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Eleições
2006 Uma nova carta aos brasileiros
Cotejando-se o programa de governo feito pelo PT com os discursos de Lula,
a conclusão é clara: o presidente é melhor que o partido
 Otávio
Cabral Celso
Junior/AE  | | Lula,
ao fazer um de seus discursos recentes: clareza sobre o rumo da economia |
Em
seus discursos recentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma
espécie de nova Carta aos Brasileiros, o documento com que, na campanha
de 2002, se comprometeu diante da nação a manter a racionalidade
econômica e a normalidade democrática. Com simplicidade, ele disse
que é preciso reduzir a carga tributária, cortar os gastos públicos
e manter uma rigorosa disciplina fiscal. No campo político, Lula foi cristalino
quanto aos princípios que se propõe a sustentar. Eles vão
dos menos factíveis, como dialogar com "todos os partidos", aos mais pétreos,
como considerar "sagrado" seu compromisso "com a liberdade e a democracia". O
dado surpreendente é que nada disso a sensatez na economia, a maturidade
na política esteja contemplado no programa de governo que o PT fez
para um eventual segundo mandato. Com 34 páginas e elaborado durante quatro
meses, o programa é uma peça anódina, vaga e genérica,
na qual não se elege um conjunto de prioridades, não se fixam compromissos
claros nem se aponta um rumo minimamente nítido para o país. É
uma peça tão aérea e tão imprecisa que fica devendo
em clareza até mesmo às 88 páginas da proposta apresentada
por Lula na campanha presidencial de 2002.
Com sua colagem de imprecisões, o programa defende o incentivo às
pequenas empresas, mas não prevê redução da carga tributária,
que vem a ser uma das principais razões da asfixia dos negócios.
Diz que vai dar aumentos reais ao salário mínimo, mas não
informa de onde virá o dinheiro. Promete "acentuar o crescimento de empregos
formais", mas não solta nem mesmo uma dica de como pretende fazê-lo.
Diz que a segurança pública será tema prioritário,
mas não aponta uma única nova iniciativa na área. Além
dessas imprecisões, há incongruências, como a de prometer
preservar o equilíbrio macroeconômico e simultaneamente fazer silêncio
sobre a necessidade de cortar gastos medida que Lula defende abertamente
em seus discursos. Com passagens assim, que fingem não existirem conflitos,
fica claro que o programa foi elaborado com a intenção de não
desagradar a ninguém. Tal comportamento fica ainda mais evidente no tratamento
dado às reformas estruturais.
Em relação à reforma política, o texto atual traz
algum detalhamento, defendendo o financiamento público das campanhas eleitorais,
a fidelidade partidária e o voto proporcional em lista. Quanto às
demais reformas, no entanto, não se compromete com nada. Em relação
à reforma trabalhista, por exemplo, para não se indispor nem com
empresários nem com sindicalistas, limita-se a dizer que o governo vai
"encaminhar o debate". Sobre a reforma tributária, para não desagradar
a governadores nem a prefeitos, que tendem a resistir a qualquer medida capaz
de reduzir a arrecadação em seus estados e municípios, o
documento diz apenas que, num segundo mandato, o governo vai continuar apostando
em "programas seletivos de desoneração tributária". Trata-se
de uma evidente subdeclaração num país em que a carga tributária
ultrapassa 37% do PIB. Sobre a reforma da Previdência Social, um tema urgente
mas impopular, o texto toma um caminho ainda pior: simplesmente silencia.
Um dos mentores do programa, que pede para não ser identificado, confessa
que a imprecisão tem motivação eleitoral. "Se acenássemos
com mudança nos benefícios previdenciários dos servidores
ou dos aposentados, compraríamos brigas desnecessárias num momento
em que só precisamos administrar a vitória", diz ele, que participou
das reuniões de elaboração do programa e é interlocutor
freqüente do presidente Lula. Numa passagem do programa, a intenção
de agradar a todos para não complicar as chances de reeleição
chega ao paroxismo. Diz o seguinte: é preciso a "elevação
substancial dos investimentos, especialmente públicos e nacionais, bem
como privados e estrangeiros". Ou seja: especialmente todos...
J.
F. Diorio/AE
 | | Marco
Aurélio: deformando a opinião de Lula |
Com
seu tom macunaímico, o programa acaba por contrariar o que Lula tem dito
em seus pronunciamentos mais recentes. VEJA comparou o atual programa com discursos
que o presidente fez nas últimas duas semanas. Fica óbvio que Lula
tem idéias mais claras e mais sensatas do que as expressas no programa
elaborado pela cúpula do PT. Na solenidade em que o texto foi divulgado,
Lula, em tom conciliatório, falou em "arrumar parceiros" na política,
mas o próprio programa desanca a oposição, de um modo inamistoso
que não abre espaço ao diálogo. Em outro discurso na semana
passada, para a Associação Nacional de Jornais, Lula fez uma defesa
da liberdade de expressão e de imprensa. "Sou comprometido com a liberdade
em todas as suas dimensões essenciais. Com a liberdade de expressão,
em seu sentido mais amplo, seu sentido cultural. E, em particular, com a liberdade
de imprensa, essa ferramenta que ajudou a criar, manter e aperfeiçoar a
democracia moderna em que vivemos." No mesmo dia, seu assessor internacional,
Marco Aurélio Garcia, que coordenou a elaboração do programa
de governo, disse que no Brasil existem "deformadores de opinião, e não
formadores de opinião" e acusou setores da sociedade de "golpistas".
A dicotomia entre o que Lula diz e o que o PT escreve pode ser explicada pelo
crescente distanciamento entre ambos. "Lula está cada vez mais independente
do PT, sobretudo depois do escândalo do mensalão", diz o cientista
político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB). "Nesse
ambiente, o PT até pode escrever numa proposta de programa o que realmente
gostaria que fosse o segundo mandato, mas Lula faz e fará o que bem entende."
Considerando-se o conteúdo do que Lula diz e do que o PT escreve, é
um bom sinal que o presidente seja independente de seu partido. Com seus pronunciamentos,
em que não acena para invenções populistas nem para aventuras
políticas, Lula mostra que é melhor do que o PT e, se for
mesmo reeleito, conforme indicam as pesquisas eleitorais, é saudável
que coloque em prática o que tem dito em seus discursos, e não o
que o PT colocou no papel. O único ponto em que há uma perfeita
convergência entre ambos lamentavelmente é na tentativa
de minimizar responsabilidades individuais nos episódios de corrupção.
O texto do programa, tal como Lula tem feito, ignora a existência dos escândalos.
Chega a dizer, a certa altura, que o novo governo vai manter a "relação
democrática com o Legislativo", quando o país inteiro sabe que a
relação foi movida a dinheiro. Mas, se Lula se reeleger e rasgar
o cartapácio petista, dando prioridade a suas próprias idéias,
o país ganhará.
| SOBRE
A REDUÇÃO DE IMPOSTOS | EM
DISCURSO NO CONSELHO DE DESENVOLVIMENTO, EM 24 DE AGOSTO "Precisamos
ter uma carga de impostos mais leve."
NO
PROGRAMA DE GOVERNO Não há nenhuma
menção à reforma tributária para redução
de impostos. A certa altura, diz apenas que o segundo governo deve "prosseguir
em programas seletivos de desoneração tributária, buscando
fortalecer a expansão do sistema produtivo".
COMENTÁRIO
O presidente está certo. É preciso
reduzir a carga tributária, que já bateu o recorde histórico,
passando de 37% do PIB, incluindo-se aí o peso dos impostos federais, estaduais
e municipais. No programa de governo, a reforma tributária não é
sequer mencionada, numa inexplicável omissão. |
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| SOBRE
O CORTE DE GASTOS | EM
DISCURSO NO CONSELHO DE DESENVOLVIMENTO, EM 24 DE AGOSTO "Precisamos
trabalhar para melhorar a qualidade do nosso gasto, diminuindo as despesas de
custeio para investir mais em infra-estrutura."
NO
PROGRAMA DE GOVERNO "O projeto
real da oposição é o de voltar à era FHC: redução
dos investimentos sociais, retomada das privatizações, retrocesso
democrático e submissão no plano internacional. Os anunciados 'cortes
do gasto público' visam, em verdade, a cortes nas políticas sociais."
COMENTÁRIO
Há um cabo-de-guerra entre o PT e a campanha de Lula
quando o assunto é redução de gastos públicos e manutenção
do superávit primário. Lula e ministros dizem claramente que haverá
corte de gastos e que o superávit primário será mantido em
4,25% do PIB num eventual segundo mandato. O programa de governo, de novo, esquiva-se
do tema. | |
| SOBRE
A OPOSIÇÃO | EM
DISCURSO NO LANÇAMENTO DO PROGRAMA, EM 29 DE AGOSTO "Ao
ser eleito, teremos uma vida nova. Vamos ter novos deputados e vamos poder estabelecer
nova relação. Vou construir essa relação pessoalmente
com os partidos políticos. Pretendo conversar com todo mundo, com todos
os partidos. Minha idéia é conversar com todos os partidos e dizer:
'Vamos pensar três quartos de tempo no Brasil e um quarto de tempo na disputa'."
NO
PROGRAMA DE GOVERNO "As eleições
de 2006, mais do que quaisquer outras no passado, estarão marcadas por
um enfrentamento político-ideológico que opõe um bloco social
comprometido com profundas mudanças na sociedade brasileira àqueles
que sempre utilizaram o poder do estado em benefício dos interesses de
uma minoria."
COMENTÁRIO A
disposição do presidente Lula de conversar
com "todos os partidos" é saudável e faz parte do regime democrático.
O programa de governo mistura demagogia com ficção, ao criar antagonismos
que não existem na prática como a suposta existência
de divisão de blocos e enfrentamento olítico-ideológico.
Quando fala em trabalhar no assunto "pessoalmente", Lula deixa subentendido que
o PT terá papel coadjuvante. Silvia
Izquierdo/AP  | | Alckmin,
em evento de campanha: Lula acena com diálogo, mas o programa do PT desanca
a oposição |
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| SOBRE
A DEMOCRACIA |
EM DISCURSO AOS MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL
DE JORNAIS, EM 29 DE AGOSTO "O Brasil vive
um período histórico de plena democracia. Nossas instituições
estão fortalecidas e funcionam de forma independente. Longe vai o tempo
em que as liberdades individuais eram cerceadas por um Estado autoritário,
e tenho certeza de que a conquista da democracia é um dos motivos pelos
quais nosso país, finalmente, está entrando nos trilhos de um desenvolvimento
mais justo e sustentável."
NO
PROGRAMA DE GOVERNO Não há menção
direta à defesa do regime democrático. Há passagens, no entanto,
que sugerem a adoção da democracia direta "por meio de conselhos
e comitês" populares.
COMENTÁRIO
O
discurso de Lula é claro e correto na sua defesa das liberdades e do regime
democrático. Seu programa, ao contrário, parece valorizar mais a
democracia direta com as massas, desprezando as instituições
mas nem isso é dito claramente. | |
| SOBRE
A LIBERDADE DE IMPRENSA |
EM DISCURSO AOS MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL
DE JORNAIS, EM 29 DE AGOSTO "Quero reafirmar
a todos vocês que meu compromisso com a liberdade e com a democracia é
sagrado. Sou comprometido com a liberdade em todas as suas dimensões essenciais.
Com a liberdade de expressão, em seu sentido mais amplo, seu sentido cultural.
E, em particular, com a liberdade de imprensa, essa ferramenta que ajudou a criar,
manter e aperfeiçoar a democracia moderna em que vivemos."
NO
PROGRAMA DE GOVERNO Não há menção
à liberdade de imprensa e, em vez disso, preconiza "construir um novo modelo
institucional para as comunicações, com caráter democratizante",
e promete "incentivar a criação de sistemas democráticos
de comunicação, favorecendo a democratização da produção,
da circulação e do acesso aos conteúdos pela população".
COMENTÁRIO
Lula, que chancelou a Declaração de Chapultepec,
que lista os princípios básicos da liberdade de expressão
e de imprensa, tem feito uma defesa clara e inequívoca desses princípios.
No programa de governo, o texto é dúbio e parece fazer eco a documentos
que já vieram a público nos quais o PT preconizava usar dinheiro
público para financiar uma imprensa amiga.
AP
 | | Oscar
Arias, prêmio Nobel da Paz, assina a Declaração de Chapultepec:
compromisso com a liberdade de imprensa |
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