|
|
 O
mundo lê, vê e ouve os atentados
Do
declínio da comédia à ascensão da música
engajada, do escapismo no cinema à explosão do Islã no
mercado editorial, como a cultura absorveu o choque
TELEVISÃO
Os atentados ajudaram a derrubar as comédias do seu tradicional posto de
liderança na audiência: calcula-se que nos últimos anos tenham
sido extintos mais de 400 empregos de roteiristas e diretores especializados no
gênero na televisão americana. Seriados livres, leves e soltos como
Sex and the City, em que Sarah Jessica Parker e suas amigas corriam atrás
de namorados e de sapatos caros, e em que Nova York aparecia como um centro de
prazer e badalação, também sumiram de cena, e não
consta que se planejem substitutos. Na televisão, a síntese destes
novos tempos está em Jack Bauer, o agente antiterrorismo vivido por Kiefer
Sutherland na série 24 Horas. O programa, que estreou no ano do
11 de Setembro e acaba de obter sua maior consagração no Emmy, o
Oscar da TV nos Estados Unidos, apresenta um herói como até então
seria impensável no horário nobre de uma rede aberta no país.
Em nome da urgência do combate ao terror, Bauer passa por cima dos manuais
de conduta e adota uma ética própria ao quadro da guerra ao terror:
não hesita em torturar suspeitos e volta e meia aparece em conchavos com
o presidente, nos quais métodos pouco ortodoxos de espionagem são
tratados abertamente. Eis o caminho que se percorreu da última década
a esta de sex and the city a terror and the city.
CINEMA Fotos
divulgação
 |  | ANTES
Em Força Aérea Um, Ford era o presidente que tinha
seu avião tomado por terroristas. Pura fantasia, achava a platéia
| DEPOIS
Apenas começando a sair de uma fase dominada pelo escapismo, o espectador
ainda não quer realismo como o de Vôo 93 |
Sem respostas sobre como lidar com o mundo pós-11 de Setembro, Hollywood
recorreu à saída de sempre: o escapismo. Nesse "qüinqüênio
da fantasia", os dólares vieram de O Senhor dos Anéis, As Crônicas
de Nárnia, Harry Potter, King Kong, Guerra nas Estrelas,
Homem-Aranha e Piratas do Caribe quanto mais distante do mundo
real, melhor, concordaram platéia e estúdios. Produções
como Força Aérea Um, uma das grandes bilheterias dos anos
90, em que Harrison Ford enfrentava terroristas no avião presidencial,
hoje parecem possíveis demais para se prestar ao entretenimento. De um
ano para cá, porém, Hollywood começou a enfrentar novos medos.
Steven Spielberg saiu na frente, tratando primeiro do temor do caos imposto por
"alienígenas", em Guerra dos Mundos, e depois do ciclo de vingança
entre israelenses e palestinos, em Munique. O cinema de ação
tomou posse do tema do terror nas alturas, do estiloso Plano de Vôo,
com Jodie Foster, aos modestos Vôo Noturno e Serpentes a Bordo.
Mas há uma coisa para a qual a platéia americana ainda não
parece estar pronta: os fatos. Vôo 93, que recria os eventos a bordo
do Boeing 757 que os passageiros derrubaram, é o melhor de todos esses
filmes e o menos visto deles.
MÚSICA Jonas
Ekstromer/AP
 | Douglas
Mason/Getty Images
 | ANTES
Afrontas de caráter sexual ou religioso como as de Madonna eram a única
chance de polêmica no pop | DEPOIS
Bruce Springsteen, o número 1 do rock americano, primeiro homenageia os
bombeiros e daí parte para o protesto |
Depois de meio século de ostracismo, a política voltou a dar samba
ou pelo menos rock. Dada como morta desde os anos 70, a boa e velha canção
engajada ganhou, com os atentados, uma capacidade de polarizar opiniões
como antes só Madonna e suas afrontas pareciam ter. Seja pelo viés
mais dócil da homenagem às vítimas, seja em tom de contestação,
dezenas de artistas se apressaram em subir nesse bonde. O primeiro tributo partiu
de Paul McCartney, que presenciou o atentado contra a segunda torre e gravou às
pressas Freedom, para incluí-la no disco Driving Rain. O
inglês David Bowie dedicou dois CDs a Nova York: Heathen e Reality,
que falam do dia-a-dia da cidade após a tragédia. O roqueiro (e
democrata) que os americanos mais amam, Bruce Springsteen, lançou o disco
The Rising, celebrando os bombeiros que morreram nas Torres Gêmeas,
seguido neste ano por um álbum de clássicos da canção
de protesto. Mais espevitadas, as Dixie Chicks, ícones do country, atacaram
na primeira hora o presidente Bush e a decisão de invadir o Iraque
e viram-se elas próprias transformadas em alvo de protestos. Essa maré
pró-governo já arrefeceu nos Estados Unidos. O canadense Neil Young
gravou todo um álbum, Living with War, dedicado a pedir o impeachment
de George W. Bush. E foi muito bem recebido.
LIVROS Cronista maior da classe média
americana, que escandiu em livros como os da tetralogia Coelho, o escritor
John Updike acaba de adotar um personagem completamente inusitado no âmbito
de sua carreira: o protagonista do recente Terrorist, ainda inédito
no Brasil, é um jovem fanático muçulmano, meio irlandês
e meio egípcio, que está decidido a mandar alguma coisa pelos ares.
Updike não é um caso isolado. O 11 de Setembro mudou o foco da inspiração
de vários outros grandes autores de língua inglesa, como o britânico
Ian McEwan, cujo Sábado se passa em um dia de protestos contra a
Guerra do Iraque em Londres, e o americano Philip Roth, que em Complô
contra a América cria uma história alternativa dos Estados Unidos,
sombreada pela ameaça do governo Bush e de seu Patriot Act à liberdade
individual. Não só a criação, mas também o
mercado foram sacudidos pela queda das Torres Gêmeas. Em todo o mundo, explodiram
as vendas de títulos sobre o Oriente Médio e a cultura islâmica.
Já em outubro de 2001, Uma História dos Povos Árabes,
do inglês Albert Hourani, aparecia na lista dos mais vendidos de VEJA, pela
primeira vez desde que fora lançado, em 1994. Esse interesse se expandiu
desde então, como demonstra o sucesso atual do romance O Caçador
de Pipas, de Khaled Hosseini, e da reportagem O Livreiro de Cabul,
de Asne Seierstad, ambos sobre o Afeganistão. 
|