O Rio do Meio, irmão mais velho de Perdas & Ganhos, que
a solidão do homem tem a medida da solidão de sua mulher. Não
se pode falar num sem pensar no outro. As mudanças não se efetuam
sobre o gênero feminino da raça humana, mas inevitavelmente
sobre os dois. Ocorrem em toda a sociedade, aliás, em que tudo é
interdependente. Quanto às mulheres, tudo, menos ambicionar ser a mulher-maravilha:
ela é inevitavelmente uma chata. Somos assolados pela propaganda dessa
figura assustadora: um Monte Everest de perfeições, linda e competente,
sensual e grande profissional, independente mas disponível, romântica
mas vigilante, devotada, abnegada, vitimal... Não parece alguém
que a gente possa amar, com quem se possa dar risada, jogar conversa fora, namorar,
aconchegar-se, fazer descobertas desafiadoras ou sofrer perdas dolorosas, caminhar
pela vida até, quem sabe, envelhecer se esse ser perfeito envelhecesse,
é claro. Depois de ter estudado a alma humana, com grande curiosidade em
relação à feminina, Freud perguntou, já aos 80 anos:
"Afinal, o que quer uma mulher?". Não se desperdicem esforço e tempo
com demasiadas teorias procurando a resposta, pois se existir ela mudará
de pessoa para pessoa, de cultura para cultura, às vezes de ano para ano.
Homem ou mulher, homossexual ou heterossexual,
latino, europeu ou oriental, todos temos algumas ansiedades básicas que
nos tornam irmãos: desejo de segurança e de comida. Depois disso,
como franjas, como complementos que mudam de cultura para cultura, vêm desejo
de afeto e sentido, de ter alguma importância, para alguém ao menos.
Desejo de imortalidade mas esse é um luxo. Esses impulsos e desejos
são diferentes em nuanças e intensidade em homens e mulheres? Creio
que sim. Observar tudo isso é fascinante. Porém, viver é
mais importante do que compreender, a realidade é mais plena do que a teoria,
que deve ser perseguida com inteligência, mas sem aflição
e tumulto. A discussão homem/mulher é válida para que nem
um nem outro se sinta objeto ou possuidor, melhor ou pior, mandante ou servo.
Nem haja desculpas para lamentação e vitimização
do tipo "ah, eu te dei a minha juventude, eu me sacrifiquei", da parte das mulheres;
nem o velho "eu não te deixo faltar nada, ora bolas!", da parte dos homens
, mas a gente cresça em companheirismo, respeito e afeto.
Só nos pensando e avaliando primeiro como pessoas poderemos nos enxergar
como homem ou como mulher. Sem ambicionar nada de fixo e indiscutível,
somos um para o outro, e para nós mesmos, um desafio. Quando isso falta,
quando ficamos atordoados ou apáticos em qualquer setor, do mais íntimo
ao social, ao comunitário e ao político, passamos de guerreiros
a vítimas ou manipulados, sem participar de nosso próprio destino.
Se no império do grande Partido do Interesse
Próprio as coisas públicas andam repulsivas ou desanimadoras, no
terreno existencial ainda se pode buscar e descobrir, sem sentir que zombam da
nossa inteligência. Lya Luft
é escritora |